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Saber Viver » Saber Viver n.13

12/2001

Mulheres que amam demais

Existem muitas coisas em comum entre Elenice, Carmen e Rose. Além de serem soropositivas, todas afirmam que foram infectadas pelos seus maridos e nenhuma delas admite ter sentido raiva por isso, tampouco abandonaram os parceiros. Muito pelo contrário. A primeira providência foi cuidar do outro antes mesmo de pensar em cuidar de si própria. Somente após o falecimento dos companheiros, elas conseguiram, depois de passar por um processo de luto, encarar a infecção e cuidar da própria saúde.

“Me senti cumprindo minha missão”
Elenice dos Santos Barros, 37 anos, mora em Santos (SP) e sabe há 14 anos que é soropositiva. O marido era usuário de drogas injetáveis desde a época em que namoravam. “Eu não imaginava que ele poderia estar infectado pelo HIV”. Elenice, que diz nunca ter sentido raiva do marido, assume que ficou muito decepcionada. “A minha família pediu que eu o largasse, mas eu não tive coragem”. Elenice pensava apenas em cuidar do marido, dos dois filhos e da casa: “Eu esqueci de mim”. Hoje, ela afirma que faria tudo novamente. Porém, reconhece que a morte do companheiro foi um alívio: “Me senti cumprindo minha missão”. Atualmente, freqüenta um grupo de mulheres e coordena o Projeto Mais Mulher, que prevê a geração de renda e aumento da auto-estima feminina.”O fato de as mulheres amarem o outro acima delas mesmas deve ser questionado por nós”, reavalia Elenice, que hoje está namorando.

“Ele precisava de mim”
Carmem*, 45 anos, mora em Salvador e há 2 anos sabe que é soropositiva. O marido ficou internado 4 meses seguidos, antes de falecer: “Eu tinha que ficar ao lado dele. Ele precisava de mim. Se eu saísse do lado dele, ele não ficaria vivo. Praticamente me mudei para o hospital. Somente depois de ele falecer, eu fui procurar tratamento”. Hoje, Carmem admite que só pensa em continuar o tratamento porque tem uma filha de 10 anos e um neto para cuidar. “Se não fossem eles, eu não teria vontade de viver”.
* Nome fictício

“Cuidar do outro faz parte da alma feminina”
Apesar de ser muito diferente de Carmem, a carioca Rose de Souza, 39 anos, comportou-se da mesma maneira no trato com o marido. Casou-se aos 17 anos com o único homem de sua vida e há 10 anos descobriu que ele havia lhe infectado. “No início, eu fiquei anestesiada. Não consegui sentir raiva. Depois eu percebi o quanto ele precisava de mim”. Somente depois que o companheiro morreu, Rose deu um novo rumo à sua vida. Faz palestras em escolas e igrejas sobre prevenção e é presidente da ONG Gestar, cujo objetivo é valorizar a auto-estima das mulheres. “Antes de o meu marido morrer, ele me perguntou se eu iria morrer junto. Eu disse que não! Eu queria estar viva para poder ajudar a outras pessoas. Cuidar do outro faz parte da alma feminina”.

Desinformação e busca pelo amor ideal

A história dessas mulheres talvez seja muito parecida com a de outras soropositivas que nunca se imaginaram vulneráveis ao HIV por serem monogâmicas e terem se dedicado quase que exclusivamente ao lar. A psicóloga Luciana de Paula acredita que um dos fatores que torna a mulher mais vulnerável é o sonho de um relacionamento ideal: “Elas confiam demais nos parceiros e idealizam as relações”. Para a psicóloga Sônia Batista, coordenadora do Centro de Testagem Anônima (CTA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a mulher se sente realizada quando a relação afetiva está bem encaminhada. A desconfiança do parceiro coloca em risco o projeto amoroso. Segundo a psicóloga, a desinformação é também uma característica de parte da população feminina, tornando-a mais vulnerável ao vírus da Aids. “Geralmente as mulheres vêm fazer o teste por indicação de algum amigo ou porque o companheiro é soropositivo. A desinformação é gritante. Elas não se sentem expostas ao risco da infecção”. Sônia conta que a primeira reação delas ao receber o resultado do teste é emotiva e chorosa. “A maioria se sente desamparada em relação ao futuro”. Porém, quando retornam ao CTA para receber o resultado do segundo teste (o confirmatório), elas se sentem mais estruturadas, demonstrando muita preocupação com os filhos e os maridos.

O contágio do homem para mulher é mais eficaz

Até na forma de contágio pelo HIV, a mulher é mais vulnerável. Segundo a infectologista Beatriz Grinsztejn, a transmissão do homem para mulher é mais freqüente, porque no esperma existe uma concentração de vírus maior do que na secreção vaginal, e a superfície mucosa da vagina é mais extensa, aumentando a eficácia da transmissão. A situação ainda piora quando percebemos a dificuldade da maioria das mulheres em negociar com o parceiro o uso da camisinha e a falta de incentivo ao uso do preservativo feminino. Resultado: muitas que estão em tratamento acabam engravidando por falta de um aconselhamento mais individualizado. Para a psicóloga Sônia Batista, mudar essa realidade é fundamental que se ofereçam a essas mulheres informações substanciais sobre saúde sexual e aconselhamento reprodutivo. “Elas precisam ter mais poder sobre o seu próprio corpo e sobre as questões femininas. Paralelo a isso, são necessárias ações que visem aumentar a sua auto-estima”.

Cuidados fundamentais com a saúde

O aparecimento de lesões que podem dar origem ao câncer de colo de útero é mais freqüente entre as mulheres infectadas pelo HIV. Essas lesões são causadas pelo vírus do papiloma humano (conhecido como HPV). Para a infectologista Beatriz Grinsztejn, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, as mulheres soropositivas devem fazer o exame de papanicolau (que diagnostica as lesões de colo de útero) assim que recebem o diagnóstico positivo para o HIV. Beatriz recomenda que o primeiro exame seja feito imediatamente e repetido 6 meses depois se não houver nenhuma lesão. Após esse procedimento, a paciente deve repetir o papanicolau anualmente. Caso seja diagnosticada alguma lesão, a mulher deve ser encaminhada à colposcopia (um exame mais detalhado que definirá a gravidade do caso). Porém, Beatriz enfatiza que o fato de a mulher ter uma lesão causada pelo HPV não significa que ela terá câncer de colo de útero. Mas essa mulher precisará realizar um tratamento específico para evitar que essa lesão venha a se transformar em algo mais grave. Inclusive, há mulheres que possuem o HPV, mas nunca desenvolveram nenhuma lesão. Em sua pesquisa de doutorado, a infectologista verificou em mulheres com CD4 abaixo de 200 uma propensão ao desenvolvimento dessas lesões. Por isso, ela indica que essas mulheres, mesmo com o resultado de papanicolau normal, devem ser encaminhadas à colposcopia.

Alterações menstruais freqüentes
Uma queixa muito comum entre as mulheres soropositivas é a alteração no ciclo menstrual, em relação à freqüência e ao fluxo. Segundo a infectologista Beatriz Grinsztejn, dados de uma pesquisa americana destaca que 30% das mulheres soropositivas têm alterações menstruais. “São muitas as explicações para isso. Na maioria das vezes, se uma mulher tem a imunidade mais debilitada, ela terá mais chances de ter alterações menstruais. Ainda não há estudos que comprovem se essas alterações têm relação com o uso de medicamentos anti-retrovirais mais potentes”.
Outro problema que vem sendo descrito entre mulheres é a alteração hormonal. Porém, também não existem pesquisas relacionando essas alterações com medicamentos, infecção pelo HIV ou perda de gordura causada pela lipodistrofia. “Infelizmente, as pesquisas relacionadas à saúde da mulher soropositiva são insuficientes no mundo e deixam muitas perguntas sem respostas. O foco das pesquisas é mais direcionado à transmissão vertical porque existe um interesse geral em salvar o bebê”.

Aconselhamento reprodutivo

A infectologia Beatriz Grinsztejn alerta que os profissionais de saúde que trabalham na rede pública precisam oferecer um acompanhamento diferenciado às mulheres soropositivas. “Existem, em alguns lugares, serviços de ginecologia. Mas o aconselhamento reprodutivo é primordial. Nós estamos observando que essa área não está recebendo a atenção devida. A maior prova é a gravidez de várias pacientes em tratamento nos hospitais”. Segundo a médica, esse aconselhamento reprodutivo é necessário para apresentar às mulheres alternativas ao uso da camisinha. “Não podemos ser extremistas. Precisamos trabalhar com a questão do sexo seguro, mas sabemos que muitas pessoas não usam camisinha freqüentemente”.

Alerta para a dupla-proteção
Para Beatriz, essas mulheres devem ser orientadas para a dupla-proteção: “falar do uso do preservativo, mas também oferecer outro método que possa ajudá-las a se proteger de uma gravidez indesejada, como o uso de anticoncepcionais”. É fundamental, segundo Beatriz, que esse serviço tenha informações específicas, por exemplo, sobre a interação de alguns anticoncepcionais com os medicamentos anti-retrovirais, que já foi comprovada em pesquisas. “Alguns anticoncepcionais têm a sua eficácia diminuída quando são ingeridos junto com os anti-retrovirais. O ideal é que o ginecologista tenha contato com o infectologista. Se a paciente já tiver um ginecologista, ela poderá pedir que ele mande uma carta ao seu infectologista contendo o nome do contraceptivo que ele pensa em prescrever. O importante é dar subsídios a mulher para que ela possa escolher o seu caminho, optando, inclusive, por ter um filho, se esse for o desejo dela”.

Bate-papo entre mulheres . Alguns locais que possuem grupo de mulheres:

Rio de Janeiro
Grupo Gestar – (21) 2526-7313
RNP+ Rio – Conversa de Mulher
(21) 2597-4242, ramal 2163 ou 3899-5477

São Paulo
Grupo de Incentivo à Vida – Toque de Mulher –
(11) 5084-0255 ou 5084-6397

Santos
RNP+ – Projeto Mais Você – (13) 3236-5100


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