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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.02

09/2005

IAS tenta reduzir distância entre ciência e prática

A 3ª Conferência Internacional sobre Patogênese e Tratamento da Aids (IAS), realizada de 24 a 27 de julho de 2005, no Rio de Janeiro, reuniu cerca de 5.600 participantes, incluindo 4.998 delegados de 128 países. Profissionais de saúde e líderes comunitários de todo o mundo discutiram os últimos avanços científicos e as novas políticas de prevenção e tratamento do HIV/aids

A Saber Viver Profissional de Saúde preparou um resumo da IAS, ressaltando as novidades mais interessantes do meio acadêmico/ científico na área de HIV/aids.

Na abertura da conferência, foi lançado o desafio a todos os participantes: trazer o conhecimento científico à prática, beneficiando o maior número de pessoas infectadas no mundo. Durante a conferência, firmou-se um pacto para a construção de uma resposta global à aids que fosse tão ampla e dinâmica quanto a epidemia, transformando pesquisas promissoras em ações aprimoradas de prevenção e tratamento.

BRASIL: DESTAQUE EM POLÍTICAS PÚBLICAS E CIÊNCIA
O Brasil teve papel de destaque na Conferência, não apenas por ser o primeiro país a garantir o acesso universal aos anti-retrovirais, mas principalmente por promover a integração entre tratamento e prevenção e pelas ações de redução de danos entre usuários de drogas injetáveis.

No entanto, o diretor do Programa Nacional de DST/Aids Pedro Chequer afirmou, na cerimônia de abertura da Conferência da IAS, que muitos obstáculos ainda precisam ser vencidos: “Diminuir a dependência por importações de anti-retrovirais é um deles. Precisamos aperfeiçoar acordos internacionais e investir na produção nacional de matéria prima e medicamentos”.

O evento, que ocorre a cada dois anos, refletiu também a crescente projeção do Brasil na área científica – país que obteve o segundo lugar em número de trabalhos inscritos (155) – e foi uma excelente oportunidade para a troca de conhecimentos e experiências entre cientistas brasileiros e estrangeiros.

PESQUISAS MOSTRAM NOVOS RUMOS
Durante os três dias da Conferência, foram apresentados estudos nas áreas de ciências básica, clínica e preventiva.
O destaque em ciência básica foi o estudo sobre a disseminação de vírus recombinantes do HIV (quando dois ou mais subtipos do HIV se combinam geneticamente). O trabalho sugere que a reinfecção pelo HIV deflagra o aumento da diversidade genética do vírus e revela a necessidade de ações para reduzir a incidência de infecções entre portadores do vírus.

Na área clínica, uma nova classe de drogas, os inibidores de CCR5, atraiu as atenções. Medicamentos de classes já conhecidas ganham novas formulações que podem ser mais eficazes, menos tóxicas e oferecerem mais conforto posológico para os pacientes.

Em prevenção, o estudo que revelou uma significativa redução daincidência do HIV entre homens circuncidados gerou muita curiosidade. Também em ciência preventiva foi exposto o potencial impacto da ampliação do acesso ao tratamento anti-retroviral para a prevenção de novos casos de HIV, através da diminuição de carga viral presente nas secreções genitais e sangue.

A urgência de sinergia entre prevenção e tratamento para a criação e ampliação de programas eficazes foi uma das principais conclusões da conferência.

Na cerimônia de encerramento, Peter Piot, diretor da UNAIDS, apontou cinco áreas de desafio para ações futuras: acesso universal à prevenção e tratamento; ampliação das pesquisas científicas; organização da sociedade para enfrentar o problema a longo prazo; garantia de compromisso dos governos em manter a aids na agenda internacional; e o entendimento da epidemia em toda sua complexidade e excepcionalidade.

“A realização de um evento internacional deste porte, no Brasil, trouxe uma grande oportunidade para os profissionais de saúde nacionais trocarem experiências com seus colegas estrangeiros”, analisa Valéria Saraceni, médica clínica e assessora da Coordenação Municipal de Doenças Transmissíveis do Município do Rio de Janeiro.

NOVIDADES NA ÁREA DE MEDICAMENTOS CONTRA A AIDS 
O inibidor de integrase e o inibidor de CCR5 (receptor responsável pela entrada do HIV na célula) fizeram parte de vários estudos apresentados na 3ª IAS. A expectativa é que em três anos esses medicamentos estejam disponíveis à população. De acordo com o infectologista Celso Ramos, um dos coordenadores do evento, o inibidor de integrase é diferente do inibidor de fusão, já disponível no mercado. “Os inibidores de fusão evitam a entrada do HIV nas células. A grande novidade envolvendo o inibidor de integrase, entretanto, é o bloqueio da entrada do DNA viral no DNA da célula. Dessa forma, ele inibe a integração do pró-virus no cromossomo da célula”, explica Ramos.

Para o infectologista Mauro Schechter, um dos organizadores do evento, as novas descobertas e apresentações de anti-retrovirais representam um progresso do ponto de vista teórico. “Quanto mais alvos do vírus forem atingidos ao mesmo tempo, menor será a chance de ele escapar e maior será a chance de sucesso do tratamento”, explica o professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Em 15 de setembro, a Glaxo-SmithKline suspendeu os estudos em fase IIb com o inibidor de CCR5 em pacientes virgens de tratamento. O produto desse laboratório se mostrou extremamente hepatotóxico. As pesquisas continuam em voluntários sem opção de tratamento ARV (em resgate), com um monitoramento intenso da função hepática dessas pessoas.

DROGAS ANTIGAS COM CARA NOVA
Muitos dos efeitos colaterais sentidos pelos portadores do HIV não estão associados ao princípio ativo do medicamento e sim à sua formulação.

Diarréia, desconforto gástrico e azia são alguns dos problemas relatados pelos usuários do lopinavir/ritonavir. Segundo Celso Ramos, esses problemas estão associados à cápsula gelatinosa que contém o princípio ativo do medicamento. Após cinco anos de pesquisa, o laboratório Abbott, fabricante dessa droga, conseguiu mudar o veículo do medicamento de cápsula para tablete. Outro benefício dessa nova apresentação é o armazenamento. A droga poderá ser guardada fora da geladeira.

“Quando diminuímos os efeitos colaterais do medicamento, nós aumentamos a chance de adesão ao tratamento”, afirma Ramos. A nova versão do lopinavir /ritonavir deve ser lançada até o início de 2006.

Atualmente, o IP saquinavir é veiculado em cápsulas de 200 mg e a dosagem diária é de 1000 mg. A nova formulação de 500 mg, divulgada durante a IAS, será tablete. Essa mudança na dosagem do medicamento facilita a adesão do paciente, que deixará de ingerir 5 cápsulas diárias e passará a tomar apenas duas.

Mauro Schechter ressalta que “uma formulação diferente podelevar a diferenças na quantidade de droga ativa efetivamente disponível e/ou também na curva de absorção e/ou eliminação da mesma, podendo, assim, interferir com a sua eficácia e/ou com a freqüência de efeitos colaterais que dependem de níveis séricos atingidos. Ademais, os próprios veículos utilizados podem ter efeitos colaterais próprios, como Kaletra novo e velho, o que pode afetar a segurança e/ou eficácia da droga”.

A POLÊMICA ENTRE MEDICAMENTOS DE MARCA E GENÉRICOS 
A discussão sobre a quebra de patentes dos anti-retrovirais se transformou no tom político da 3ª IAS.
No encerramento do evento, o ministro da saúde, Saraiva Felipe, afirmou que “na situação atual, onde o mercado de fármacos opera a partir da lógica do lucro abusivo, não resta alternativa aos estados nacionais senão utilizar os mecanismos de equilíbrio, assegurando a observância dos instrumentos legais, previstos tanto na legislação brasileira, quanto nos acordos internacionais, como o TRIPS e a Declaração de Doha”. Segundo o Ministério da Saúde, em 2000 foram gastos 56% do orçamento para a compra de anti-retrovirais importados.

Atualmente, esses medicamentos representam 80% do orçamento de R$ 1 bilhão do Ministério da Saúde. O ministro Saraiva Felipe chegou a afirmar que “essa é uma situação insuportável para qualquer sistema de saúde”.

Durante a mesa de abertura da 3ª IAS, Otávio Valente, presidente do Grupo pela Vidda Rio, disse que a quebra de patente seria o caminho para viabilizar a sustentabilidade das políticas de tratamento. “Hoje, o Brasil distribui internamente anti-retroviralde forma universal, mas não se sabe a médio e longo prazos como estará a situação financeira e econômica do país para o fornecimento desses medicamentos, inclusive prevendo pessoas que iniciarão o tratamento”.

Jorge Raimundo, presidente do Conselho Consultivo da Interfarma, Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, contesta a quebra de patentes, afirmando que isso pode provocar a diminuição de investimento dos laboratórios em novas drogas.
“Somente para desenvolver novos fármacos, são necessários de 10 a 12anos de pesquisas que exigem investimentos em torno de U$ 900 milhões.
A proteção através das patentes desses medicamentos é o recurso legal que assegura a continuidade dos investimentos”, disse o presidente da Interfarma durante a plenária Medicamentos de Marca x Medicamentos Genéricos, realizada no penúltimo dia da conferência. A representante da ONG internacional Médicos Sem Fronteiras, Ellen t Hoen, rebateu José Raimundo, citando um levantamento do instituto IMShealth. Segundo o estudo, apenas 12% do lucro dos laboratórios multinacionais vêm de países da América Latina, África, Ásia e Austrália. “Uma eventual licença compulsória, por parte do Brasil, não afetaria tanto o lucro final da indústria farmacêutica”, disse Ellen t Hoen, presente à mesa da plenária.

CAPACIDADE DE PRODUÇÃO
Em seu discurso de abertura da IAS, o diretor do Programa Nacional de DST/Aids (PNDST/Aids), Pedro Chequer, admitiu que o Brasil é “refém do mercado internacional”, porque depende de outros países para importar insumos e matérias-primas, mas disse que o país tem condições tecnológicas para iniciar a produção dos três anti-retrovirais importados: efavirenz, tenofovir e ritonavir/lopinavir. O diretor do PNDST/Aids assegura que o Brasil economizaria R$ 600 milhões em cinco anos se produzisse esses medicamentos.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria Farmoquímica (ABIQUIF), José Correia da Silva, afirmou à Saber Viver Profissional de Saúde que “a indústria brasileira tem qualificação e já produz várias substâncias ativas para medicamentos anti-retrovirais contra a aids e, certamente, poderá acompanhar as inovações que vierem”.

TIPRANAVIR: UM NOVO INIBIDOR DE PROTEASE 
“A grande novidade desse medicamento é a sua formulação específica para vírus resistentes aos inibidores de protease disponíveis atualmente, tornando- se uma alternativa às pessoas que estão em falência de tratamento”, explica Mauro Schechter. Segundo o infectologista Ricardo Dias, professor adjunto de Doenças Infecciosas da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), “essa droga surge no momento em que a resistência genética do HIV aos anti-retrovirais tem sido um grande desafio para a medicina”. O inibidor de protease (IP) Tipranavir acabou de ser aprovado nos Estados Unidos e México. No Brasil, ainda não há data prevista.

ETRAVIRINA(TMC 125) E TMC 114/R: INIBIDORES DE TRANSCRIPTASE REVERSA NÃO-NUCLEOSÍDEOS (ITRNN)
Esses medicamentos em pesquisa poderão ser uma opção de tratamento para pessoas que possuem vírus resistentes à classe de ITRNN.

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