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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.04

03/2006

Mudanças corporais causam grande conflito psíquico

O impacto psicossocial causado pela lipodistrofia pode alcançar enormes proporções, segundo a psicóloga doCentro de Referência e Treinamento em DST/Aids-SP, Valvina Adão. As mudanças na imagem corporal levam grande sofrimento ao portador do HIV/aids, interferindo em sua auto-estima e vida social. “A pessoa deixa de se reconhecer”, afirma a psicóloga. “De repente, a consciência corporal e a identidade, elaboradas desde os primeiros anos de vida, passam a não existir. A nova figura não lhe é familiar”, relata. “O paciente tem a impressão de estar vivenciando um processo acelerado de envelhecimento, desconectado do fator cronológico”. O novo corpo não é reconhecido nem pelo paciente ao se olhar no espelho, nem pelas pessoas de seu convívio familiar, profissional e social. “Quanto menos compartilhado for o diagnóstico positivo para HIV, maior a angústia do paciente, pois ele não consegue justificar o motivo das mudanças físicas observadas”, explica Valvina.

A crise de identidade inevitavelmente desdobra-se para outroscampos, prejudicando sua vida afetiva e sexual. No caso das mulheres, o abdome proeminente, muitas vezes confundido com gravidez, e o visual masculinizado, devido à redução da gordura nos braços, pernas, nádegas e face, fazem com que elas deixem de se sentir femininas e atraentes, e passem a ter vergonha do corpo. “Quanto mais sua beleza física estiver relacionada ao seu poder de escolha e sedução, maior será o sofrimento e a dificuldade de adaptação a essa nova realidade”, comenta Valvina. Em casos extremos, essas mulheres, independentemente de seu estado civil, acabam optando pelo isolamento e solidão. No caso dos homens, o aumento do volume abdominal, surgimento de ‘giba’ e atrofia observada nos membros superiores, inferiores e nádegas geram igualmente insegurança e ansiedade. Homens e mulheres compartilham a angústia de verem-se às voltas com a temida “cara da aids”, que por alguns anos parecia coisa do passado. A lipodistrofia leva o portador do HIV/aids a se defrontar novamente com a possibilidade de morte social e a enlutar-se antecipadamente com medo do preconceito e discriminação.

TRANSTORNOS PSICOLÓGICOS COSTUMAM INFLUENCIAR QUADRO ORGÂNICO
Os sentimentos de desamparo, desconfiança, frustração, vergonha, raiva e tristeza, que acompanham a instalação da lipodistrofia, ameaçam a qualidade de vida conquistada e podem abalar a relação médico-paciente e o tratamento. “Os conflitos associados à perda da identidade corporal, crises pessoais e sociais provocam estresse, ansiedade, angústia, isolamento e, muitas vezes, depressão”, observa Valvina.

A situação é delicada e demanda cuidados para que o paciente continue lutando pela manutenção do tratamento e, por extensão, de sua saúde. “Enfrentála exige trabalho em equipe”, observa a médica do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids-SP, Joselita Caraciolo, que reforça a importância de uma abordagem interdisciplinar para enfrentar os transtornos causados pela lipodistrofia. Segundo ela, a boa condução e resolução da situação requer a inclusão de diversos saberes. “Deve-se estar atento para iniciar as intervenções o mais precocemente possível, antes da instalação da lipodistrofia e suas conseqüências”, complementa.

CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA IDENTIDADE

Vale tudo para minimizar os efeitos da lipodistrofia. Porém, é essencial ressaltar que as estratégias devem ir além de encaminhamentos para procedimentos corretivos de face ou outras partes do corpo, ou o uso de sutiãs e calcinhas com enchimento para compensar a perda de massa corporal. “Incorporar hábitos saudáveis, atividade física regular e cuidados com a saúde mental e emocional do paciente é fundamental”, lembra Joselita Caraciolo.

À reconstrução corporal do portador do HIV/aids com lipodislipodistrofia deve ser acrescentado um efetivo trabalho psíquico. Nesse sentido, a psicóloga Valvina Adão acredita que fazer parte de um grupo terapêutico é um ótimo recurso para o resgate da autoestima do paciente, pois proporciona ajuda mútua, troca de experiências relacionadas a cuidados pessoais, saúde, filhos e sexualidade. “O apoio do grupo propicia melhor qualidade de vida, facilita a reintegração, diminui sintomas como insônia e desânimo, além de facilitar o resgate da vida afetiva, sexual e do desejo de viver”, ressalta Valvina. A psicóloga lembra ainda que o grupo ajuda o paciente a aceitar o diagnóstico, o tratamento e as suas conseqüências. “Quem não consegue engolir o diagnóstico positivo para o HIV terá muita dificuldade em lidar com os efeitos dos medicamentos”, comenta a psicóloga. “O trabalho em grupo ajuda a elaborar as perdas, a aprender a conviver com uma nova realidade e a desenvolver recursos criativos para lidar com os desafios que surgem no caminho”, conclui.

A médica Joselita Caraciolo concorda: “O atendimento multidisciplinar e o trabalho em grupo vêm apresentando bons resultados e representam possibilidades de reconstrução corporal, psíquica e social para o paciente”.

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