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Saber Viver » Saber Viver n.22

06/2003

II Fórum em HIV/Aids da América Latina e Caribe

AIDS em discussão

No início de abril passado, realizou-se em Cuba o II Fórum em HIV/Aids da América Latina e Caribe – Fórum 2003. O Brasil apresentou 140 trabalhos relacionados ao tema. A Saber Viver, claro, estava lá.

O Fórum 2003 foi uma excelente oportunidade para que pessoas soropositivas e profissionais ligados à questão da Aids da América Latina e Caribe trocassem experiências e conhecimentos sobre o assunto. Os trabalhos apresentados pela delegação brasileira mostraram o que vem sendo feito aqui em relação ao controle e tratamento da Aids e no que diz respeito à atenção ao portador do HIV. O Programa Brasileiro contra a Aids que, graças a sua política de produção de medicamentos genéricos, garante o acesso ao tratamento de todos os portadores do HIV notificados no Brasil, foi citado mais uma vez como um exemplo a ser seguido. O coordenador do Programa, Paulo Roberto Teixeira, em seu discurso na plenária de encerramento do Fórum, falou da necessidade de expandir o acesso ao tratamento a todos os países em desenvolvimento e de controlar a qualidade dos medicamentos. “Isso só acontecerá se os governos priorizarem políticas nacionais de acesso aos genéricos, seja produzindo-os ou importando-os”, disse Teixeira, que defendeu um compromisso maior da Organização Mundial de Saúde (OMS) em relação à política de atenção aos portadores do HIV.

O Fórum foi ainda uma boa oportunidade para que os países da América Latina e Caribe (região do planeta mais afetada pela Aids depois da África Subsaariana) estabeleçam relações de cooperação e tracem metas em conjunto.

Participação da população afetada pela Aids é fundamental
Em diversas apresentações foi enfatizada a importância da participação das Organizações Não-Governamentais na criação e manutenção de políticas públicas que garantam aos portadores do HIV/Aids o direito à saúde e à cidadania. Infelizmente, como ressaltou, durante o Fórum, Peter Piot, diretor executivo da UNAIDS, isso não acontece com a maioria das nações da América Latina e Caribe. “Muitos países enfrentam sérias dificuldades para levar adiante projetos de acesso aos anti-retrovirais porque os programas contra a Aids da região não contam com apoio dos governos e suas respectivas comunidades”, disse ele. O Brasil, ao lado de Cuba, foi mais uma vez citado como exemplo de como a sociedade civil pode influenciar as decisões governamentais.

Representando a Rede de Pessoas Vivendo com HIV/Aids da América Latina (REDLA), Alberto Nieves, da Venezuela, destacou a importância da participação dos soropositivos para mudar a situação em que se encontram. E fez um chamado: “Pessoas com HIV que vivem na América Latina, despertem. A Aids não é só um problema de saúde, é de direitos humanos”.

Vivendo com o HIV na América Latina
Nicolas Perez, 37 anos, e Gustavo Lara, 38 anos, são cubanos e fazem tratamento contra a Aids. Em Cuba, como no Brasil, a assistência médica e os anti-retrovirais são garantidos pelo governo. Mas lá, diferente daqui, todos os portadores do HIV têm ainda direito à moradia e alimentação gratuita. Muitos cubanos soropositivos vivem ou já viveram em sanatórios. Os sanatórios cubanos são como um bairro com casas, mercado, hospital, escola, etc., onde quase todos os habitantes são portadores do HIV. Até 1990, ao receber o diagnóstico positivo para o HIV, o portador do vírus era obrigado pelo governo cubano a viver num sanatório afastando-se do trabalho (sem deixar, porém, de receber o salário) e do convívio familiar (alguns só viam a família alguns dias por mês). Hoje em dia, a internação no sanatório não é obrigatória, mas a recomendação dos médicos cubanos é a de que todos os soropositivos devem passar pelo menos uns meses lá. Durante essa estada, eles recebem acompanhamento médico, orientações sobre cuidados com sua saúde e sobre a importância do sexo com proteção. Muitos se engajam em projetos de prevenção à Aids, de aconselhamento aos soropositivos e combate à discriminação. Foi isso que aconteceu com Nicolas e Gustavo.
Nicolas vive há oito anos no sanatório de Havana, capital de Cuba, e faz parte do Grupo de Enfrentamento da Aids, uma instituição governamental que desenvolve ações de prevenção para a comunidade. “Quando eu descobri que era portador do HIV, em 95, não havia remédios contra a Aids em Cuba. Mas eu sempre confiei que o governo cubano faria algo por nós, soropositivos. Já conseguimos conquistas muito importantes para a nossa saúde”, diz Nicolas.

Gustavo viveu também em um sanatório. Ao sair de lá, passou a trabalhar em projetos relativos à Aids. “Nós lutamos por mais espaço nos meios de comunicação para prevenção à Aids e não discriminação das pessoas soropositivas. Queremos sensibilizar a população, porque há ainda desconhecimento e preconceito, apesar de já ter melhorado bastante em relação ao início da epidemia. Conseguimos mudar o estigma, mas temos que lutar mais”, diz ele.

A Venezuela, apesar de estar em uma situação privilegiada, se comparada com outros países latino-americanos, ainda tem graves problemas a serem resolvidos. William Barco, um venezuelano de 44 anos, diz que o tratamento contra a Aids tem sido prejudicado por causa das diversas interrupções na distribuição gratuita dos medicamentos. Além disso, segundo ele, a qualidade dos genéricos disponíveis na Venezuela precisa ser controlada.

Mas William é otimista: “Ter acesso ao tratamento contra a Aids é muito bom. Mas sei que os remédios sozinhos não fazem milagres, é preciso tomá-los corretamente. Eu tenho disciplina porque tenho amor à vida. Sou uma pessoa saudável. Enfim, não deixemos a Aids rir de nós. Temos que rir dela”. SV

“Não deixemos a Aids rir de nós. Temos que rir dela”.
William Barco – Venezuela

“Em Cuba, ainda há desconhecimento e preconceito, apesar de ter melhorado bastante em relação ao início da epidemia”.
Gustavo Lara – Cuba

“Já conseguimos conquistas muito importantes para a nossa
saúde em Cuba”.

Nicolas Perez – Cuba

BRASIL AJUDA PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO NA LUTA CONTRA A AIDS

O Programa Brasileiro de Cooperação em ações de prevenção e controle do HIV/Aids, assinado entre o Ministério da Saúde e 10 países da América Latina e África, começou pelo Paraguai no dia 7 de abril. Foram estabelecidas parcerias locais para que 100 portadores do HIV paraguaios recebam tratamento anti-retroviral doado pelo Brasil. A ajuda se estenderá a outros países da América Latina. Os próximos são República Dominicana, El Salvador e Colômbia. Países Africanos também receberão em breve a colaboração do governo brasileiro.

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