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Saber Viver » Saber Viver n.20

02/2003

Filhos na hora certa

Uma gravidez planejada e com cuidados especiais é fundamental para as portadoras do HIV 

Eliete, com seus filhos Raiza, 8 anos, Raiane, 6 e Felipe, 11. Falta ainda Stefane, de 4. Nenhuma das crianças é portadora do HIV porque durante a gravidez Eliete seguiu corretamente todas as recomendações médicas .

Muitos casais, em que um deles ou os dois são soropositivos, desejam ter filhos.
O melhor a fazer, então, é planejar a gravidez de modo a não prejudicar a
saúde da mãe, do pai, nem a do bebê. Muita coisa pode ser feita nesse sentido, pois a ciência evoluiu rapidamente nessa área. No entanto, muitos homens e mulheres soropositivos não querem ter filhos. Mais uma vez a palavra de ordem é planejar, pois evitar uma gravidez indesejada não é difícil. O importante é saber o que se quer e como chegar lá.

Marta* tem 22 anos e está grávida de seu quinto filho. Cláudia*, 20 anos, espera para os próximos dias o nascimento de seu terceiro filho. As duas são soropositivas e não têm o hábito de usar preservativos nas relações sexuais. “Eu e meu marido achamos que a camisinha atrapalha”, diz Cláudia. Marta e Cláudia não são exceções. No Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, atualmente, há cerca de 50 gestantes portadoras do HIV em acompanhamento médico. Segundo Susie Andries Nogueira, médica infectologista do pré-natal, há um número muito alto de gravidez não planejada e não desejada. “Muitas mulheres chegam a tentar um aborto, o que pode provocar infecções e maior risco de progressão para a Aids”, revela a médica. Para mudar esse quadro, é fundamental a orientação sobre métodos anticoncepcionais. Os grupos de planejamento familiar organizados por centros de saúde ou uma conversa franca com o médico sobre relações sexuais protegidas podem ajudar muito.

Formas para evitar a gravidez
Apesar da importância do uso do preservativo para evitar a contaminação e a recontaminação pelo HIV, seu índice de aceitação é muito baixo. O ideal, segundo Susie Andries Nogueira, é aliar a ele outro método para evitar a gravidez. Mulheres que não fazem uso de anti-retrovirais podem, por exemplo, associar o preservativo à pílula anticoncepcional. Já as que usam esses medicamentos precisam ter cuidado, pois existe a possibilidade de a pílula interferir no anti-retroviral e vice-versa. O diafragma pode ser usado sem problemas, e o Diu só pode ser utilizado sob constante supervisão médica, por causa do perigo de infecções. Não se deve esquecer a camisinha feminina, distribuída gratuitamente por alguns Programas de DST/Aids, mas ainda vítima de alguns preconceitos. A contracepção de emergência ou “pílula do dia seguinte” é um método para evitar a gravidez que vem sendo utilizado quando há falha no método anticoncepcional usado regularmente. Lembre-se de que este método é de emergência. Não pode ser utilizado com freqüência, pois tende a falhar.

A ligadura das trompas parece ser o método mais procurado pelas mulheres soropositivas. Eliete, 35 anos, não via outra solução para sua vida, pois desempregada e com quatro filhos não consegue meios para sustentá-los. “Eu e meu marido não usamos camisinha e eu não consigo tomar pílula. Finalmente consegui fazer há quatro anos a ligadura de trompas que tanto queria”, diz ela. Para Susie Andries Nogueira, esse procedimento deveria ser mais acessível às mulheres portadoras do HIV. “Toda mulher, soropositiva ou não, tem direito de ter quantos filhos quiser e puder, mas, uma vez que ela não queira mais ter filhos, os métodos anticoncepcionais devem estar acessíveis, inclusive a ligadura de trompas”, diz a médica.

Gravidez positiva
Quanto mais cedo a gestante soropositiva começar o pré-natal, maiores são as chances de seu bebê não nascer contaminado. O ideal é começar a tomar o anti-retroviral, que na maior parte das vezes é o AZT, após a 14º semana de gravidez. O objetivo é deixar a carga viral do HIV indetectável. O parto também deve ser orientado por um médico experiente em Aids, pois esse é o momento de maior perigo de contágio. “Quem segue as recomendações médicas durante o pré-natal, tem um parto bem assistido, dá corretamente a medicação para o recém-nascido e não amamenta tem menos de 3% de chance de passar o HIV para o bebê”, diz a infectologista Susie Andries Nogueira. “As que não fazem nada disso têm até 40% de risco de contaminá-lo”.

Além dos cuidados com a sua saúde e com a do bebê, Susie também recomenda que as grávidas procurem apoio nos grupos de gestantes e mães orientados por um profissional capacitado. “Essa ajuda mútua é importante, pois essas mulheres passam por questões muito difíceis”, diz a médica.

Quando a mulher já está em tratamento anti-retroviral e engravida, é preciso avaliar se os remédios que ela está tomando são apropriados para durante a gestação. Às vezes, é necessário trocar a medicação. Além disso, como não existem estudos suficientes sobre a atuação dessas drogas sobre a formação do bebê, o ideal é que ela não tome os anti-retrovirais durante as primeiras 14 semanas de gravidez, quando o feto está se formando.

“Acho muito importante planejar a gravidez quando se é soropositiva”, diz Neusa*, 33 anos. Ela e seu marido estão juntos há quatro anos e sempre têm relações sexuais com preservativo, inclusive o feminino. Mas o desejo de ter um filho falou mais forte e Neusa, junto com sua médica, planejou cada passo da sua gravidez. “Fiz um intervalo na minha medicação, localizei minha fase fértil fazendo tabela e transei com meu marido sem camisinha somente durante essa fase. Fiquei grávida em seguida e estamos muito felizes com o nascimento do nosso bebê, que tem dois meses e em breve fará exames para detectar sua carga viral. Temos certeza de que tudo correrá bem. Estou tranqüila”, conta Neuza.

Pai soropositivo
O homem soropositivo pode ter um filho sem correr o risco de contaminar a mulher e, conseqüentemente, a criança. Existe um procedimento, feito em laboratório, em que o HIV é retirado do líquido seminal e o espermatozóide, já livre do vírus, é introduzido artificialmente na mulher. Esse método, no entanto, só está disponível em algumas clínicas particulares especializadas em inseminação artificial. SV
* Nomes fictícios

Passos para uma gestação tranqüila e um bebê saudável

1- Quando uma gestante recebe o resultado de seu teste confirmando sua soropositividade para o HIV, deve ser encaminhada para uma unidade de saúde onde há o Programa de DST/Aids.
2- Nesses locais, a grávida pode fazer seu pré-natal e ter acesso aos medicamentos necessários para controlar o HIV e evitar a contaminação do seu bebê.
3- O parto também deve seguir orientações especiais, com a administração de AZT venoso na mãe. O médico deve avaliar, segundo o estado de saúde da mulher, se ela terá um parto normal ou se precisará de uma cesariana.
4- A amamentação não é indicada, pois o HIV pode ser transmitido através do leite.
5- O recém-nascido deve tomar o AZT oral até completar seis semanas e aos dois meses de idade fará seu primeiro exame para averiguar o nível de carga viral em seu sangue.
6- Aos quatro meses, o bebê fará um novo exame que vai confirmar se sua carga viral está indetectável. Se tudo foi feito de acordo com as recomendações médicas, muito provavelmente o bebê não estará contaminado pelo HIV.
7- O teste que verifica a sorologia do HIV, no entanto, pode negativar mais tarde, até que o bebê complete um ano e meio. Isso significa apenas que ele ainda está com os anticorpos da mãe, mas não com o vírus.


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