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Saber Viver » Saber Viver n.06

09/2000

Encarando o preconceito

Atitudes que discriminam devem ser denunciadas

O tratamento contra a Aids avança rapidamente. Hoje já existem medicamentos que inibem a reprodução do vírus HIV. Mas, infelizmente, ainda não conseguimos remédio para um grande problema que assola a vida dos soropositivos: a discriminação. Esta forma de preconceito acontece nos mais diversos locais, nas mais diferentes situações: no trabalho; na escola do filho; entrando num ônibus com o passe livre; ou até mesmo em casa, com os familiares.

Carlos, 32 anos, sofre na pele o preconceito do irmão que faz questão de separar talheres e copos quando ele vai visitá-lo. Mas Carlos se sentiu realmente discriminado quando este irmão o proibiu de brincar com o sobrinho. “Agora fica difícil me aproximar de alguma criança”. Morador da cidade de Petrópolis (RJ), Carlos acredita que o maior problema da Aids é a depressão causada pelo preconceito. Hoje casado com uma pessoa soronegativa, Carlos freqüenta um grupo de auto-ajuda, o Api-Aids. “Neste lugar eu encontro o pão para a minha alma”.

Sônia, 30 anos, é moradora de Araruama (RJ), uma cidade na Região dos Lagos. Uma de suas filhas foi alvo do preconceito na escola. “Várias vezes ela chegou chorando em casa porque estava sendo discriminada pelos amiguinhos”. Sônia, que freqüenta há dois meses uma ONG chamada AFADA, realizou uma palestra no colégio. O sucesso foi tão grande que alguns amigos pediram desculpas à sua filha. “Tenho recebido mais informações e tenho tido a oportunidade de repassá-las para outras pessoas”, comemora Sônia. Há um ano viúva, ela está reconstruindo a vida com outra pessoa. Apesar de seu namorado nunca ter colocado nenhum empecilho na relação pelo fato dela ser soropositiva, várias pessoas foram até ele para falar dos riscos desta relação. “Isto é uma forma de discriminação”, desabafa Sônia que manda um recado para as pessoas que passam pelo mesmo problema: “Levante a cabeça. A vida é muito preciosa para nos deixarmos abater com coisas bobas. Se afaste das pessoas que não te aceitam como você é”.

Jussara se sente fortalecida ajudando outras pessoas com o seu trabalho voluntário

O pavor da discriminação

O medo de ser discriminada pelos amigos causa pânico em Jussara, 47 anos (fotos acima). “Não agüentaria ver meus amigos separando copos ou se afastando de mim pelo fato de eu ser soropositiva”. Em função disso, ela escolhe a dedo para quem contar que tem o vírus HIV. Mesmo assim, Jussara passa por algumas situações delicadas. A entrada pela frente do ônibus com o passe livre é uma delas. Ela conta que sempre é discriminada pelos motoristas: “Eles me vêem sem nenhum problema físico aparente, então ficam com má vontade. Alguns me perguntaram o que eu tinha, mas eu nunca disse”. O espaço que Jussara se sente fortalecida é no Hospital dos Servidores (RJ), onde é voluntária do grupo de auto-ajuda Viva a Vida. “Comecei a me sentir bem quando eu comecei a ajudar outras pessoas, passando informações e dando uma palavra de carinho”.

Carla, 29 anos, descobriu que é soropositiva há três anos. Moradora da cidade de Macaé (RJ), ela já passou por algumas situações constrangedoras envolvendo discriminação. “Uma vez abordaram uma amiga minha para contar que eu tinha Aids. Ela disse que não deixaria de ser minha amiga por causa disso”, lembra. Outro problema encarado por Carla foi na ida ao dentista que propôs atendê-la num dia especial, longe dos outros pacientes. “O argumento dele é que a clientela poderia se assustar e procurar outro dentista quando soubesse que ele tratava de soropositivos”, explica. Indignada, Carla nunca mais colocou os pés lá e procurou outro consultório.

Reação: o antídoto para o veneno do preconceito
Para o advogado Marcelo Turra, uma das causas que justificam a figura do preconceito é a falta de informação. Há 10 anos defendendo os direitos de pessoas soropositivas no Escritório Modelo de Advocacia Gratuita da Universidade Cândido Mendes e no Gapa/RJ, Marcelo acredita que o grande instrumento que pode reverter o preconceito contra os soropositivos é o Direito. “Além de punir a discriminação, ainda conseguimos através do Direito auxiliar pessoas que, por exemplo, necessitem de determinado remédio”, conta Marcelo. Mas, para que o Direito possa atuar, é necessário que as causas cheguem aos tribunais. “A Aids é um tema muito recente nos tribunais. É importante que as pessoas reivindiquem os seus direitos e denunciem as discriminações para que os juizes tenham oportunidade de refletir sobre o assunto”.

Segredo de Justiça garante sigilo
Marcelo garante o anonimato de seus clientes utilizando o Segredo de Justiça: “Poucas pessoas conhecem este mecanismo. Ele impede que dados sobre a pessoa que move a ação sejam revelados”. Utilizando o Segredo de Justiça, Marcelo conseguiu uma sentença inédita no país, na qual obrigou um Jardim de Infância da Zona Oeste carioca a pagar 50 salários mínimos a uma família cujo filho foi impedido de freqüentar a escola porque é soropositivo. O advogado comemora também outra vitória inédita nos tribunais do Brasil: Uma empresa de ônibus foi condenada a pagar 250 salários mínimos ao seu cliente que foi discriminado ao entrar num ônibus com o passe livre. “O motorista só o deixou entrar depois que ele disse que era soropositivo. Este tipo de constrangimento é inaceitável”, indigna-se Marcelo. “As pessoas precisam parar de dizer que não existe Justiça. Precisamos reivindicar os nossos direitos. Somente assim teremos uma sociedade mais justa e democrática”.

Todos os nomes são fictícios, exceto Jussara

AFADA
Praça São Sebastião, 296 – Centro – Araruama – RJ
Tel: (24) 665 0545
Api-Aids
Rua Carlos Gomes, 180 – Bingem – Petrópolis – RJ
Tel: (24) 243 1720
Escritório de Advocacia Gratuita da Universidade Cândido Mendes
Rua Visc. de Pirajá, 177/8º andar – Ipanema
Rio de Janeiro – RJ
Tel: (21) 523 4141- R. 201
Grupo de auto-ajuda Viva a Vida
HSE – Rua Sacadura Cabral, 178 – Anexo 4/5º andar
DIP – Saúde – Rio de Janeiro – RJ
Gapa/RJ
Rua Conde de Bonfim, 377/cob 4 – Tijuca
Rio de Janeiro – RJ – Tel: (21) 571 4141

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