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Saber Viver » Saber Viver n.04

05/2000

Na busca por um grande amor

Encontrar a pessoa ideal não é fácil para ninguém

Quando se tem o vírus da Aids, tudo se torna ainda mais difícil, mas não impossível. Valéria Piassa Polizzi (foto), de 29 anos, está namorando há dois anos Markus, um rapaz austríaco. Ela o encontrou durante uma viagem a Nova Zelândia. Antes de o romance esquentar, a primeira providência de Valéria foi abrir o jogo com Markus e contar que era soropositiva. “Foi muito importante para a nossa relação ele saber desde o início. Várias pessoas soropositivas não contam aos seus parceiros que têm o vírus da Aids. A relação se transforma naquela coisa pesada e falsa”, diz Valéria.

Murilo Vale, de 23 anos, passou por esta experiência. Com 19 anos e três de casamento, descobriu que era portador do HIV. Não teve coragem de contar ao seu parceiro. “Pensei em sumir. Queria terminar tudo.” Quando Márcio, de 44 anos, descobriu que o companheiro havia escondido um assunto tão sério, o amor deu lugar a uma grande revolta e um sentimento de traição. “Eu fiquei superchateado”. Márcio assume que a raiva só não foi maior porque ele não se contaminou. “Depois superamos esta fase. Comecei a ajudá-lo no tratamento.” Entretanto, a relação já não era a mesma. O principal problema era a falta de sexo. Márcio não se adapta ao uso do preservativo. Murilo, insatisfeito, sentiu-se sem saída e preferiu abrir mão do casamento. Mas a relação de companheirismo e amizade permanece entre os dois.

Com a voz mansa, o jeito suave e solidário, Murilo atualmente vem se empenhando em conquistar novas amizades e em ajudar pessoas soropositivas. “Não me arrependo de ter me separado. Agora eu me sinto melhor fazendo coisas que eu não fazia antes, como viajar, conhecer novos amigos e ajudar outras pessoas que vivem com o vírus HIV como eu. Agora eu sei que não preciso de um relacionamento para me sentir inteiro. O importante é eu estar bem.”

Depois do que passou com Márcio, Murilo diz que aprendeu a lição e prefere contar de cara para as pessoas que é soropositivo antes de começar um relacionamento “Já fui deixado em cinema, teatro e shopping. Muitas pessoas não aceitam se relacionar com portadores do HIV. Alguns me ligaram depois pedindo desculpas, mas só queriam ser amigos. Namorados, não. Mesmo assim, eu prefiro contar logo no primeiro encontro.”
Valéria escreveu um livro em 1993, sob o título Depois daquela viagem (Ed. Ática). Na história, ela relata como foi o impacto de se descobrir portadora do vírus HIV com apenas 16 anos de idade, infectada na primeira relação sexual. “Somente depois de me expor através do livro, comecei a contar às outras pessoas que eu era soropositiva.” Daí, então, surgiram situações semelhantes às de Murilo: “Vários garotos me deixaram falando sozinha. Outros chegavam a dizer: Você é muito bonitinha, mas com Aids não dá!”. Valéria reconhece que não é nada fácil assumir a Aids para o outro. Antes de encontrar o Markus, ela ficou mais de cinco anos sem namorar ninguém. “Preferia ficar só que mal acompanhada.”

Relacionamento ideal
Murilo está iniciando um relacionamento com uma pessoa de Curitiba que também é soropositiva. Ele acreditava que este era o caminho mais seguro para evitar o transtorno de ter que revelar o HIV ao outro. Mas vem percebendo que, para um relacionamento dar certo, é necessário muito mais do que isto. “É preciso ter paixão”, diz ele. Já Valéria acha que o principal ingrediente para uma vida a dois feliz é a pessoa encarar a Aids de frente. Caso contrário, não há namoro que dê certo. Para a escritora, ficar remoendo a raiva por quem o contaminou não tem sentido, afinal cada um tem que cuidar de si e não usar camisinha hoje em dia é saber que está correndo o risco de se tornar soropositivo.

“O HIV faz parte da minha vida”
Buscar amigos que estejam passando pelo mesmo problema é um bom começo para uma transformação pessoal, segundo Valéria. Murilo seguiu este caminho e não se arrepende. Depois de conquistar novas amizades, ele afirma que aquele desespero do medo da morte não existe mais. “Hoje em dia o HIV faz parte da minha vida. Eu achava que iria morrer cedo. Agora penso em fazer faculdade e construir um lar ao lado de alguém que goste de mim do jeito que eu sou”.

A psicanalista Clara Lúcia Inem afirma que uma das principais dificuldades das pessoas soropositivas pensarem em namoro vem do sentimento de que o sexo e os relacionamentos não fazem mais parte de suas vidas, o que é um equívoco.
Clara concorda com Murilo e Valéria quando defendem um relacionamento aberto: “Conversar com o parceiro sobre a doença, de uma maneira sincera é o caminho para uma relação autêntica”. A médica acredita que a vida sexual de um casal pode ser estimulada criando-se um clima de intimidade em vários momentos do dia a dia, como, aproveitando o tempo de lazer, dançando, passeando ao entardecer ou ouvindo música. “Superando o medo de assumir a doença, a pessoa poderá ter uma vida sexual saudável, garantida pelo uso do preservativo, e afetiva, como nunca teve em nenhum outro relacionamento.”

Leitor da Saber Viver recebe mais de 80 cartas

Desde o dia em que o seu nome e endereço foram publicados na seção Namoro ou Amizade da Saber Viver, muita coisa mudou na vida de Murilo Vale. “A revista veio no momento certo”. Logo após o fim de seu relacionamento de seis anos, tudo que Murilo queria era fazer novos amigos. E conseguiu. Ele recebeu mais de 80 cartas de onde conseguiu extrair 20 amizades próximas. Depois desta experiência, Murilo passou a escrever para outras revistas masculinas, onde revela ser soropositivo nos anúncios. “Acho interessante para diminuir o preconceito.”

Depois de algumas pessoas, inclusive sua mãe, tentarem violar a sua correspondência, Murilo alugou uma caixa postal. “Aconselho as pessoas a fazerem o mesmo. Você tem privacidade absoluta”.

Para alugar uma caixa postal, basta procurar a agência de correios mais próxima de sua casa. Valor anual: R$ 56,76.
Cartas para Murilo: Caixa Postal 80.019 – Nilópolis – RJ
Cep: 26.501-970

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