Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver » Saber Viver n.19

12/2002

Laços de famílias positivas

Intrometida, querida, distante, presente, acolhedora ou preconceituosa. Existem vários adjetivos para definir as diferentes famílias espalhadas pelo mundo. Independente de cada perfil, elas exercem uma tremenda influência na vida de todos nós. Nesta matéria você poderá refletir sobre a importância da família na vida das pessoas soropositivas e como esses laços podem ser firmados com pessoas que não são necessariamente do mesmo sangue.

Laura* foi a primeira a saber que seu irmão estava infectado pelo HIV. Vinte dias após a confirmação do diagnóstico, ele ficou internado, muito mal, por 36 dias. “Eu me senti vivendo o problema através do meu irmão. Antes, estávamos muito afastados, cada um vivendo a sua vida”. Para ela, a doença do irmão causou várias mudanças na vida de toda a família: “Os nossos pais, apesar de serem bem idosos, estão encarando tudo com muita coragem. Cada um de nós mudou muito e para melhor. Hoje me sinto mais serena. Por incrível que pareça, há aspectos positivos nessa crise. Eu estou próxima novamente do meu irmão. Todo aquele sentimento de carinho, amizade e amor ressurgiu novamente”. Laura* está buscando mais informações sobre a Aids e como conviver com o HIV. Muito realista, ela tem como meta ver o irmão recuperado, mas sabe dos desafios que tem pela frente. “Ele precisa de muitos cuidados. Estaremos sempre ao lado dele, vivendo um dia de cada vez”.

Segundo a psicóloga Eloísa Vidal Rosas, quando algumas famílias passam por um momento de crise, como, por exemplo, descobrir um diagnóstico positivo para o HIV, algumas transformações podem surgir. “Trata-se de uma situação que está naquele momento desarticulando e desestabilizando aquele grupo. O HIV não pode ser encarado como um problema individual. É uma questão para toda a família”. A psicóloga, que coordena uma equipe no Instituto de Terapia de Família do Rio de Janeiro, acredita que, quando a família se propõe a colaborar, pode se transformar num apoio precioso àquela pessoa infectada pelo HIV. Além disso, ela acrescenta que é comum, em momentos de crise, surgirem características em cada membro da família que poderão ser mais bem exploradas. “Quem tem melhor poder aquisitivo ajuda na parte financeira; quem tem mais disponibilidade de tempo pode se dedicar ao cuidado diário quando a pessoa necessita dele. A crise é o momento em que se tem que ser criativo, colocando o coração e a razão funcionando da melhor forma para tudo dar certo”.

Quando a família é um problema
Mas nem sempre a relação familiar é um mar de rosas. “Obviamente, a gente não pode ser romântico de achar que todas as famílias, em momento de crise, serão colaborativas. Depende muito do histórico dessa relação antes da descoberta do HIV”, pondera a psicóloga.

Beto* descobriu que é soropositivo há três anos e começou imediatamente a tomar os anti-retrovirais. Apesar de morar com os pais, ele não teve coragem de contar que está infectado pelo HIV. “Teria que falar sobre a minha opção sexual. Tenho certeza que os meus pais nunca aceitariam ter um filho homossexual e soropositivo. Eu não tenho diálogo com eles”. Como ninguém em casa sabe, Beto é obrigado a trancar os remédios dentro do armário para que os pais não desconfiem de nada. “A minha mãe acha que eu sou viciado e guardo drogas no armário. Penso em sair de casa, mas preciso arrumar um emprego”.

A situação de Beto demonstra a diferença que há entre falar de qualquer outra doença e de HIV/Aids. Os soropositivos ainda sofrem com o estigma social e, segundo Eloísa Vidal, a família também. “Quando uma família encara esse problema, conseqüentemente ela terá que enfrentar várias situações emocionais distintas, como opções sexuais e morais. Para uma família mais rígida, isso deve ser muito difícil”, diz a psicóloga.

Encontrar uma família substituta
Quando um diálogo sobre o HIV com a família é impossível, uma boa opção é o que Eloísa chama de família substituta, que pode ser formada por grupos de apoio ou por amigos em comum. Desde os primeiros casos de Aids no Brasil, Herbert Daniel, fundador do Grupo Pela Vidda, já pregava a importância de uma rede de solidariedade às pessoas vivendo com HIV/Aids como alternativa contra a exclusão sofrida por essas pessoas. A psicóloga do Instituto de Terapia de Família do Rio de Janeiro também acha muito importante que a pessoa doente, ou infectada pelo HIV, não se isole e construa uma rede de sustentação. “Isso não exclui as pessoas que têm uma boa relação com sua família. Mas, para quem tem uma relação familiar ruim, encontrar outros laços afetivos é fundamental”.

Quando a família substitua é melhor do que a natural 
Giselda (foto) tem ao todo cinco filhos, entre naturais e adotivos. Mas é com Dayane, de 10 anos, que ela mais se identifica. Giselda começou a cuidar dela quando a menina tinha dois anos de idade. Ela a considera sua filha, e Dayane só a chama de mãe. “Eu não consigo viver sem a alegria da Dayane. Ela é uma das pessoas mais importantes da minha vida”. Quando a menina chegou na casa de Giselda, estava muito doente. Depois de muito cuidado e carinho, ela se recuperou. Giselda diz que tenta não sofrer pelo fato de Dayane ser soropositiva. “Eu vivo o momento. Eu não fico pensando que um dia ela pode ficar doente e ser internada”. Giselda não tem dúvidas de que é a verdadeira mãe de Dayane e que construiu com ela uma nova família: “Mãe é a que cuida, que tem preocupação, que dá atenção e amor. Família é quem acolhe. Ela foi muito discriminada pela família de sangue. Eu sou a verdadeira família da Dayane”, confessa Giselda.

Novas famílias na vida de Charla
Charla Novi (foto) guarda recordações muito boas de sua família. Ela se diz uma pessoa de sorte, porque pôde viver muito tempo ao lado de primos, tios, avós, mãe, pai e irmãs no interior de Minas Gerais. Reconhece que herdou muitas características de sua família: a honestidade, a integridade, a educação. Após alguns anos da morte de sua mãe, ela resolveu assumir a sua “identidade sexual” com muita coragem. Depois de muito sofrimento e decepção, ela continua apostando no poder acolhedor da família. Apesar de nunca ter deixado de falar com o pai e as irmãs, Charla foi à luta e construiu um novo núcleo familiar. Na verdade, dois. Ela está casada há mais de 10 anos e tem um filho, de quem cuida há sete. Quer adotá-lo e foi à justiça para reivindicar isso. “Ele é o meu filho e vive muito feliz ao meu lado”, orgulha-se Charla. Além do marido e do filho, Charla conta que possui outra família, formada por travestis que freqüentam o Grupo de Convivência de Travestis, que acontece semanalmente no Grupo Pela Vidda Rio. A afinidade e o carinho entre eles são tão grandes que Charla resolveu abrir a sua casa todos os domingos para ter mais oportunidade de estar com esse grupo. “Ser travesti, com Aids, é um desafio muito grande para todas nós”. Para Charla, a família tem um sentido muito mais amplo do que a identidade genética. “A minha família hoje se estende às ONGs e ao meu grupo. Esse suporte, para quem tem HIV/Aids, é fundamental para conseguirmos viver melhor”.

Uma família sempre vale a pena
Existem alguns caminhos que podem levar a uma boa relação familiar. Se você acha que a sua família poderá ser uma aliada, mas não tem coragem de falar sobre o HIV sozinho, a psicóloga Eloísa Vidal indica a terapia familiar como uma ferramenta bem proveitosa nessas horas. “É um espaço reservado, onde existe o terapeuta que auxiliará você a ter boas conversas, aproximando você desse tema de uma forma mais protegida e cuidadosa”. Se você acha que não vale a pena apostar, busque um outro laço onde possa exercitar a solidariedade e o carinho mútuo. Uma família, seja ela como for, sempre vale a pena.

* nomes fictícios

Serviço
Bahia
Casa do PEV
Rua Laudicéia Gusmão, 644
Vitória da Conquista-BA
Cep: 45035-000
Tel: (77) 425 0681
Gapa-BA
Rua Com. Gomes Costa, 39-Barris
Salvador-BA – Cep: 40070-120
Tel: (71) 328 4270

Rio de Janeiro
Instituto de Terapia de Família
Rua Custódio Serrão, 46
Jd. Botânico
Rio de Janeiro-RJ – Cep: 22470-230
Tel: (21) 2539 1492
Grupo Pela Vidda-RJ
Av. Rio Branco, 135/709-Centro
Rio de Janeiro-RJ – Cep: 20040-006
Tel: (21) 2518 3993

São Paulo
Centro Corsini
Rua Luiz Otávio, 471
Jardim Santa Cândida
Campinas-SP – Cep: 13088-130
Tel: (19) 3256 6344
Instituto Vida Nova
Av.Marechal Tito, 5337-Itaim Paulista
São Miguel Paulista-SP
Cep: 08115-100
Tel: (11) 6561 5703
Centro de Referência em DST/Aids-Craids
Rua Luiza Macuco, 40/fundos
Vila Nova
Santos-SP – Cep: 11015-060
Tel: (13) 3222 8560

Santa Catarina
Hospital Dia-Anexo ao Pronto Socorro do Hospital Marieta Konder
Av. Sete de Setembro, 368
Centro
Itajaí-SC-Cep: 88301-202
Tel: (47) 348 3313 ramal 251


Compartilhe