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Saber Viver » Saber Viver n.24

10/2003

Fé aliada ao coquetel: o melhor remédio

Fiéis, que um dia abandonaram o tratamento acreditando que a cura estava em Jesus, ajudam a levar informações para as igrejas

Muitas pessoas, quando se descobrem portadoras do HIV, buscam na fé a força que precisam para superar as dificuldades e enfrentar o diagnóstico que as coloca diante da única certeza que se tem nesta vida: a de que um dia todos iremos morrer, independentemente de sermos soropositivos ou não. No entanto, a fé que move montanhas e que nos fortalece para encararmos os medos pode ser prejudicial se exercida com excessos. Desconfiem de lideranças religiosas que acreditam que a cura pode vir apenas da fé. Ou eles estão mal intencionados, ou mal informados. Com quase 20 anti-retrovirais disponíveis gratuitamente no serviço público de saúde e com todo o conhecimento científico que existe hoje sobre o HIV, não se devem desprezar os avanços e as conquistas da ciência. A fé ajuda, e muito, a nos tornarmos mais fortes. Porém, não há registros de que ela possa curar uma pessoa infectada pelo HIV ou que sofra de outras enfermidades como câncer, por exemplo. Apesar disso, muitos são os relatos de fiéis soropositivos que abandonam suas medicações, depositando em Jesus toda a esperança de cura, ou de reversão do diagnóstico positivo.

Sem medicação e sem trabalho
Cristina Costa e Silva (foto) é evangélica da Assembléia de Deus do Recife e seguiu à risca as palavras de um pastor, que pregava – e continua pregando – que só Jesus cura. Suspendeu o tratamento com os anti-retrovirais e quase morreu. “Eles (os pastores) têm o cuidado de não falar diretamente pra você não tomar a medicação. Isso não é só para o HIV, mas também para outras doenças, como o câncer. Eles dizem que só Jesus cura. E aí, quando a pessoa decide voltar a tomar os remédios, às vezes já é tarde”. Cristina ficou quase dois anos sem tomar o coquetel. Por sorte, quando decidiu retomar o tratamento com os anti-retrovirais, conseguiu reverter os problemas de saúde que quase lhe tiraram a vida. Ela percebeu que a fé, somente, não poderia curá-la da infecção pelo HIV. “Não quero deixar de ser evangélica, mas quero uma igreja saudável. Jesus cura sim, mas os remédios ajudam e muito”.

Além de abandonar a medicação, Cristina foi afastada de um trabalho social que realizava com mulheres e crianças na igreja onde frequentava. “Eu gostava muito desse trabalho, me sentia útil. Mas quando essa porta se fechou pra mim, fiquei muito deprimida, me senti rejeitada, porque onde eu busquei apoio não encontrei. Hoje vejo que falta aos pastores mais informação.”

Sem dinheiro e sem ajuda
Maria das Graças Madeira (foto) nunca parou de tomar os remédios, mas ao buscar apoio da Igreja Quadrangular, onde era obreira credenciada e esposa de um pastor que faleceu de aids há 3 anos, encontrou as portas fechadas para ela. Apesar de o marido ter sido responsável por igrejas em Pernambuco, Mato Grosso do Sul, Paraíba e Minas Gerais, e de ter sempre contribuído com 1% de tudo o que recebia para o fundo social da igreja, após sua morte, a esposa e a filha nunca receberam nada. “A igreja me prometeu dar o fundo social, porque eu tenho direito, mas até hoje eu não vi um centavo sequer desse fundo. Nunca recebi nem um alfinete da igreja. Nem o caixão dele a igreja pagou”, conta Maria das Graças, que recebe apenas um salário mínimo do INSS, pensão que o marido deixou por ter contribuído com a Previdência Social.

“Na igreja, eles dizem que Deus levou sobre si todas as nossas enfermidades. Então, por que isso aconteceu comigo? Por que Deus levou o meu marido?”, pergunta. “Eles dizem que quem fica doente é porque não está servindo a Deus corretamente”, revela Maria das Graças, que, apesar de nunca ter abandonado a medicação, já perdeu muitas amigas que acreditavam estar curadas. “Conheci uma moça que largou tudo porque a igreja disse que ela estava curada. Acabou morrendo. Eu não paro de tomar os remédios por nada: tenho uma filha de 12 anos e quero ver meus netos nascerem”, diz.

Medicação: um instrumento de Deus
Percebendo que várias pessoas enfrentavam problemas semelhantes, Cristina e Maria das Graças decidiram ajudar outras mulheres evangélicas, que também foram ‘desprezadas’ pela igreja por serem portadoras do HIV. Maria das Graças faz hoje um trabalho de multiplicadora de informações em escolas e movimentos sociais, como o MST. Juntou-se às Cidadãs Posithivas – um projeto que tem o objetivo de fortalecer mulheres soropositivas de todo o Brasil – e está abrindo uma ONG em Caruaru, onde, segundo ela, será “um espaço onde poderemos falar abertamente sobre os nossos problemas, já que os pastores não estão preparados e acabam nos excluindo da igreja.”

Cristina, que também faz parte do ‘Cidadãs Posithivas’, colabora com o Projeto PAI – Programa Asas e Igreja da ONG Asas – Associação de Ação Social – de Recife. O projeto atende portadores do HIV e leva, aos pastores, informações sobre aids. O pastor Ivaldo é um dos integrantes do PAI. Segundo ele, “a medicação tem que ser compreendida como uma resposta às orações, uma resposta divina para melhorar a qualidade de vida na terra”. A ONG Asas também oferece ajuda a todos os soropositivos cristãos – evangélicos ou católicos –, independentemente da opção sexual e da forma como expressam a sua fé. “É bastante comum encontrar pessoas vivendo com HIV, acreditando que a aids é um castigo de Deus. Tentamos ‘desconstruir’ essa culpa, melhorar a auto-estima a partir dos elementos de fé, como a Bíblia, fortalecendo assim a adesão aos medicamentos,” diz o pastor que também é da Paróquia do Bom Samaritano em Recife. “A grande cura é perceber que é possível conviver com o HIV tendo uma boa relação com os medicamentos. Quando as pessoas entendem que os remédios são um instrumento de Deus, elas aderem melhor à medicação e passam a ter uma vida mais saudável,” conclui o Ivaldo.

Para entrar em contato com a ONG Asas de Recife, favor escrever paraasasongaids@uol.com.br ou telefonar para (81) 3445-1087

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