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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.20

09/2010

Enfrentamento: religiosidade x adesão

Maria Alba de O. Silva *

Desde 1999, desenvolvo um Grupo de Adesão com os pacientes tratados com antirretrovirais no Ambulatório de Infectologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC – UFPR), em Curitiba. Neste artigo, vou descrever o caso de um paciente que interrompeu o tratamento em nome da fé e colocou sua saúde em risco. Gostaria de compartilhar essa experiência com outros profissionais de saúde para que possamos analisar a conduta tomada, no que diz respeito à adesão.

Diagnosticado soropositivo em setembro de 1995, Silvio, de 41 anos, abriu o quadro com diarréia aguda. Em quatro meses, emagreceu 15 quilos e entrou em depressão. O paciente deu início a monoterapia (AZT) com CD4 de 41 células. Menos de um ano depois, já estava assintomático, com CD4 de 71 e em terapia dupla (AZT+DDI). Silvio evoluiu bem, teve boa adesão ao tratamento, e atingiu carga viral indetectável (quando o exame se tornou disponível).

Em 1999, quando o Grupo de Adesão iniciou, o paciente tornou-se membro ativo e participativo no processo de adesão como também no auxílio à adesão de outros pacientes. Em 2001, foi introduzido um Inibidor de Protease em sua terapia terapêutica e, até 2004, sua carga viral se manteve indetectável.

Em agosto de 2004, num retorno programado, Silvio chegou ao atendimento em bom estado geral e, como de costume, muito bem humorado. Porém, com carga viral de 101.000 cópias e CD4 de 366. A médica o indagou sobre as tomadas da terapia e ele respondeu que estava tudo bem, com as tomadas regulares como sempre fazia.

Fui chamada para investigar sobre a adesão do paciente. Ao questioná-lo sobre o tratamento, obtive a mesma resposta que havia sido dada à médica. Comuniquei à equipe e solicitamos um exame de genotipagem, pois acreditava que Silvio se mantivera aderenteà medicação e que estávamos diante de uma falha no esquema de medicamentos.

Em dezembro de 2004, dois meses após Silvio iniciar uma nova terapia, segundo teste de genotipagem, o paciente apresentava carga viral de 198.000 cópias e CD4 de 133. Chamamos Silvio para uma nova conversa e fizemos outros questionamentos sobre sua adesão. Finalmente, ele confessou que havia parado de tomar todos os remédios em maio de 2004 e que não conseguia mais omitir esta informação. O paciente relatou ainda que desde aquela data, segundo sua igreja, ele estava curado, pois tinha se convertido. Silvio acreditou fielmente nas palavras recebidas.
A partir dessas informações, iniciamos novo processo de adesão com uma nova negociação que tinha como estratégia de abordagem a co-participação e a co-responsabilidade. Instituímos o lema “Faça a sua parte e Deus fará a dele” para esta nova fase do tratamento. Dois meses após o início da nova terapia, Silvio apresentava carga viral indetectável e o CD4 sinais de melhora (182 em fevereiro de 2005 291 em junho do mesmo ano).

Atualmente, o paciente está casado (sua esposa é soronegativa), planeja ter filhos e está ciente de sua participação no processo do tratamento, de sua adesão e na manutenção da mesma, visando sempre a melhoria de sua qualidade de vida. Hoje, o lema de Silvioé “Viver, mas viver muito bem”.

Este caso aconteceu há cinco anos. Confesso que a princípio me senti traída pelo paciente, pois acreditei na fidedignidade de suas informações. Com o passar do tempo, fui desenvolvendo mais habilidade no manejo de situações semelhantes, sempre centrada no respeito, na ética profissional e na prática assistencial. Diante disso, deixo aqui alguns tópicos para reflexão:

1- Sabemos que a população brasileira em geral, tem uma cultura extremamente religiosa (dados do IBGE) e que a influência da religiosidade nos modos de lidar com a soropositividade é muito relevante. Questiono: Como devemos proceder frente a questões tão delicadas no manejo da adesão para que não se prejudique o objetivo?
2- Diante das características socioculturais e religiosas de nossa clientela, como devemos nos comportar frente a um enfrentamento entre a adesão ao tratamento e a religiosidade?

Gostaria de convidar meus colegas a opinar, compartilhar ideias, identificar erros e/ou acertos diante da conduta tomada.
Observação:
Silvio é um nome fictício usado para preservar a privacidade do paciente.

*Enfermeira do ambulatório de Infectologia do Hospital de Clínicas- UFPR.

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