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Saber Viver » Saber Viver n.05

07/2000

Lipodistrofia

Este efeito colateral vem causando pânico em todos nós. Ninguém quer ficar com pernas e braços finos e barrigudo. Além do medo da magreza excessiva, nós estamos tendo de conviver com esta nova ameaça que vem atingindo a auto-estima de muitas pessoas. Os médicos ainda sabem muito pouco sobre a lipodistrofia. Mas algumas respostas podem ser dadas. O clínico geral Juan Carlos Rosso Verdeal esclarece as principais dúvidas e dá dicas preciosas de como lidar com este efeito colateral.

O que é a lipodistrofia?
É uma alteração na distribuição da gordura corporal, com concentração no tronco (barriga e peito), na nuca e visceral (por dentro do organismo, especialmente no abdome), além da diminuição de gordura nos braços, pernas e rosto. Além disso, ocorre uma alteração nos lipídeos sanguíneos, com diminuição do colesterol bom e aumento do ruim e dos triglicerídeos. Algumas pessoas ficam com resistência à ação da insulina e por isso podem até ficar diabéticas.
A lipodistrofia já existia antes da Aids. É uma característica de algumas doenças do metabolismo, hereditárias ou endocrinológicas.

O que causa a lipodistrofia?

A lipodistrofia começou a aparecer em pacientes soropositivos que tomam remédios do grupo dos Inibidores de Protease (Saquinavir, Indinavir, Nelfinavir, Amprenavir e Ritonavir). Os pacientes começaram a perceber que a barriga estava crescendo e ninguém sabia por que. Hoje se sabe que a lipodistrofia surge com o uso prolongado destes medicamentos, ficando mais evidente após o primeiro ano.
Descobriu-se também que alguns medicamentos do grupo dos Inibidores Nucleosídeos de Transcriptase Reversa, em especial o D4T, vêm causando este efeito colateral. Entretanto, estas drogas já vinham sendo usadas há mais tempo e não havia se percebido estas alterações. Acredita-se hoje que a lipodistrofia pode aparecer com o uso de todos os grupos de medicação, inclusive os Inibidores Não Nucleosídeos de Transcriptase Reversa, em especial o efavirenz. Enfim, todas as pessoas que fazem uso de uma medicação anti-Aids terão de conviver com o risco da lipodistrofia.

Os cientistas não previram isto quando testaram os remédios?
Nenhum estudo de segurança – que testa os medicamentos antes de eles serem colocados à venda – detectou este efeito colateral. Isto porque, hoje em dia sabe-se que a lipodistrofia aparece conforme o tempo de uso dos remédios. Estes estudos não duraram o tempo suficiente para que se percebesse esta alteração. Enfim, estamos diante de um grande quebra-cabeça onde ainda faltam várias peças.

Existe alguma pessoa que seja mais propensa à lipodistrofia? 
Até hoje nenhum estudo, no mundo, conseguiu responder a esta indagação. Estudos pequenos sugerem que as pessoas que começaram a tomar os medicamentos assintomáticas (sem sintomas da Aids) são menos propensas do que àquelas que começaram a utilizá-los após o desenvolvimento da doença. Mas o importante é analisar caso a caso. Por exemplo, se você tiver colesterol ou triglicerídeos altos antes do tratamento, a sua tendência à lipodistrofia será maior do que de uma pessoa que não apresentou alterações nas gorduras do sangue.

Afinal, os médicos se preocupam com a lipodistrofia?
Para nós a lipodistrofia traz uma preocupação enorme. Foram apresentados no último Congresso de Retrovirologia, nos Estados Unidos, mais de 60 trabalhos sobre a lipodistrofia, embora todos muitos pequenos, envolvendo um número reduzido de pessoas pesquisadas. Além das transformações corporais, existe a possibilidade teórica de dano à saúde cardíaca das pessoas pelo aumento do colesterol. Ainda não existe prova concreta de que a lipodistrofia pode levar ao infarto, no entanto até que esta questão seja totalmente esclarecida, a melhor forma de evitar um problema mais sério é passar a ter hábitos mais saudáveis.

Que hábitos saudáveis são estes?
Parar de fumar é fundamental. Praticar exercícios e fazer uma dieta balanceada também são muito importantes, cortando os excessos (açúcares, massas, gorduras).

Eu posso conversar com o meu médico sobre a mudança dos medicamentos?
Você deve conversar sobre este assunto com o seu médico. As decisões sobre sua medicação devem ser sempre compartilhadas. No entanto, ainda há um número relativamente limitado de opções para o tratamento do vírus da Aids e mudar uma medicação que está dando certo traz sempre o risco de perder o controle sobre a infecção. Além disso, nada garante que a troca do medicamento causará uma diminuição da lipodistrofia, uma vez que os outros medicamentos podem também causar este problema.

O que é usado no tratamento da lipodistrofia?
Todas as tentativas com medicações são muito recentes. O hormônio do crescimento vem sendo testado, entretanto é muito caro e existe o risco potencial para o desenvolvimento de tumores. Não vale a pena. Já se sabe que os resultados a longo prazo não são tão satisfatórios.
Algumas pessoas optam pela cirurgia plástica na face e pela lipoaspiração da gordura. Esta solução é cara e nem sempre eficiente, pois a gordura muitas vezes volta com o tempo. Para as pessoas com problemas de açúcar no sangue em excesso, está sendo ministrado um remédio que é utilizado contra a diabete: a metiformina.
Os exercícios são ótimos aliados. A musculação é bem interessante para substituir aquela gordura que sumiu das pernas e braços por músculo. Andar, nadar e pedalar são fundamentais para o controle das gorduras no sangue.

Tenho medo de ter lipodistrofia. O que devo fazer?
Prevenir-se. Faça ginástica e comece a adotar hábitos mais saudáveis em sua vida desde já.

Nenhuma roupa fica bem em mim.
A lipodistrofia é uma realidade. Você provavelmente não se sentirá bem dentro de calças muito justas. Comece a vestir roupas mais largas e confortáveis. Seja mais leve!

Grupos de medicamentos Anti-Retrovirais
Inibidores Nucleosídeos
de Transcriptase Reversa

AZT (zidovudina/Retrovir), 3TC (lamivudina/Epivir), d4T (estavudina/
Zeritavir), ddI (didanosina/Videx), ddC (zalcitabina/Hivid) e abacavir (Ziagen).
Inibidores Não Nucleosídeos
de Transcriptase Reversa 

Nevirapina (Viramune), delavirdina (Rescriptor) e efavirenz (Sustiva/Estocrin).
Inibidores de Protease
Saquinavir (Invirase), ritonavir (Norvir), indinavir (Crixivan), nelfinavir (Viracept) e amprenavir (Agenerasi).

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