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Saber Viver » Saber Viver n.15

04/2002

Lar doce lar

Casas de apoio ajudam pessoas soropositivas a encontrarem um caminho melhor para suas vidas

A Terra da Promessa hospeda 75 soropositivos

Casa, comida e muito mais. Várias pessoas soropositivas no Brasil passam fome e não têm onde morar. Para eles, a convivência com o HIV se torna apenas um detalhe diante de tantos outros problemas. Mas existem alguns locais que ajudam essas pessoas a encontrar um lugar ao sol. São as chamadas casas de apoio. Esses locais oferecem atendimento psicológico, apoio jurídico e participação em projetos de profissionalização. “Nós auxiliamos essas pessoas a diminuírem o fosso que as separa de uma vida social mais digna”, conta José Luiz Loureiro, coordenador da unidade Terra da Promessa, que abriga 75 soropositivos em Mairiporã (SP).

Vivendo com dignidade
“Antes de surgirem os remédios anti-Aids, nós tínhamos que abrigar as pessoas para que elas morressem com dignidade. Hoje, nós tentamos colaborar para que as pessoas vivam com dignidade”, diz José Luiz. A Terra da Promessa é uma das quatro casas de apoio, em São Paulo, que integram a Associação Aliança Pela Vida (Alivi), a primeira casa de apoio do país. Além dela, existem a Estrela da Esperança e a Casa da Paz, onde pessoas com a saúde debilitada recebem atendimento em leitos, e a Casa Pequeno Príncipe Tim, que abriga órfãos da Aids. A Alivi vai inaugurar em breve a Raízes e Asas, um espaço para adolescentes. Normalmente, as pessoas permanecem na Terra da Promessa por um período de 2 a 3 anos. “Todos que deixam a comunidade estão com a saúde boa e prontos para encarar uma nova vida”, orgulha-se José Luiz, que se empenha em um projeto de geração de renda junto com os hóspedes. Trata-se do cultivo de vegetais através de hidroponia (ao invés de plantá-los na terra, eles são cultivados na água). Com apenas nove meses, o projeto já é um sucesso. Seis supermercados compram diariamente a colheita. A expectativa é que, em breve, os 25 trabalhadores recebam três salários mínimos por mês. “Nós queremos que este projeto sirva de exemplo para uma cooperativa de pessoas soropositivas que pretendemos implantar na periferia de São Paulo”, antecipa José Luiz.

Falta de verba e de pessoal são problemas freqüentes

O perfil de prosperidade da Alivi, infelizmente, não se encaixa em todas as casas de apoio do país. A Caasah, em Salvador (BA), por exemplo, é citada nos hospitais da cidade como uma solução para o problema do paciente carente e faminto. Batem à porta da Caasah pelo menos cinco pessoas por semana. Mas, por falta de infra-estrutura, o local é obrigado a manter quatro quartos fechados. “O governo estadual nos doou uma boa casa, mas falta mão-de-obra e verba”, diz Celeste Cardoso, presidente da instituição. Ela conta com apenas 16 funcionários e alguns voluntários para atender a 32 adultos e 20 crianças, a maioria órfã da Aids. A Caasah distribui 100 cestas básicas para famílias cadastradas e oferece cursos de corte e costura, além de serviço jurídico gratuito. Para funcionar a todo o vapor, segundo Celeste, o local precisaria de R$ 9 mil mensais. Hoje, entre doações e financiamentos, ela arrecada R$ 6 mil.

Trabalhando com pessoas em exclusão social
A Casa de Apoio Água Viva, no Rio de Janeiro, trabalha preferencialmente com pessoas em exclusão. São travestis, garotos de programa e prostitutas. O ano passado foi muito difícil para os coordenadores e moradores desta casa de apoio. Eles foram despejados da casa, no bairro do Catete, por problemas causados pela má administração de um ex-presidente. Sem ter para onde levar os hóspedes, Adalgiza de Santana Ribeiro, uma das fundadoras da Água Viva, os abrigou por um final de semana em sua casa até que conseguisse encaminhá-los para outras instituições. Acabou sendo convidada a se retirar do prédio onde morava por determinação do condomínio. “Eles achavam que os meus hóspedes significavam uma ameaça aos moradores”.

Depois de uma matéria no programa Fantástico, da Rede Globo, a Água Viva conseguiu uma nova sede do governo do estado, no centro do Rio de Janeiro, e o Ministério da Saúde, através da Coordenação Nacional de DST/Aids (CNDST/Aids), está financiando as obras do local. Assim que a casa estiver pronta, os 18 hóspedes voltarão a sua rotina, com reuniões de Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos, além de palestras sobre a importância da adesão aos remédios. “Algumas pessoas da Água Viva já deixaram as drogas e agora trabalham em projetos de conscientização. O nosso objetivo é resgatar a auto-estima dessas pessoas”, explica Adalgiza.

Ocupando uma lacuna deixada pelo Estado
Para Guida Silva, assessora técnica da Unidade de Assistência e Tratamento da CNDST/Aids, as casas de apoio dão conta de uma lacuna que o Sistema Único de Saúde (SUS) não consegue preencher: “Sabemos que o tratamento anti-Aids é mais amplo do que a distribuição dos medicamentos e que o Estado não arca com todas as suas responsabilidades junto ao cidadão”. Porém, a assessora ressalta que a CNDST/Aids viabiliza financeiramente 24 casas de apoio no país através de um empréstimo firmado com o Banco Mundial. A preocupação da Coordenação agora é discutir alternativas para a sustentação dessas organizações após o fim do empréstimo. “Se essas casas de apoio não conseguirem manter o seu trabalho quando o empréstimo acabar, talvez uma das alternativas seja torná-las instituições públicas, que sobreviveriam com subsídios do governo”, antecipa Guida, reconhecendo a importância deste trabalho.

 
Seja solidário: colabore com as Casas de Apoio

Os telefones abaixo referem-se apenas a algumas casas de apoio no Brasil. Se você quer ajudar, informe-se na sua cidade se existe alguma casa de apoio que aceite doações ou precise de trabalho voluntário.

Bahia: Caasah – (71) 312-7655

Rio de Janeiro: Água Viva – (21) 3477-6577 ou (21) 9353-0977

São Paulo:Terra da Promessa – (11) 4485-2269
Espírito Santo: Casa Servo de Deus. Atende pessoas que estejam de passagem pela cidade. Guarapari. (27) 3261-6232 e 3261-3755.

Paraná: Recanto Amigo – Atende dependentes químicos e hospeda cerca de 35 pessoas soropositivas. Jaguapitã. (43) 272-1340.


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