Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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02/2003

Jovens em situação de rua: Desafio para a prevenção

Verônica de Marchi
Psicóloga e Coordenadora do CAPS de Itajaí/SC

Num passado não tão distante assim, a rua como lugar de brincadeiras e aventuras fez parte da infância de muitos de nós. Este espaço de práticas antigas e tradicionais em nossa sociedade é um local de sociabilidade, sobrevivência e trabalho para crianças, jovens, famílias entre outros.

No entanto, a utilização da rua como espaço para aquelas crianças e adolescentes excluídos ou que se excluem, os transforma em “meninos de rua”, “infratores”, “drogados” e inúmeros adjetivos que associam sempre à pobreza e à marginalidade.

Pelo perigo que simbolicamente esta situação representa para a sociedade, desde o final do século passado, vimos o surgimento de políticas sociais e regulamentações jurídicas com o objetivo de disciplinar esses meninos e meninas, vistos até hoje, pela maioria da sociedade, como possíveis agentes da desordem e das crises nacionais.

Na década de 80, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, crianças e adolescentes, até então classificados como em “situação irregular”, passam a ser considerados sujeitos de direito, com prioridade absoluta na garantia desses direitos. Mas a realidade ainda é outra. O que presenciamos atualmente é um aumento progressivo dessa população, cujas garantias, prometidas pela Constituição, não saíram ainda do papel e, como afirma Dimenstein, o direito de se viver decentemente ainda é proibitivo para muita gente.
Diante desse retrato, que aos poucos vem sendo modificado pela atuação de movimentos sociais, de pesquisadores, de setores comprometidos com a infância e juventude e pela esperança de que o país encontre realmente seu caminho para uma sociedade mais justa, ainda há muito a construir e refletir sobre as nossas práticas e políticas sociais.

Buscando desenvolver um trabalho que levasse em conta a situação de abandono destes jovens, inauguramos em 2000, no município de Itajaí/SC, o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade às drogas, violência e DST/aids, que tem por objetivo a promoção da saúde física e mental dessa população.

O maior desafio a que nos propomos é o de estabelecer uma metodologia que, fundamentada numa visão de sociedade, de homem, de vida e mesmo de uma educação, possibilite um reconhecimento do universo desses jovens de forma a resgatar sua auto-estima e conseqüentemente vislumbrar oportunidades de construção de um projeto de vida. E como realizar este percurso com adolescentes marcados por situações extremadas de risco e violência? Como trazê-los, espontaneamente, para um espaço de opções mais saudáveis?

O CAPS não é somente um centro de atendimento, é antes de tudo um centro de atenção. Estar atento significa estar o tempo todo comprometido com o receber, com o escutar, com o olhar, com o acolher o sofrimento destes adolescentes, que aparece a todo instante, a qualquer momento. E todos ali presentes, da recepção ao técnico, devem estar atentos.
Esta metodologia está fundamentada em princípios que consideramos norteadores para o trabalho de prevenção e assistência que desenvolvemos, tais como:

 A atenção à criança e ao adolescente deve ser integrada e integral, realizada por uma rede multidisciplinar e intersetorial de cuidados que promova o desenvolvimento físico, mental e social dessa população;
 A estruturação de vínculos saudáveis como instrumento primordial de trabalho com crianças e adolescentes permite a adaptação ativa à realidade e uma retroalimentação dialética entre o sujeito e o meio, promovendo mudanças nos padrões comportamentais e afetivos e fortalecendo a estruturação da identidade individual e grupal.
 A vulnerabilidade ao consumo e abuso de SPA e as DST/HIV/aids exige das intervenções de prevenção e redução de danos, a compreensão do contexto sociocultural de vida, das características biológicas e psicológicas desses jovens, das questões de sexualidade e gênero, de sociabilidade e grupos, além dos aspectos psicofarmacológicos das SPA.
 A exclusão familiar, escolar e social é o maior fator de vulnerabilidade à saúde de crianças e adolescentes, decorrente: da situação de miséria econômica em que vive grande parte da população do Brasil; de práticas pedagógicas inadequadas às demandas e necessidades desses jovens; da falta de instrumentos técnicos e de vontade política para implementação das diretrizes de atenção propostas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente/ECA; e da carência de uma verdadeira REDE de serviços de saúde, assistência social, educação e de Organizações da Sociedade Civil que promova a saúde física, mental e a cidadania desses pequenos brasileiros.
Crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social são seres plenos de potencialidades, e, nesse sentido, a prevenção e a redução de danos à saúde devem estar orientadas pelo desenvolvimento e fortalecimento dessas habilidades e competências.
A adolescência, como momento crucial e característico do desenvolvimento humano e pelo seu caráter de transição biológica e psicossocial, leva o indivíduo a viver conflitos internos e externos na construção de sua identidade individual e grupal, na busca de vivências afetivas e de prazer, de sua independência econômica, do questionamento de valores e normas familiares e sociais. Todo e qualquer programa e ação de prevenção e assistência deve considerar, portanto, além das características de desenvolvimento do adolescente, seus valores, crenças, costumes e práticas individuais e grupais, sua linguagem e simbologia.

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