Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.19

06/2010

Farmácia: Promoção da saúde e atenção farmacêutica

A adesão ao tratamento é aspecto primordial da terapia anti-aids. A administração de antirretrovirais exige responsabilidade, disciplina e paciência e qualquer deslize pode levar à falha terapêutica.

Neste processo, a atenção farmacêutica é estratégica. O farmacêutico José Liporage Teixeira, presidente da Associação Brasileira de Farmacêuticos e chefe do Serviço de Farmácia do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (Ipec/Fiocruz), explica que, na prática, isto significa atendimento humanizado e integral ao paciente. “O farmacêutico deve estimular a adesão ao tratamento; garantir o acesso a medicamentos de qualidade; orientar sobre o melhor esquema terapêutico, possíveis efeitos adversos e interações com outras drogas e alimentos; e ouvir, compreender e esclarecer o paciente, seus amigos e familiares. Além de envolver-se em atividades de pesquisa, inovação e prevenção”, resume o especialista.

Jogo de cintura
Liporage reconhece que é fundamental ter jogo de cintura para atender aos diversos e, muitas vezes, complexos perfis de pacientes. “É preciso estar atento às especificidades de cada indivíduo e ter sensibilidade para perceber aspectos que muitas vezes não são abordados durante uma conversa.

Uma pessoa que vive nas ruas não pode receber medicamento para um mês, pois o produto certamente estragará ou será perdido”, aponta o farmacêutico.

Para garantir atenção humanizada e integral, Liporage recomenda o “acompanhamento farmaco-terapêutico” do paciente. A estratégia prevê o atendimento individualizado, realizado em espaço separado do restante da unidade. Esta diferenciação confere privacidade ao atendimento, deixando o paciente à vontade para expor suas dúvidas, inseguranças e insatisfações – aspectos que muitas vezes podem levar ao abandono do tratamento.

Outro princípio da atenção farmacêutica é a integração da equipe multidisciplinar. Juntos, farmacêuticos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas e médicos têm condições de avaliar o paciente como um todo, con siderando os diversos aspectos que compõem e influenciam o seu tratamento.


Responsabilidades do profissional

Atender a um público de 200 mil pessoas não é fácil. Para dar conta de todos os pacientes em tratamento antirretroviral no Brasil, o Departamento Nacional de DST/Aids e Hepatites Virais e os programas municipais e estaduais trabalham em parceria para desenvolver estratégias de logística eficientes, que garantam o acesso universal a todos as pessoas vivendo com HIV/aids no país.

A farmacêutica Edjane Falcão, diretora do Núcleo de Controle e Distribuição de Medicamentos do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, explica como este compromisso é compartilhado. “O tratamento anti-aids é composto por 19 antirretrovirais – 11 importados e 8 nacionais; todos viabilizados pelo Ministério da Saúde – e por outros 38 itens de responsabilidade dos Estados e municípios.

São medicamentos para infecções oportunistas e outras DSTs, igualmente fundamentais para o tratamento”, descreve. “O farmacêutico é responsável por toda a cadeia produtiva do processo de dispensação e deve estar sempre de olho no medicamento e em todos os itens de sua farmácia como preservativos e lubrificantes. Em sua rotina, deve inserir dados, gerar informações e definir ações importantes para garantir o abastecimento das Unidades Dispensadoras de Medicamentos”, considera Edjane.

Remanejar estoques
O sistema de logística inclui a produção, a aquisição e a distribuição de medicamentos e envolve, em cada Estado, um almoxarifado central – que recebe e armazena o estoque – e dezenas de Unidades Dispensadoras de Medicamentos (UDM). No último dia de cada mês, cada UDMdeve enviar um balanço ao almoxarifado central. Estes dados são consolidados em um único documento, que serve de base para a distribuição dos medicamentos para as UDM.

Quando um medicamento não está disponível no almoxarifado central, as unidades dispensadoras devem efetuar, entre si, o remanejamento de estoque. “Isto é importante para equilibrar necessidades e evitar a perda de prazos de validade. Para isso, promovemos atividades de integração, para que todos os profissionais se conheçam, troquem experiências e formulem novas estratégias para melhorar o serviço de cada UDM”, conta o farmacêutico Sérgio Aquino, responsável pela logística de medicamentos do Programa de DST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro (SMSDC-RJ).

Infra-estrutura adequada
Apesar de todo o cuidado, na prática nem sempre dá tudo certo. Para Liporage, é preciso investir em infraestrutura e recursos humanos. “O controle da dispensação é feito por um sistema informatizado e muitas unidades de saúde não têm acesso a internet. É preciso adequar os espaços e capacitar as equipes”, aponta o presidente da Associação Brasileira de Farmacêuticos. “Vamos implantar o sistema de banda larga nas principais unidades ligadas a SMSDC-RJ. A maior velocidade na transmissão de dados via internet vai proporcionar ao profissional de saúde melhores condições de trabalho e mais qualidade no preenchimento
das informações”, adianta Aquino.

Para aprimorar a logística de anti-retrovirais, o Programa Municipal de DST/Aids do Rio de Janeiro investe em uma metodologia inovadora. A Roda de Conversa promove o encontro de diferentes atores sociais – farmacêuticos, dispensadores, coordenadores de programa, sociedade civil – para debater um tema específico. “O objetivo é proporcionar um espaço de discussão e reflexão sobre a logística de medicamentos para encontrarmos as soluções adequadas com todos os atores envolvidos”, conclui Sérgio Aquino.

MARATONA DO CONHECIMENTO

Em Minas Gerais, a equipe de farmácia do Programa Municipal de DST/Aids de Contagem investiu em uma estratégia inovadora para resolver um problema complicado: o reduzido grau de conhecimento dos pacientes em relação ao HIV, à aids e à terapia antirretroviral. Considerando a baixa escolaridade dos usuários da unidade de saúde, a equipe elaborou um processo lúdico e interativo para cons cientizar o paciente e transformá-lo no principal ator do tratamento.

A maratona “Eu conheço o meu tratamento” foi inaugurada em 2006 e a cada módulo apresenta resultados mais animadores. A farmacêutica Flaviane Hilário explica que os encontros mensais incluem dinâmicas de grupo, aulas expositivas e interativas, jogos educativos, questionário de avaliação e lanche de confraternização.
“A comparação dos questionários aplicados antes e depois da maratona é surpreendente. Inicialmente, grande parte dos pacientes identificava seu esquema terapêutico pela cor e forma dos medicamentos. Ao final da maratona, todos foram capazes de identificá-los pelo nome. Além disso, a adesão ao tratamento aumentou em torno de 20% entre os articipantes”, Flaviane garante.

CRIATIVIDADE PARA PROMOVER A ADESÃO

No Complexo Hospitalar de Doenças Infecto-Contagiosas Dr. Clementino Fraga, em João Pessoa (PB), a atenção farmacêutica faz parte da rotina do atendimento. A farmacêutica Rafaela Duarte conta que a equipe – formada também por psicólogos, assistentes sociais, dentistas, médicos e enfermeiros – não mede esforços para orientar pacientes sobre todos os aspectos do tratamento.

“Recebemos pacientes com perfis muito diferentes e precisamos adequar o atendimento às necessidades de cada um. Um público muito especial são os analfabetos”, destaca. Para ter certeza que estes pacientes não sairão da unidade com dúvidas sobre o tratamento, a equipe desenvolveu panfletos com desenhos simples, que indicam como tomar o medicamento.

“Sol e lua, por exemplo, representam o dia e a noite. Um prato de comida indica se o medicamento deve ser tomado antes ou depois das refeições. Com simplicidade e criatividade, é possível garantir a adesão”, comemora a farmacêutica.

Compartilhe