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Saber Viver » Saber Viver n.01

11/1999

Efeito colateral

É possível superar mais este obstáculo

Otávio Valente Júnior, secretário geral do Grupo Pela Vida/RJ, sabe que é soropositivo há 10 anos. Hoje, ele está livre das doenças oportunistas graças ao tratamento com os anti-retrovirais. Por outro lado, tem que conviver com os efeitos colaterais destes medicamentos. Não é nada fácil, mas Otávio admite que tem valido a pena.

Saber Viver: Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou, em relação aos medicamentos contra Aids?
Otávio: Um dos primeiros medicamentos que tomei tinha que ser triturado e de preferência dissolvido em água. Muitas vezes, na hora em que tinha que tomá-lo, eu estava, por exemplo, em um ônibus. Então, como é que eu ia fazer? Eu tinha que mastigá-lo ou deixá-lo embaixo da língua dissolvendo. Era um comprimido enorme e tinha um gosto horrível. A dificuldade no início era basicamente esta. Hoje já não tomo mais este medicamento, mas parece que ele está bem melhor.

SV: E quando começaram a aparecer os efeitos colaterais?
Otávio: Quando eu comecei a tomar o coquetel (Estavudina, Epivir e Crixivam), no final de 97. A Estavudina me causa dores nas articulações. Eu sinto um formigamento e perco parte da sensibilidade dos pés. Mas é ela que tem ajudado a manter o equilíbrio do meu sistema imunológico. Então eu tomo um outro medicamento que atua contra estas dores. Este remédio me dá sono, mas eu prefiro ficar sonolento do que com dores nos pés. Quer dizer, eu tenho que fazer sacrifício, sim. Não dá pra achar que é só tomar o medicamento que vai ficar 100%, porque não vai. Porém a última coisa em que penso é tirar a Estavudina. Eu tenho que me acostumar e tentar minimizar estes efeitos.

SV: Então o que mais incomoda são as dores nos pés?
Otávio: Não. Tem ainda outro efeito colateral, provocado pelo Crixivam, que não é amenizado por remédios, mas por exercícios físicos. É a lipodistrofia, que acumula gordura no abdome e deixa pernas e braços finos. Tentar tornar os efeitos colaterais mais suportáveis é também papel do médico. Se a lipodistrofia é inevitável, então ele já deve ir falando da importância do exercício físico. Porque a mudança do corpo mexe com a auto-estima, deixa a pessoa mais vulnerável.

SV: Você acha que uma boa relação entre o médico e o paciente ajuda no tratamento?
Otávio: Com certeza. A Aids veio revolucionar a relação médico-paciente. Até então a posição do médico era ficar do alto do seu jaleco ditando regras. O paciente saía do consultório com os medicamentos que tinha que tomar sem nem entender direito qual era sua doença. No entanto, a Aids é uma doença muito desconhecida para ambas as partes. Então, se médico e paciente estão fragilizados, eles terão que trocar muita informação. Os dois devem dividir a responsabilidade pelo tratamento.

SV: Já passou pela sua cabeça, num momento de crise, em parar de tomar os medicamentos?
Otávio: Tem hora que a gente pensa. No dia a dia, tem certos momentos em que a gente até esquece que tem Aids. Mas tem horas… Enfim a vida tem altos e baixos. Eu posso dizer que agora convivo bem com os medicamentos. Mas é um stress permanente. A cada 4 meses tenho que fazer exame de sangue e depois esperar pelo resultado que nunca sei se vai ser bom ou ruim. Aprender a conviver com isso é difícil.

SV: O que você diria a quem está passando por tudo isto?
Otávio: Aguenta firme, não desanima. Eu gosto de pensar assim: hoje eu estou com perna fina, braço fino, sem bunda, mas estou vivo, estou bem. Há 10 anos as pessoas bem que gostariam de estar assim, mas morreram porque não tinham medicamentos para tomar.

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