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Saber Viver » Saber Viver n.02

01/2000

Mães coragem

Elas rompem as barreiras da desinformação, do preconceito e do isolamento para cuidarem de seus filhos com HIV/Aids. A seguir o depoimento de três mulheres que foram à luta.

“Estou me preparando para contar para minha filha que ela tem o vírus da Aids.” Gilsa, 43 anos, duas filhas

“Meu marido foi o primeiro a saber que tinha o vírus da Aids e não me disse nada. Mas eu fiquei desconfiada e acabei descobrindo. Em 94, fiz o exame e constatei que tinha o vírus. Logo depois, a pior notícia: minha filha caçula, na época com 4 anos, também era portadora. Apenas a mais velha estava livre da doença.

Cheguei ao hospital Gafrée Guinle meio descontrolada. Eu não podia aceitar que minha filha estivesse com Aids. Estava arrasada, não sabia o que fazer. Então a Dra. Norma me aconselhou a procurar as psicólogas que atendem na imunologia do hospital. Isto me fez muito bem. Eu consegui superar muitos medos, agora estou tranqüila.

Estou me preparando para contar para minha filha, hoje com 9 anos, que ela tem o vírus. Ela já está começando a fazer certas perguntas, mas eu fujo, não falo. Tenho medo da reação dela. Mas eu sei que é melhor que minha filha saiba por mim. Outro dia, no hospital, um menino disse: ‘todo mundo aqui tem Aids’. Ela ficou revoltada, disse que era mentira, que ela não tinha.

Às vezes é uma chateação danada. Como não quero que as pessoas saibam, não posso deixar minha filha na casa de coleguinhas por causa dos medicamentos. Às vezes vou para o banheiro dar o remédio escondido. Todos estes problemas eu divido com o grupo de mães do hospital. A gente sai mais leve. A minha família sabe, mas não liga. Fora do grupo as pessoas não entendem, então não adianta falar. Aqui, se uma pessoa tá pra baixo, a outra dá força.”

*****

“Ele é o filho que eu tanto queria”.  Dulce, 63 anos, quatro filhos

“Em 1987, meus 3 filhos já estavam criados e eu sentia muita vontade de adotar uma criança. Depois de muito procurar, encontrei um menino de 1 ano e 7 meses rejeitado pela mãe. Quando o vi pela primeira vez, fiquei impressionada. Ele estava cheio de feridas pelo corpo. Mas não tive dúvida de que aquele era o filho que eu tanto queria. Apesar de todo o carinho que eu dava, ele estava sempre de cara fechada, não sabia receber afeto. Até que um dia me olhou e sorriu.

Só em 1994 descobri que ele, com 8 anos, tinha o vírus da Aids. Foi um choque. Contei para meus filhos mais velhos e graças a Deus eles aceitaram muito bem. Também a esta altura eu já sabia bastante sobre a Aids e pude passar a eles informações tranquilizadoras.

Aos 11 anos, meu filho perguntou pela primeira vez se ele tinha Aids. Eu já havia sido orientada pelas psicólogas do Gafrée a responder aquilo que ele demandava naquele momento. Então, em casa, escolhi o melhor momento e contei tudo. A reação foi melhor do que eu esperava. Ele fez um monte de perguntas sobre camisinha, sobre filhos e eu fui respondendo com a preocupação de ser clara e de não mentir. Um tempo depois, ele precisou iniciar o tratamento com os anti-retrovirais. Eu fiquei arrasada. Os remédios eram complicados de serem tomados. Ele teve dificuldades para se adaptar. Não queria tomar, não tomava regularmente, estava revoltado. Eu sei que influenciei muito porque intimamente eu também não aceitava que ele precisasse desta medicação. A médica acabou suspendendo tudo porque era melhor não tomar nada do que tomar do jeito que ele estava tomando. Hoje, vimos que era necessário voltar com a medicação porque o CD4 dele está baixo e ele está até doente. Mas agora são outros remédios, mais fáceis de serem tomados e eu tenho certeza de que ele vai fazer tudo direitinho. Estamos conscientes da importância da medicação.

***

“Tenho me sentido  maltratada e humilhada”.  Rita, 34 anos, três filhos

“Descobri que tinha o vírus quando estava no 7º mês de gravidez. No posto de saúde de Japeri, onde me consultava, a médica não me deu a menor assistência. Fiquei muito deprimida e sem saber o que fazer. Acabei tendo minha filha, hoje com 1 ano e 9 meses, no hospital de Paracambi, onde também ninguém me deu atenção. O teste dela também é positivo. Sem orientação, eu a amamentei e nunca tomei remédios anti-Aids. Nunca mais fui a hospital nenhum. Até agora tenho me sentido maltratada e humilhada não só pelos médicos, mas também pela minha vizinhança e na igreja que eu freqüentava. Ouvi falar deste hospital (Gafrée Guinle) e resolvi dar uma última chance para mim e para minha filha. Agora vou começar o tratamento e minha filha vai fazer o segundo teste anti-HIV para saber se ela realmente está com o vírus da Aids. Estou feliz em estar aqui, me senti muito bem no grupo das mães e pretendo voltar todas as semanas.”

* Os nomes são fictícios.

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