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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.14

10/2008

Manejo de pacientes que consomem drogas ilícitas e álcool

VIVENDO COM HIV/AIDS

Francisco Inácio bastos
Pesquisador Sênior da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Rio de Janeiro

O manejo clínico e psicológico de pessoas vivendo com HIV/aids que fazem uso abusivo de drogas e/ou álcool constitui um desafio para o qual não há receitas aplicáveis a quaisquer pacientes, mas sim soluções pragmáticas a serem aplicadas caso a caso, sempre no contexto de uma relação franca entre profissionais de saúde, pacientes e seus familiares e amigos mais próximos. A partir da experiência acumulada ao longo de mais de uma década atuando como médico em caráter voluntário no Ambulatório da Providência, no Rio de Janeiro, e de diversos trabalhos de pesquisa, conduzidos por nossa equipe e diversas equipes de pesquisa em todo o mundo, é possível afirmar que tal manejo é possível, ainda que nem sempre seja simples, mas NADA justifica privar estes pacientes da terapia anti-retroviral potente.

O paciente que faz uso regular de álcool e/ou drogas
Abordo aqui, preferencialmente, a questão dos indivíduos que fazem uso regular e em quantidades elevadas de drogas e/ou álcool, pois estes constituem a minha clientela habitual. O perfil deste usuário vem mudando aceleradamente na minha experiência clínica e na literatura científica. Enquanto o uso de drogas por via injetável vem experimentando reduções no contexto brasileiro e internacional, as cenas de uso atualmente congregam, antes de tudo, poliusuários de uma variedade crescente de substâncias, tanto tradicionais (como a cocaína), como de uso mais recente, como o crack e o ecstasy e similares.

O usuário contemporâneo jovem pouco tem em comum com o estereótipo do “junkie”, em geral, homens de meia idade, que, em contextos como o europeu e norte-americano, utilizam basicamente drogas opiáceas, como a heroína. O usuário mais jovem afasta-se deste padrão, embora, habitualmente, compartilhe com os junkies problemas pessoais e familiares relevantes, dificuldades profissionais e de relacionamento social, sendo igualmente, em sua maioria, oriundos de estratos sociais desfavorecidos, situação sócio-econômica esta que freqüentemente se deteriora ao longo da trajetória de uso regular. No entanto, por uma ironia do destino, o manejo desses usuários “da antiga” é bastante bem-sucedido e mais consolidado do que o do jovem poliusuário dos nossos dias, pois o manejo da dependência de heroína e outros opiáceos se beneficia de intervenções que combinam a utilização de terapia de substituição (por exemplo, com a metadona), a psicoterapia, a prescrição administrada de anti-retrovirais (algumas vezes em tomadas supervisionadas da medicação, na assim denominada DOTHAART) e tratamento de co-morbidades que comumente afetam esta população, como a depressão.

Por outro lado, ainda não existe uma terapia de substituição para o poliusuário dos nossos dias, a despeito de algumas tentativas, como a utilização (em caráter experimental) do Modafinil no manejo da dependência à cocaína/ crack. Como seus padrões de uso são extremamente dinâmicos e variados, estes indivíduos estão mais sujeitos a overdoses (em geral, fruto da combinação de duas ou mais drogas) e requerem um manejo individualizado, analisado caso a caso pela equipe de saúde, com a necessária atuação de todos os seus membros (médico, psicólogo, enfermagem, assistente social e auxiliares). Idealmente, cada caso deve ser discutido em equipe, buscando, sempre, o uso consciente de um leque de alternativas que mutuamente se reforcem, potencializando a melhora do paciente.

Estas estratégias de manejo individualizado de casos têm-se mostrado extremamente bem sucedidas, com experiências internacionais em que pacientes nela inseridos apresentam aderência e resposta clínica comparáveis aos dos não-usuários de drogas.

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