Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.02

03/2008

Muito além do tratamento

Quem apostou na formação de grupos de jovens para conquistar sua adesão à saúde já está começando a comemorar os resultados. Com diferentes formatos – e iniciantes na maioria dos serviços de aids –, as reuniões têm se mostrado uma excelente alternativa às consultas tradicionais. Apropriarse do espaço do hospital, compartilhar experiências e discutir temas que vão além do tratamento tem levado cada vez mais jovens a alcançar não só uma melhor qualidade de vida, mas também a consciência de ser cidadão.

PORTO ALEGRE
ARTE E CULTURA PROMOVEM VÍNCULO ENTRE JOVENS E SAÚDE, NO SAE DE VILA CRUZEIRO

Um grupo de jovens pacientes do Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids (SAE) de Vila Cruzeiro passou a olhar o mundo por novos ângulos. Reconhecer as diferenças de cada um e as múltiplas formas de encarar um fato faz parte das oficinas de fotografia ministradas pelo fotógrafo voluntário Leandro Selister. Convidado pela pediatra Suzane Kummer, Leandro estréia as atividades de um trabalho que vem sendo elaborado há tempos. 

Novo público, novas estratégias
“Hoje, nossa equipe trabalha muito bem com crianças, mas nem sempre foi assim”, conta Suzane, recordando que, na década de 90, quando surgiram os primeiros casos de aids pediátrica no SAE, a equipe se sentia despreparada. “O mesmo aconteceu agora com os primeiros adolescentes”, constata. Para pensar estratégias para abordar o novo público, a pediatra procurou a equipe da pediatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Chegamos à conclusão que o melhor era trabalhar com os adolescentes em grupo”, recorda. “Mas não queríamos falar só sobre o tratamento. Decidimos apostar na discussão de temas relacionados à adolescência, como família, sexualidade e preconceito, através de oficinas de arte e cultura”, explica a médica.

O lugar ideal
A proposta inicial era realizar as oficinas fora do ambiente hospitalar. No entanto, a tentativa de compor uma parceria com o Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre foi frustrada. “Eles não foram receptivos ao saber que nossos jovens vivem com HIV/aids”, lamenta Suzane.
Por fim, a equipe concluiu que criar um espaço para os jovens dentro do próprio SAE foi bem mais proveitoso. “Nos dias de grupo, eles podem pegar remédios ou fazer exames. Além de ser mais prático, fortalece o vínculo entre os jovens e o serviço”, enfatizam as psicólogas Lisiane Winkler e Jenny Moskovics, que coordenam as reuniões semanais. A pediatra Suzane lembra que, nos dias do grupo, fica disponível para atender os jovens antes ou depois da reunião.

Novos desafios
Suzane conta que, quando convidados a integrar o grupo, os adolescentes, em geral, se mostram arredios. “Isso é normal. Afinal eles sempre tiveram acompanhamento individual”, analisa. Por enquanto, só foram realizadas quatro reuniões e os jovens mais assíduos são aqueles com melhor adesão ao tratamento. “Meu objetivo agora é atingir os mais problemáticos, mas sei que grupo não funciona para todas as pessoas”, se conforma a médica, para logo se entusiasmar com o tema das próximas oficinas: “Convidamos um paciente daqui, que confecciona dinossauros, para dar oficinas e falar sobre a pré-história!”

Atualmente formado apenas por adolescentes atendidos na pediatria, o próximo desafio seria levar os jovens pacientes do ambulatório de adultos a também participar do grupo. O médico Teodoro Süffert, que atende alguns desses jovens, não sabia da existência do grupo, mas considera importante esse espaço de debate e socialização criado dentro do SAE. “Alguns de meus pacientes com certeza poderiam se beneficiar com essa iniciativa”, afirma.

FORTALEZA
ADESÃO AO TRATAMENTO E FIM DA SOLIDÃO NO HOSPITAL SÃO JOSÉ

Desde que voltaram de um encontro de jovens vivendo com HIV/aids, realizado em Brasília, em 2005, quatro adolescentes do Hospital São José e a psicopedagoga Adriana Tavares não tiraram da cabeça a idéia de formar um grupo de discussão com os jovens do hospital. Várias tentativas foram feitas, mas o grupo nunca conseguiu ter longa duração. Mesmo assim, um pequeno núcleo resiste e, desde setembro de 2007, vem se reunindo mensalmente.

A dinâmica do trabalho é simples, mas funciona. “Proponho alguns temas e estimulo o debate”, conta Adriana, adiantando que os adolescentes que fazem parte do grupo têm ótima adesão ao tratamento.
Um dos temas mais discutidos é o preconceito. “Os jovens querem contar para os amigos e namorados sobre o HIV, mas desde pequenos eles aprendem a esconder essa verdade”, diz. “Eles são muito cientes das dificuldades: não contar é reforçar o preconceito, mas contar é se expor”.

Segredo sobre diagnóstico prejudica crescimento do grupo
O grande número de adolescentes que desconhece sua condição sorológica e a falta de uma ampla divulgação dessa iniciativa entre os profissionais do hospital prejudicam o crescimento do grupo. Em 2007, apenas três jovens freqüentaram as reuniões.

Um dos projetos para 2008 é sensibilizar todos os profissionais que atendem jovens soropositivos sobre a importância dos encontros. “Quero muito que nosso grupo cresça”, diz Isabela*, de 14 anos. Adriana Tavares resume numa frase o sentimento desses jovens: “Eles dizem que saíram da solidão”.

SÃO PAULO
NO SAE CIDADE LÍDER II, PARCERIA ENTRE PROFISSIONAIS E JOVENS

Muito mais do que usuários do Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids Cidade Líder II, Karina e Thompson, ambos com 20 anos, são coordenadores, junto com a psicóloga Cristina Lara, do grupo de jovens do serviço. Agentes de prevenção e multiplicadores, formados pelo Grupo de Incentivo à Vida (GIV), eles propõem temas e atividades para as reuniões. “Atuamos em conjunto com essas duas lideranças juvenis, portadores do HIV com formação nas questões que envolvem as DSTs, em especial, a aids”, conta a psicóloga, que considera essencial, para o bom andamento do grupo, que jovens e técnicos compartilhem todas as fases do trabalho: planejamento, execução e avaliação. “Vemos o jovem como sujeito social, capaz de decidir e opinar. Buscamos romper com o assistencialismo e estimular o jovem na construção de recursos próprios para solucionar a especificidade de seus problemas, conquistando sua independência e autonomia. Visamos o fortalecimento de sua capacidade de autocuidado”, diz Cristina.

Adesão e preconceito estão interligados
Nas reuniões, a discussão gira quase sempre em torno de como enfrentar o preconceito e a discriminação. “Esse é o maior problema do jovem para aderir à medicação”, apontam Karina e Tompsom. Há ainda reflexões sobre sexualidade, que aparece associada à doença, sobre sentimentos como culpa e castigo e sobre a superação da perda de familiares. “Os encontros favorecem a criação de um forte vínculo entre os jovens, a partir da compreensão de que os seus sentimentos são comuns a vários outros”, acredita a psicóloga Cristina.
A equipe aposta no grupo como um importante fator de proteção à saúde, por facilitar discussões sobre hábitos, valores, crenças e necessidades e por promover a obtenção de informações e o esclarecimento de dúvidas. Para isso, são utilizadas variadas técnicas, tais como colagens, modelagens, jogos, dramatizações, textos, pinturas e desenhos. O objetivo é facilitar a expressão e tornar os encontros mais atraentes e prazerosos.

Divisão por faixa etária
Realizados quinzenalmente, com freqüência média de 10 participantes por encontro, os grupos são divididos em dois: um de jovens no início da adolescência (dos 11 aos 16 anos) e outro dos mais velhos (dos 17 ao 20 anos). Segundo a equipe, assim pode-se trabalhar melhor as questões de cada faixa etária. Por enquanto, apenas adolescentes de transmissão vertical fazem parte das discussões. “Temos que ir atrás dos adolescentes de transmissão horizontal. Percebemos que eles têm uma vida diferenciada: muitos já são pais e trabalham e, por isso, o atendimento deve ser outro”, explica Cristina Lara.

RIO DE JANEIRO/NITERÓI
SAUDÁVEL CONVÍVIO DAS DIFERENÇAS NOS HOSPITAIS DOS SERVIDORES DO ESTADO E CARLOS TORTELLI

Sem tirar o foco sobre questões como a vida com o HIV e o tratamento anti-aids, jovens pacientes do Hospital dos Servidores do Estado (HSE), no Rio de Janeiro, e do Hospital Municipal Carlos Tortelli, em Niterói, participam, desde 2006, de oficinas de literatura, artes, teatro e cidadania. O objetivo inicial era construir coletivamente a segunda edição da revista Saber Viver Jovem, mas está rendendo muito mais do que isso.

Mariana Darmont, psicóloga que desde 2001 coordena reuniões quinzenais com os jovens do HSE, conta que, com o início das oficinas – uma parceria entre os dois hospitais, a Saber Viver e o Grupo Pela Vidda-Niterói – pode dedicar mais tempo aos atendimentos individuais. No entanto, atualmente, os jovens, animados com o vínculo criado entre eles e o hospital, reivindicaram a volta das discussões específicas sobre a convivência com o HIV. “Nos reunimos logo após as oficinas para discutir temas propostos por eles, tirar dúvidas sobre DSTs, aids e tratamento e discutir estratégias para vencer o preconceito da sociedade”, comemora Mariana, que, com a parceria, viu o grupo de jovens crescer e tornar-se mais atuante.

Maria Letícia Cruz, infectologista do HSE e uma das criadoras do grupo,
lembra que a busca pelo formato mais adequado e os ajustes no meio do percurso fazem parte do processo de formação de um grupo. “Tudo isso leva tempo, e a perseverança da equipe é fundamental”, ressalta.

Trabalhando a inclusão
Diferente dos outros grupos visitados pela Saber Viver, o do HSE reúne jovens infectados pelo HIV por transmissão horizontal e vertical. A médica Maria Letícia acredita que a opção foi acertada. “Estando todos juntos, é possível trabalhar de forma mais ampla questões como prevenção secundária, sexualidade, gravidez, culpa, preconceito e tolerância”, destaca. A psicóloga Mariana concorda: “Todos no grupo, sejam meninas, meninos machistas ou homossexuais, conversam sobre suas diferenças e semelhanças, mantendo uma relação afetuosa”.

Já no Hospital Carlos Tortelli, os jovens se reúnem mensalmente desde 2003, e, no dia do encontro, almoçam no hospital. “O almoço, que conta com a orientação da nutricionista, se tornou mais uma atividade”, diz a psicóloga Leila Chagas. “Nossa equipe toda abraçou a idéia do grupo”, comemora.

As reuniões no hospital continuam, mas a participação dos jovens nas oficinas realizadas quinzenalmente na sede do grupo Pela Vidda-Niterói
provocou mudanças notáveis. “Os jovens interagem mais entre eles e com os profissionais, se tornaram mais maduros e falantes”, constata Leila, que também é voluntária do Pela Vidda.

Contaminação positiva
O saldo das oficinas está sendo muito positivo em todos os aspectos. A revista Saber Viver Jovem nº 2 foi lançada com intensa colaboração dos jovens, as turmas dos dois hospitais se tornaram muito unidas e participativas, atraindo adolescentes de outros hospitais e ONGs, e um leque de novas perspectivas, que vão muito além da adesão ao tratamento, se abriu tanto para os jovens, quanto para os profissionais.

FALA, JOVEM!

RIO DE JANEIRO / NITERÓI

Bianca, 15 anos, é paciente do Hospital Municipal Carlos Tortelli, em Niterói; Suellen, 20 anos, é atendida no Hospital Geral de Nova Iguaçu; William e Fábio, ambos de 20 anos, se tratam no Hospital dos Servidores do Estado (HSE) do Rio de Janeiro. Os quatros fazem parte das oficinas realizadas no HSE e no Grupo Pela Vidda – Niterói e participaram, com textos e fotos, da revista Saber Viver Jovem nº 2,
lançada em dezembro de 2007.

preconceito
“Tem sido bom me expor, mas antes é bom saber que há preconceito em toda parte. Tenho vontade de falar mais sobre a aids, mas às vezes falta coragem. Qualquer preconceito é ruim, mas a discriminação pelo HIV é arrasadora”. William

“Muitas pessoas que me viram na Saber Viver Jovem fizeram chacota. Não vou me rebaixar, não discuto. Para mim é uma honra sair na revista”. Fábio

“Eu não escondo mais de ninguém que tenho o HIV. Entrei nessa luta. Dei uma palestra para jovens e não vi preconceito algum. A gente tem que ter muita cabeça porque nem todo mundo vai reagir como você espera”. Fábio

“Eu acho necessário discutir sobre o HIV. O pessoal da minha escola viu a revista e me fez um monte de pergunta. Até agora ninguém me olhou de cara feia, mas já me arrependi uma vez de contar sobre o HIV, para o meu primo”. Bianca

“Me chamaram para dar uma palestra no colégio porque viram a revista e eu vou aceitar. Mas tem pessoas que eu prefiro que não saibam, principalmente na minha rua. Descobriram que duas pessoas de lá eram soropositivas e mandaram matar.” Suelen

tratamento
“Gosto do atendimento do hospital, mas tem que melhorar. Demorei meses para conseguir ser tratado de uma DST”. Fábio

“O meu atendimento é muito bom, todo mundo no hospital me conhece. O pior do HIV é ficar doente e tomar remédio todo dia”. Suelen

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