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Saber Viver » Saber Viver n.37

09/2006

Fé pode fortalecer o corpo e o espírito

Atividades religiosas influem na saúde dos que vivem com HIV/aids

Para o carioca Felipe Cunha*, 36 anos, freqüentar um grupo que se reúne semanalmente na igreja católica de seu bairro tem sido uma experiência muito positiva. Portador do HIV há mais de um ano, recentemente foi informado por seu médico de que chegou a hora de iniciar a terapia anti-retroviral. Inconformado, chegou a tomar antidepressivos. Foi quando decidiu freqüentar as reuniões na igreja. “Voltei a me sentir em paz”, conta. Hoje, ele já não precisa mais do medicamento para depressão e pensa mais calmamente sobre o início da terapia. “Os problemas parecem muito grandes quando estamos sem amparo”, pondera.
O psiquiatra Alexander Almeida, diretor do Centro de Estudos da Religião da Universidade de São Paulo, acredita que a religião pode atuar de um modo muito salutar, auxiliando na manutenção da disposição e propiciando uma visão mais abrangente sobre a vida. Ele cita pesquisas que demonstram que rezar, auxiliar outras pessoas, considerar que a situação difícil é um ensinamento e sentir-se amado por Deus são atitudes associadas a um melhor bem estar físico e psíquico.
Entretanto, esses mesmos estudos, segundo o psiquiatra, mostram que quando o paciente continuamente interpreta a doença como um castigo de Deus, a tendência à depressão e à ansiedade é maior.

Quando a religião pode atrapalhar
Alice de Souza, 45 anos, ficou viúva há onze anos e fez o exame para o HIV. Ao ver o resultado positivo entrou em depressão e trancou-se em casa. “Eu me castiguei muito. Fiquei 30 dias sem sair e sem comer. Aí vi que ia morrer desse jeito e resolvi começar a me tratar”. Já estava melhorando quando revelou sua soropositividade ao pastor da igreja evangélica que freqüentava.
Ele sugeriu que o tratamento fosse interrompido: “Você vai se curar pela fé”, disse. Foram mais 30 dias sem acompanhamento médico e Alice piorou novamente.
A médica de Alice, a clinica geral Débora Fontenelle, comenta que atende muitos pacientes que têm uma visão equivocada da doença e que isso interfere de forma desastrosa.
“Quando a religiosidade estimula o sentimento de culpa ou de negação da doença, ela atrapalha o tratamento”, observa a médica. “Muitos crêem que serão curados pela fé. De tempos em tempos fazem novo exame HIV na expectativa que dê negativo. A decepção com novos resultados positivos e o não tratamento vão minando a saúde dessas pessoas”. Com Alice, o final foi diferente. Ela hoje toma seus remédios assiduamente e se sente ótima. “Com essa doença, a gente tem que ser guerreira”, diz ela, que freqüenta a Assembléia de Deus há 15 anos. “A fé ajuda muito”, afirma. “Converso pouco sobre aids com meus amigos. Eu me abro mesmo é com Deus”.

A cura da alma
O teólogo Gedeon Freire de Alencar, de 45 anos, atribui o sucesso de seu tratamento contra a aids à comunidade evangélica da Assembléia de Deus Betesda. “Devo minha cura ao apoio da minha mulher, dos meus amigos e parentes, todos amorosos e compassivos comigo”, diz ele, que em seguida explica a que tipo de cura se refere. “Falo da cura que vem da minha dignidade, minha religiosidade, meu emprego, meu casamento, minha vida. É isso que entendo por cristianismo!”, revela Gedeon.
A médica Débora Fontenelle atesta, em sua prática, que a sensação de pertencer a um grupo, de compartilhar idéias e dificuldades proporciona uma sensação de amparo aos que passam por dificuldades. “Quem freqüenta um grupo religioso possui uma rede de suporte que muitas vezes não encontra na família. Isso influencia positivamente a qualidade de vida”, diz.

Parceria com Deus
Epifânio do Oxossi, de 43 anos, se iniciou no candomblé em 1991. Quando descobriu que tinha o HIV, em 1997, foi muito bem acolhido no terreiroe sempre recebeu incentivo para se tratar. Ele destaca que não se deve confundir a medicina dos homens com a medicina de Deus. “Tomo as ervas indicadas pelo candomblé com o conhecimento do meu médico. É ele que determina quando e como elas devem se associar ao tratamento antiretroviral”, afirma.
É essa atitude de parceria e colaboração com Deus que o psiquiatra Alexander Almeida observa nos grandes personagens religiosos. “Na fé não deve haver lugar para passividade. Fazemos tudo o que está ao nosso alcance e deixamos o resto por conta de alguma força superior na qual se acredita: um misto de esforço pessoal com crença no divino”, ressalta.
É no auto-cuidado, na busca do equilíbrio entre as necessidades da alma e do corpo que parece estar um dos grandes segredos para a manutenção da boa saúde.

 Instituições religiosas Locais de apoio e reflexão

A religião pode ser um espaço privilegiado para o trabalho de prevenção do HIV, de assistência aos soropositivos e de reflexão sobre fé e saúde. É nisso em que acreditam e trabalham diversos grupos, alguns já constituídos e outros ainda em formação, que atraem cada vez mais pessoas e abrangem maiores áreas. A Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde é um exemplo disso. Com núcleos em diversos municípios do país, a Rede realiza ações que promovem o diálogo, nos terreiros, entre as tradições religiosas e os saberes científicos, organiza seminários sobre o tema e já desenvolveu campanhas utilizando as lendas afro-brasileiras para mostrar a importância da solidariedade às pessoas soropositivas. José Marmo da Silva, secretário-executivo da Rede, enfatiza que todas as sexualidades são bem aceitas nas religiões afro-brasileiras e que os soropositivos são acolhidos com muito respeito e dignidade. A Pastoral de DST/Aids é um serviço da igreja católica na contenção da epidemia da aids que pretende envolver toda a comunidade católica na luta contra o vírus. A comissão se dedica a combater o preconceito e a discriminação e a dar assistência aos soropositivos, acolhendo, acompanhando e defendendo seus direitos.
Grupos de trabalho para discutir religiões e saúde Devido ao reconhecimento da importância da religião na promoção da saúde, formou-se o Grupo de Trabalho de Religiões (GT Religiões) do estado de São Paulo. O Grupo, composto por profissionais e gestores de saúde e integrantes de ONG, tem o objetivo de fomentar a discussão e propor ações que auxiliem o desenvolvimento de trabalhos de prevenção às DST/aids entre os grupos religiosos em geral.
Em nível nacional, em julho foi realizado em Brasília o Seminário Aids e Religião, organizado pelo Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde. Foram debatidas as questões religiosas e sua relação com o enfrentamento da epidemia.
Discutiu-se, entre outros temas, a necessidade da produção de material educativo que contemple as especificidades religiosas brasileiras na questão da aids, assim como a importância da formação de GT Religiões em outros estados e municípios brasileiros.

Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde
redeterreirosaude@hotmail.com mguimar@uol.com.br

Pastoral DST/ Aids
www.pastoralaids.org.br

Manaus – AM: Tel (92) 673 6573
norte@pastoralaids.org.br

Feira de Santana – BA: Tel (75) 622-5505
nordeste@pastoralaids.org.br

Goiânia – GO: Tel (62) 271 4510
centro@pastoralaids.org.br

Petrópolis – RJ: Tel (24) 2245 0322
leste@pastoralaids.org.br

São Paulo – SP: Tel (11) 3291 4432
sul@pastoralaids.org.br

Porto Alegre – RS: Tel (51) 3346 6405
secretaria@pastoralaids.org.br

GT Religiões do Programa DST/Aids do Estado de São Paulo
Tel: (11) 50879901
paulasousa@crt.saude.sp.gov.br

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