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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.16

07/2009

Enfermagem

Consulta de enfermagem pode reforçar vínculo do paciente com a unidade de saúde, reduzir o número de faltosos e melhorar a adesão

Quando se fala em tratamento, pensa-se rapidamente em medicamento. Em HIV/aids, a idéia é associada quase de imediato aos antirretrovirais. A enfermagem busca desfazer esta perspectiva reducionista, que muitas vezes leva à falha terapêutica. Esclarecer os pacientes sobre a importância das consultas médicas e da realização dos exames de rotina, convencê-los da necessidade de prevenção de outras doenças sexualmente transmissíveis e estimulá-los a compartilhar dificuldades e riscos inerentes ao status sorológico são os desafios diários destes profissionais para alcançar o sucesso do tratamento.

Para isso, a equipe de enfermagem do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas da Fiocruz (Ipec) implantou as consultas de enfermagem há mais de um ano. “Os antirretrovirais são imprescindíveis, mas sem os demais procedimentos não é possível ter controle sobre o tratamento – e isto pode levar à falha terapêutica. Nesse contato com o paciente, orientamos sobre a importância de comparecer regularmente às consultas médicas e de realizar os exames laboratoriais de rotina”, diz a enfermeira Maria José Martins, da equipe do Ipec.

Sua companheira de trabalho, a também enfermeira Cleyde Bié ressalta que mesmo os pacientes assintomáticos devem receber acompanhamento clínico e laboratorial regular, para identificar a possível necessidade de iniciar a terapia antirretroviral. “A realização de exames periódicos é fundamental para o tratamento de pessoas vivendo com HIV/aids – sobretudo a contagem de CD4 e de carga viral”, explica Cleide.

Retorno de pacientes
Para as enfermeiras, a consulta de enfermagem também é uma estratégia importante para trabalhar a adesão à terapia antirretroviral. “Promover a adesão ao tratamento é uma das principais tarefas de enfermeiros e técnicos de enfermagem. Muitas vezes não é fácil. É preciso ter paciência, dedicação e ser bastante atencioso para, ao final de uma jornada de trabalho, sentir-se gratificado por ter ajudado a melhorar a qualidade de vida de alguém”, resume a enfermeira Cleyde Bié.

Desde que a consulta de enfermagem foi implantada no hospital do Ipec/Fiocruz, a dupla de enfermeiras, que realiza em média cem atendimentos por mês, conquistou o retorno de mais de 80% dos pacientes em situação irregular. Até o final de 2008, dos 200 casos faltosos, 160 retomaram o tratamento.

Para isso, elas operam uma verdadeira investigação – a chamada busca ativa. “Todos os dias, analisamos as fichas dos pacientes para identificar os que não comparecem às consultas médicas. Entramos em contato por telefone, carta ou email e tentamos descobrir o porquê das faltas. Então, procuramos maneiras de superar os obstáculos e trazer o paciente de volta para o tratamento”, relata Cleide, que ressalta que a busca ativa deve ser feita respeitando o direito ao anonimato.

Trabalho de equipe
Para trazer de volta os pacientes faltosos, as enfermeiras contam com o apoio de outros profissionais de saúde. “Ao perceber que o acompanhamento de um paciente é irregular, os profissionais o reportam imediatamente para nós. Isso pode acontecer na consulta médica, na entrega de medicamentos ou mesmo na recepção. Sem a colaboração de toda a equipe, fica impossível conquistar o retorno dos pacientes que abandonaram o tratamento”, reconhece Maria José.

Uma porta de entrada para a consulta de enfermagem é a demanda espontânea pelo pronto-atendimento, na tentativa de resolver a sintomatologia provocada pela interrupção da terapia antirretroviral. O abandono do tratamento prejudica o sistema imunológico e propicia o aparecimento de doenças oportunistas. “Quando isto acontece o paciente rapidamente procura o prontoatendimento para resolver seu malestar sintomático. É muito comum também uma pessoa que não está frequentando as consultas médicas comparecer ao pronto-atendimento só para renovar a receita. Nos dois casos, a consulta de enfermagem é acionada, para que possamos resgatar o paciente e garantir seu acompanhamento regular”, descreve Cleide.

Para as enfermeiras do Ipec, o vínculo entre enfermeiro e paciente também é peça-chave para a adesão ao tratamento. “A consulta de enfermagem procura viabilizar o contato do paciente com a instituição, para garantir um acompanhamento regular. São muitos os motivos que levam ao abandono do tratamento: indisponibilidade de tempo, não aceitação do status sorológico e dificuldades financeiras são alguns deles. Como elemento facilitador, nosso papel é solucionar ou minimizar estes problemas, a fim de fortalecer o vínculo do paciente com a instituição”, diz Maria José.

Autocuidado e prevenção
Elas acreditam que o trabalho em equipe é fundamental para o sucesso da estratégia. “Sem o auxílio de médicos, farmacêuticos, técnicos de laboratório e até da equipe administrativa seria impossível adequar as consultas e o tratamento, às necessidades especificas de cada paciente”, afirma Cleide.

Além de promover a adesão à terapia antirretroviral, a consulta de enfermagem estimula o autocuidado e fornece orientações sobre possíveis reações adversas e doenças oportunistas. “Também esclarecemos sobre a importância do uso do preservativo, mesmo quando os parceiros são soropositvos. A prevenção é essencial para evitar o desenvolvimento de resistência aos antirretrovirais e a contaminação por outras doenças sexualmente transmissíveis, como hepatite e sífilis”, informa Cleide.

Para Maria José, os que menos conseguem dar continuidade ao tratamento são os usuários de drogas ilícitas. Além de mais vulneráveis a reações adversas aos medicamentos e à ocorrência de doenças oportunistas, apresentam conturbado quadro emocional e psíquico. Para atendê-los, é fundamental a parceria com psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.

Exemplos de sucesso
Em pouco mais de um ano de trabalho no hospital do Ipec/Fiocruz, as enfermeiras Cleyde Bié e Maria José Martins comemoram algumas vitórias.
“Já conseguimos criar muitos vínculos e hoje as pessoas nos procuram diretamente para saber como podemos ajudá-las. Uma conquista significativa é o reconhecimento, também pelos pacientes assintomáticos, da importância do acompanhamento clínico e laboratorial regular”, exemplifica Cleide.

As enfermeiras relatam que há pacientes vivendo no exterior que conseguem aderir ao tratamento completo, incluindo o acompanhamento médico e a realização de exames. Elas destacam o caso de um paciente que, por viajar muito a trabalho, tem grande dificuldade em comparecer a consultas agendadas com antecedência. “Neste caso, como o enfermeiro pode ajudar? A solução é adequar as consultas à disponibilidade do paciente”, sugere Maria José.

“Esta vitória é possível graças à flexibilidade do trabalho de enfermagem, que, com o apoio da equipe multidisciplinar de profissionais de saúde, cria condições para o paciente efetuar o tratamento”, comemoram.

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