Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

Jovens usuários de drogas com e sob risco de HIV: lições de um programa de redução de danos

Tarcísio Andrade

Médico, Psicanalista, Professor adjunto-doutor da Faculdade
de Medicina da Universidade Federal da Bahia.
Pesquisador e Coordenador da Divisão de Redução
de Riscos e Danos do Centro de Estudos e Terapia do
Abuso de Drogas – CETAD/UFBA

No Brasil, os usuários de drogas sob maior risco de infecção pelo HIV, os Usuários de Drogas Injetáveis (UDI), são, em sua maioria, do sexo masculino e com média de idade em torno de 25 anos. Um estudo realizado no Centro Histórico de Salvador, em 1996, mostrou que 20% dos UDI HIV positivos tinham menos de 18 anos de idade e uma taxa de infecção maior do que o restante dos entrevistados. Esse dado, embora específico daquele local, chama atenção para a maior vulnerabilidade dos jovens UDI às complicações infecciosas decorrentes do uso de drogas. Tal fato tem como provável explicação a menor autodeterminação desses jovens diante dos adultos que os iniciam no uso injetável. Os mais jovens, habitualmente, dispõem de menos recursos para a aquisição de droga e, não incomum, as conseguem por intermédio de um adulto que também disponibiliza os equipamentos de injeção, muitas vezes já utilizados por ele próprio.

Com a intensificação do consumo de crack no Brasil, sobretudo na segunda metade da década de 90, tornou-se evidente a grande vulnerabilidade das mulheres usuárias, sobretudo as mais jovens e menos experientes, à infecção pelo HIV e outras DST. Pelas mesmas razões apresentadas para os UDI mais jovens, no universo do uso de drogas, as mulheres estão habitualmente colocadas em situação de desvantagem em relação aos homens, sobretudo aquelas mais jovens e inexperientes. Não incomum, a aquisição do crack se faz mediante a troca por práticas sexuais, que, quando genitais, muitas vezes se dão sem a devida excitação e conseqüente lubrificação vaginal, o que propicia, pelo atrito, escoriações, sangramentos e maior risco de infecção por HIV e outras DST. Em estudo recente realizado pela Divisão de Redução de Riscos e Danos do CETAD/UFBA entre 124 mulheres (idade ± 24 anos) revelou 1.6% de infecção pelo HIV e 2.4% para Hepatite C.

Ser jovem, sobretudo adolescente e usuário de drogas, reúne duas condições socialmente desfavoráveis. Em verdade, o adolescente não tem um lugar na nossa cultura ocidental pós-moderna: fatos idênticos ocorridos com adultos e considerados acidentes, entre adolescentes, não incomum, são rotulados de imprudência e desatenção; termos como “aborrecente” refletem a intolerância dos adultos para os jovens nessa quadra da vida. Mas o que definitivamente denuncia a falta de lugar do adolescente em nossa cultura é a tão familiar frase dos pais para seus filhos “estude para ser alguém na vida”, o que significa que nesse momento ele não é ninguém. Quando às condições de jovem e usuário de droga se soma a de HIV positivo, torna-se ainda mais difícil. Difícil para o próprio portador, que, além do seu discurso de contestação aos que o discriminam e o oprimem, também carrega consigo esse mesmo discurso, se recrimina por essas condições e sonha com um mundo adulto, de realizações e de plenos direitos.

A não percepção pelos profissionais de saúde dessas peculiaridades pode constituir fator de entrave na provisão, e também na aceitação por parte do portador, dos cuidados necessários à condição de jovem usuário de droga e HIV positivo.

A grande contribuição dos princípios e práticas das políticas de Redução de Danos na minimização dos riscos e agravos decorrentes do uso de drogas — não apenas das injetáveis, mas de toda e qualquer substância lícita ou ilícita que altere a senso-percepção do sujeito — está no respeito ao direito dos usuários de drogas às suas drogas de consumo. Estendido esses princípios a outros campos de práticas, seja na esfera pedagógica, social ou da prevenção e assistência à saúde, teremos como resultados ações mais sintonizadas com as necessidades das populações e, portanto, muito mais eficazes.

A adequada assistência à saúde constituída na capacidade técnica, mas sobretudo na individualidade do outro, visto em todas as suas potencialidades, condições demográficas, culturais, comportamentos e atitudes, possibilitará uma melhor percepção do jovem usuário de droga HIV positivo. Desse modo, torna-se possível perceber os motivos para a negação do estado de portador e ou doente com aids, uma vez que, apesar dos avanços obtidos, torna-se muito difícil nessa quadra da vida aceitar algo cuja solução definitiva lhe foge ao controle. Do mesmo modo, o uso de drogas que na maioria das vezes é para os usuários, independente de idade, uma forma de automedicação, entre os jovens HIV positivos, não incomum, se constitui em um meio de enfrentar a adversidade e propiciar tranqüilidade, ânimo, melhora do apetite ou mesmo disfarçar os efeitos da doença, quando já manifestada e não adequadamente tratada. Essa última condição tem sido observada entre jovens HIV positivo fora de tratamento, que encontram no uso de crack uma forma para disfarçar a anorexia e o desgaste físico decorrente da doença.

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