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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.14

10/2008

Envelhecendo com HIV

Atender pessoas que vivem com HIV/aids há muitos anos envolve conhecimentos mais amplos e olhares mais atentos

Homens e mulheres que vivem com o HIV há mais de uma década, e estão envelhecendo com o vírus, podem possuir a chave para inúmeros questionamentos sobre a aids. São pessoas que sobreviveram à pior fase da epidemia e conseguiram encontrar um equilíbrio na convivência com o vírus e os medicamentos. Sabem se cuidar, exigem seus direitos, são bem informados sobre a doença e discutem com os profissionais de saúde os rumos do tratamento. “Somos a vanguarda da aids”, afirma Dimas Santos que convive com o HIV há 22 anos. “Aprendemos a conviver com o HIV num período pré-coquetel, fomos os primeiros a utilizar os medicamentos mais potentes, em meados dos anos 90 – uma experiência que ajudou a comunidade científica a ajustar o tratamento ao longo dos anos –, e agora estamos na linha de frente dessa batalha contra as novas doenças que começam a surgir em função do tempo de exposição ao vírus e ao tratamento anti-retroviral”.

Colher e compartilhar experiências
Estudos sobre a longa convivência com o HIV e sobre o envelhecimento da população que vive com o vírus ainda são raros, mas cada vez mais necessários. Para a psicóloga Carmen Lent, coordenadora do Banco de Horas – projeto que oferece atendimento psicológico gratuito a pacientes com HIV, no Rio de Janeiro –, este é um tema que merece toda a atenção por parte dos profissionais de saúde que trabalham com aids. “Temos que colher as experiências das pessoas que vivem com o HIV há muito tempo, saber o que elas ganharam de bom e que novas ansiedades emergem. Acredito que cada profissional de saúde, em sua rotina de atendimento, já vem observando individualmente esses pacientes. Agora é o momento de compartilhar experiências, ajudando a criar referências sobre o tema que possam ser úteis para as gerações futuras”, sugere Carmen. “Esse compartilhamento deve ocorrer não apenas por meio de seminários e conferências, mas também no universo micro das unidades de saúde, entre os profissionais das equipes que trabalham no atendimento de pacientes com HIV/aids”, completa a psicóloga.

HIV antecipa processo de envelhecimento
O infectologista Gustavo Magalhães, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), concorda com Carmem Lent. “É preciso aprender com as pessoas com mais de 15 anos de infecção, e entender como o vírus se comporta depois de muito tempo”, diz o médico, destacando uma constatação atual que preocupa e aponta para novas abordagens: “O HIV antecipa o processo de envelhecimento, principalmente com o uso prolongado dos anti-retrovirais”. O fato não desmerece o sucesso da terapia antiretroviral potente contra o HIV (HAART, na sigla em inglês), mas é um alerta para que as equipes de saúde atentem para o diagnóstico de doenças que até então não faziam parte do universo do HIV/aids, mas que são comuns ao envelhecimento. “As especialidades em saúde que trabalham com o HIV/aids têm um espectro mais amplo agora. Não se restringem à profilaxia e ao tratamento de doenças oportunistas, mas envolvem questões metabólicas, de ossos, hepáticas, renais, neurológicas e pulmonares”, afirma o infectologista e pesquisador da Fiocruz Estevão Portela. “O controle da replicação viral continua sendo a forma mais eficaz para evitar essas complicações, mas o monitoramento, por meio de exames, pode contribuir para um diagnóstico mais precoce de doenças, e para um tratamento mais adequado”, reforça Portela.

Alterações metabólicas são as que mais preocupam
De todas as complicações observadas nos pacientes com longo tempo de tratamento, as questões metabólicas podem ser consideradas as mais comuns e mais graves. Alterações nos níveis de glicose, triglicérides e colesterol podem levar a diabetes e doenças cardiovasculares – principal causa de morte em pacientes com HIV/aids. “Essas alterações podem ser minimizadas com o uso de medicações específicas, pela prática de exercícios físicos, por uma alimentação mais adequada e, em último caso, pela troca de anti-retrovirais, embora este não deva ser o foco”, diz o infectologista Estevão Portela.

Uma doença típica do envelhecimento que vem aparecendo com mais freqüência em pacientes com HIV/aids – não necessariamente idosos – é a osteoporose, que está relacionada ao uso prolongado de alguns inibidores da protease e ao tenofovir. É uma doença silenciosa que não se manifesta previamente e que pode levar, em alguns casos, a deficiências graves, como a paralisia. “Existem algumas recomendações que podem retardar ou evitar a osteoporose, como atividade física, reposição de cálcio, uso de vitamina D e uma medicação chamada alendronato”, afirma Estevão Portela. Os exames tradicionais de densitometria óssea ajudam no diagnóstico e devem ser realizados a critério médico. Sua periodicidade dependerá da presença ou não de outros fatores de risco, como tabagismo, uso de corticóide e idade mais avançada. Portela cita ainda as doenças pulmonares crônicas, como enfisema, que podem evoluir mais rapidamente em pacientes fumantes infectados pelo HIV.
Mais freqüentes em pessoas idosas, doenças hepáticas e renais também estão relacionadas ao uso prolongado de anti-retrovirais.

Doenças neurológicas
O infectologista Gustavo Magalhães aponta para doenças neurológicas que até agora não faziam parte do universo do HIV/aids, sendo mais freqüentes nos idosos, como a demência senil ou vascular – formas diferentes daquela observada nos pacientes com aids no período pré-HAART. Os sintomas mais comuns são dificuldades de concentração e memória, tendência ao isolamento, apatia, empobrecimento das respostas emocionais, irritação, comportamentos inadequados e períodos de desorientação. “O exame clínico e a avaliação neuropsiquiátrica são os métodos diagnósticos mais seguros. Mas exames de imagens como tomografia ou ressonância magnética do crânio podem ajudar na precisão, descartando outras doenças neurológicas”, sugere o médico.

Cânceres: exames preventivos mais freqüentes
As neoplasias, ou cânceres, também são freqüentes em pacientes com longa exposição ao HIV e aos anti-retrovirais. A infectologista Valéria Ribeiro Gomes, chefe da Infectologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto e infectologista do Hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro, alerta que há uma tendência de aparecimento precoce de alguns tipos de neoplasias. “Os tumores hepáticos são mais freqüentes em pacientes soropositivos com coinfecção dos vírus B e C da hepatite, mas também preocupam alguns tumores de pulmão e o sarcoma de Kaposi, que está ressurgindo, sendo responsável por um número cada vez maior de internações. Há ainda os tumores do canal anal e os carcinomas do cólon de útero, que estão associados ao HPV”, enumera a médica. “Os profissionais de saúde devem ficar mais atentos a essas complicações e realizar os exames de diagnóstico com um intervalo menor, nos pacientes soropositivos”, conclui.

Trabalho em equipe proporciona melhores resultados
Os especialistas concordam que o envelhecimento com HIV/aids, associado ao uso prolongado dos anti-retrovirais, é um processo novo e que a forma mais eficaz de reduzir o impacto dessas doenças ainda é o controle. “Esses pacientes precisam de uma excelente qualidade de vida, que inclui boa alimentação, prática regular de exercícios físicos e apoio psicológico, quando necessário”, diz o infectologista Gustavo Magalhães. “Por isso, o atendimento multiprofissional é fundamental. Não basta ter médicos: o paciente necessita da ajuda do nutricionista, do fisioterapeuta, do psicólogo, da assistente social, do farmacêutico e da enfermagem. É o trabalho em equipe que irá proporcionar o melhor resultado”, afirma o infectologista.
Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, reforça que pacientes com longo tempo de tratamento merecem uma atenção especial e aconselha os profissionais que os assistem a ficar atentos quando é necessário fazer trocas no esquema anti-retroviral. “Muitas vezes, acreditase que, por já ter tomado outros remédios, este usuário não terá dificuldade de adesão. No entanto, a cada troca de esquema, mudam-se horários, dosagens e possíveis efeitos adversos, que devem ser acompanhados pela equipe de saúde”, alerta Mariângela Simão. “Também nunca é demais conversar sobre sexualidade e prevenção, já que estas práticas também podem mudar ao longo dos anos”, sugere.

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