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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.12

04/2008

E quando o paciente não adere?

Trabalho em equipe conquista a maioria dos pacientes, mas não todos

“O acesso gratuito aos remédios é uma conquista brasileira, e eu achava um absurdo alguém não aderir a um tratamento tão poderoso. Até que, de repente, caiu na minha mão uma revista SABER VIVER com uma notícia bombástica na capa: “ARVs e a lipodistrofia””, escreve Silmara Retti, em seu livro de memórias*. A escritora, que já então fazia uso de anti-retrovirais, conta que identificou a imagem da capa com a imagem de seu próprio corpo, que começava a sofrer as transformações da lipodistrofia. Então pensou: “Desculpa, mas parei por aqui. Vou descer do bonde agora!” Desceu: ficou sem tomar nada durante meses…

Na terapia anti-retroviral, sabemos, a adesão tem uma função a mais do que nos casos de outras doenças. Aderindo, o paciente diminui a chance de o HIV tornar-se resistente às drogas disponíveis. Como aconteceu com Silmara, porém, os efeitos colaterais, entre outros fatores, acabam afastando alguns pacientes do tratamento. A clínica geral Sandra Príncipe Passini atende na Policlínica Alberto Bogerth, no Rio de Janeiro. Ela persiste na tentativa de convencimento, mesmo com o paciente que se recusa definitivamente a aderir ao tratamento: “Ofereço apoio, ao mesmo tempo que me sinto impotente, triste e desconfortável frente à situação, pois meu desejo é revertê-la e não consigo”, revela.

Quando a recusa é do profissional
O infectologista Paulo Roberto do Nascimento Santos, antes de acumular experiência clínica, chegou a desanimar em relação a alguns pacientes não-aderentes: “No início da minha carreira, eu acreditava que os pacientes deviam seguir um regime rigoroso, obviamente ditado por mim, e meu interesse por aqueles que não se enquadravam nesse modelo pobre e rude de atendimento diminuía bastante. Hoje entendo a complexidade do processo de adesão”, explica ele, que é chefe de Clínicas na Policlínica Alberto Borgerth, além de atuar nos Programas de DST/Aids dos municípios de Queimados e Mesquita, no estado do Rio de Janeiro.

Paulo Roberto aponta para a necessidade de o médico reconhecerquando esgotou todas as possibilidades com um paciente: “Neste caso, costumo referenciá-lo para outro médico. Isso não é desistir do tratamento, é mudar a estratégia, envolvendo um novo profissional no processo, na tentativa de obter sucesso. Nesse sentido, tenho alguns casos muito bem sucedidos, de pacientes que aderiam mal comigo e passaram a aderir muito bem com outro médico, ou que aderiam mal com um colega e passaram a aderir bem comigo”, conta.

Sandra Príncipe Passini é outra que já passou pacientes adiante: “Tenho a convicção de que certas parcerias não dão muito certo, assim como certos relacionamentos. A relação médicopaciente nem sempre é satisfatória, não só do ponto de vista do paciente como do médico. Algumas vezes, já senti que, apesar de tudo que faço, não estou sendo eficaz para aquele paciente em particular, não consigo que ele faça o que deve ser feito”, admite. “Às vezes, quando sugiro sua transferência para outro posto, a relação melhora. Então continuamos o tratamento”, acrescenta.

A força da equipe
Paulo Roberto lembra da importância da equipe multidisciplinar no estímulo da adesão: “Esse papel não deve centralizar-se em uma única pessoa. Médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e atendentes devem estimulá-los. Reuniões de equipe para troca de experiências individuais e discussão de casos também ajudam. Na grande maioria das vezes, conseguimos animar os pacientes a seguir seus tratamentos”, afirma.

Também infectologista, Karla Gripp comenta que todos os profissionais de saúde da área de HIV/aids sabem da importância de se trabalhar emequipe: “Porém, pelas precárias condições da saúde pública e pelos baixos salários, muitas vezes não se tem uma equipe completa e multidisciplinar”, lamenta. A solução, para a médica, está em desviar o eixo da responsabilidade do tratamento para o paciente: “Isso precisa começar na consulta, o médico deve mostrar a importância e o porquê dos exames, deve mostrar os resultados e fazê-lo entender, por exemplo, o que é CD4 e o que é carga viral”. Karla é colega de Paulo Roberto e de Sandra na Policlínica Alberto Bogerth, além de trabalhar no Hospital Municipal Rafael de Paula Sousa e Hospital Gaffrée e Guinle, todos no Rio de Janeiro. Para ela, o fundamental é que o paciente deve ser mantido a par do objetivo do tratamento.

Sandra lamenta que nem sempre seja possível levar um paciente a se tratar, mesmo utilizando várias estratégias de adesão: “Os motivos são
diversos: dificuldades financeiras, problemas familiares, depressão, falta de esperança num futuro melhor e outros tantos”, enumera. Mas fazemos reuniões mensais de adesão e atéuma específica para quem utiliza a enfuvirtida, que é uma medicação injetável. Criamos, também, o Cartão de Acompanhamento, que fica com o paciente. Nele anotamos os itens importantes da parte médica, como datas e resultados de exames, doenças que o paciente já teve, vacinas que tomou etc. O objetivo é que ele seja participante ativo de seu acompanhamento médico e dos cuidados com sua saúde”, explica.

Não aderir é um direito?

Paulo Roberto acredita que alguns pacientes não aderem por “livrearbítrio”: “É claro que é frustrante para o profissional quando falha no seu objetivo”, pondera, “mas precisamos entender que os pacientes têm o livre-arbítrio sobre as suas vidas. É deles o direito de decidir se querem fazer o tratamento ou não”, afirma. Para o médico, são “não-aderentes convictos” os pacientes que estejam cientes da dinâmica da doença e conscientes de todas as conseqüências para a sua saúde, inclusive do risco de morte: “Eles são, porém, muito raros”, assegura.

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