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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.07

11/2006

Muito além dos anti-retrovirais

Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids (SAE) de Recife – PE promove adesão à vida com saúde, respeito, dignidade e autonomia

Promover a humanização do tratamento e privilegiar ações de atenção integral em saúde, rompendo com o caráter meramente biológico da doença. São esses os princípios que regem o trabalho desenvolvido pelo Serviço de Atendimento Especializado em DST/Aids (SAE) da Policlínica Lessa de Andrade, no Recife – PE. Buscando melhores resultados junto a seus pacientes, os profissionais do SAE optaram por trabalhar a adesão sob uma perspectiva mais abrangente, ligada ao conceito da vida com qualidade – e não somente ao uso de medicamentos prescritos e à assiduidade de exames.

Com esse objetivo, o grupo de adesão do SAE, aberto para cerca de 700 adultos e jovens que utilizam seus serviços, passou a discutir a saúde em seu conceito mais amplo.

Tudo começou quando os profissionais perceberam que o modelo proposto pelo Ministério da Saúde poderia ser enriquecido se as discussões em torno da adesão também atendessem às outras demandas de saúde propostas pelos usuários – 60% deles, com perfil de extrema pobreza. A partir daí, o grupo foi se estruturando de acordo com as expectativas dos próprios pacientes – auxiliados por uma equipe interdisciplinar – e incluindo, nos seus encontros, pautas variadas, como políticas de saúde, uso abusivo de álcool e outras drogas (na perspectiva de redução de danos), preconceito, discriminação, pobreza e a própria condição de soropositivo.

A cada quinta-feira, entre 20 e 30 pessoas reúnem-se por duas ou três horas, para conversar sobre temas sugeridos pelos pacientes ou pelos profissionais, sob uma abordagem de psicogrupo ou sociogrupo.

PARCERIA ENTRE USUÁRIOS E PROFISSIONAIS É FUNDAMENTAL

Para Lindalva Correia, assistente social do SAE, trabalhar em parceria com quem vive a patologia é imprescindível.

“Enxergar no usuário um sujeito de direito, levando-se em consideração sua opinião na tomada de decisões e promovendo a disponibilidade do indivíduo para manter sua vida com qualidade e prazer é a diretriz do nosso trabalho”, diz ela.

Além de local para a troca de experiências, o grupo se tornou também um espaço de confraternização e lazer. É lá que são festejados aniversários, datas comemorativas e folclóricas.

A socialização é garantida por um contrato de convivência (elaborado pelos próprios participantes), que define o grupo como aberto e heterogêneo – qualquer usuário soropositivo pode participar, independente de raça, etnia, gênero, orientação sexual ou religião. O documento confere ainda o caráter terapêutico das reuniões, confirmando-se como espaço de partilha, de solidariedade, de ética e de sigilo.

Este “sentimento de coletividade” é, segundo a psicóloga do SAE, Suzana Sobral, uma das razões para o sucesso do programa: “O movimento em grupo, além de garantir ao usuário que ele não está sozinho, é também importante para que ele se sinta útil e produtivo”, explica. Lindalva Correia acrescenta que todos os integrantes têm voz ativa e direito a voto nas decisões do grupo. “Em grupo, eles são fortes. Trabalhar com quem é forte é muito mais difícil. Quem está organizado reflete, questiona. Quem luta por seus direitos está lutando por sua saúde e por sua qualidade de vida; cuida-se mais, adoece menos e o Estado ganha ”.

COMO RESULTADO, O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

A trajetória de Raniere Lima corrobora as expectativas dos profissionais do SAE, quanto aos resultados da iniciativa: socialização e efetivo exercício da cidadania, através de organização política. Há sete anos, quando recebeu o resultado positivo para o HIV, no CTA do município, ele foi encaminhado ao grupo. “Foi lá que encontrei suporte para encarar esta nova realidade, tirei minhas dúvidas e descobri coisas que não imaginava: que poderia ser feliz e ter uma vida normal”, diz Raniere. Hoje, ele é um dos articuladores da ONG Casa Verde, criada no seio do grupo e que mantém uma casa de apoio para soropositivos no bairro de Guapiraba, no Recife.

Para a assistente social Lindalva, essa é uma das provas do sucesso do programa, que ainda não pôde ser medido em números devido a grande rotatividade de pessoas nas reuniões.

Além da criação da Casa Verde, o grupo registra grande procura entre usuários de outros serviços de referência em aids de Pernambuco. As reuniões, antes menores, hoje ocupam o auditório da unidade. É crescente o interesse de profissionais de outras unidades em se capacitar com a iniciativa – o grupo é espaço de aprendizado para profissionais em formação, supervisionados pela equipe técnica. E outro dado humano é visível. Assim como Raniere Lima, a maioria dos participantes se juntou a algum movimento social de luta contra a aids, atuando em ONGs ou redes.
“A proposta de adesão é muito maior do que simplesmente disciplinar o uso dos medicamentos. É apontar para perspectivas de vida, de saúde integral, refletindo sobre os estigmas de morte – social e física – decorrentes do contexto histórico da aids”, resume psicóloga Suzana Sobral. Para ela, o melhor resultado está no processo de “empoderamento” dos usuários – algo que garante autonomia no exercício de cidadania, para uma vida com respeito e dignidade. “Tudo isso reforça, como conseqüência, a adesão ao uso adequado dos medicamentos, fundamentais ao controle da aids”, aposta Lindalva.

MAIS INFORMAÇÕES
SAE: (81) 3228 5093
Lindalva Correia: (81) 9192 2510
dalcorreia@ig.com.br

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