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Saber Viver » Saber Viver n.16

06/2002

Não deixe o preconceito atrapalhar seu tratamento

O estigma que a Aids carrega faz com que as pessoas soropositivas se descuidem do tratamento

Começar a tomar os medicamentos contra o HIV é um marco na vida de todos os soropositivos. Para alguns que, no passado, por falta de remédios eficientes, estiveram entre a vida e a morte, os anti-retrovirais vieram como uma bênção. Mas para a maioria das pessoas tomar esses medicamentos significa ter que encarar o fato de ser soropositivo. Nessa hora, segundo Gisela Cardoso, psicóloga responsável pelo atendimento de pacientes HIV positivo no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro, a percepção que cada um tem em relação à Aids vai influenciar sua maneira de lidar com o tratamento. “Aqueles que não conseguem suportar o fato de serem soropositivos são os que têm maiores dificuldades em seguir a terapia anti-retroviral de maneira correta”, diz a psicóloga.

Claro que seguir um tratamento tão complexo quanto o anti-HIV não é nada fácil, mas superar o estigma que a Aids carrega parece ser o maior problema a ser enfrentado. Apesar de a maioria dos soropositivos ter família, amigos ou companheiro, poucos podem compartilhar seus sentimentos com alguém e têm que encarar sozinhos o medo, o desânimo e a angústia que a Aids traz.

Escondendo sentimentos e medicamentos
Esconder seus sentimentos, seus medicamentos e inventar mentiras na hora de tomá-los é uma prática comum para quem é soropositivo. “Tentei conversar com minha irmã, mas quando comecei a falar sobre Aids, ela logo mudou de assunto e me deixou falando sozinha. Agora não me abro com mais ninguém”, conta Aparecida (foto à esquerda), 38 anos e dois filhos. “Quando me perguntam porque tomo tantos medicamentos, prefiro dizer que tenho câncer ao invés de dizer que tenho Aids”, diz Sueli*, 45 anos.

Como o câncer, a Aids também traz junto com ela a idéia de morte, mas o fato de estar ligada ao sexo e às drogas, temas tabus na sociedade, produz atitudes ainda mais preconceituosas. Isso faz com que a Aids ganhe mais uma característica que dificulta seu tratamento: a clandestinidade. Rejane*, 41 anos, guardava seus medicamentos dentro do armário do quarto que alugava em uma casa de família. “Sempre tomava meus remédios escondida, mas a dona da casa os encontrou e pediu que eu fosse embora”, revela. Valéria (foto à direita), 36 anos, arma mil estratégias para tomar seus medicamentos. “Quando estou com alguém que não sabe que sou soropositiva, tenho que disfarçar. Só tomo os remédios quando não tem ninguém olhando”, confessa.

Ninguém precisa ficar sozinho
A dificuldade em se falar de um assunto que mexe tanto com o imaginário das pessoas como a Aids, faz com que o soropositivo se veja impedido de expressar seus sentimentos e se sinta excluído de seu meio social. É preciso encontrar forças para não cair em atitudes destrutivas e resgatar sua auto-estima, valorizando sua história de vida. É bom ter sempre em mente que uma pessoa não é só soropositiva, ela é também mãe ou pai ou filho, é estudante ou trabalhador, tem planos, gosta de determinada coisa, sabe fazer muito bem alguma outra. Ou seja, é um ser humano que vive e está aqui para ser feliz.

Mas não adianta ficar preso à idéia de que tudo tem que dar sempre certo. A tristeza às vezes toma conta mesmo. Isso é normal na vida de qualquer um. Se você não consegue se abrir com quem está por perto, que tal procurar apoio dentro do local onde faz tratamento? Foi essa atitude que fez com que Carla*, 31 anos, melhorasse seu estado de saúde. “Só consegui tomar os remédios depois que a psicóloga do hospital me ajudou. Eu não conseguia aceitar que tinha o HIV. Se eu não aceitava, como é que iria tomar os remédios direito? Eu vomitava tudo. Agora, ficou bem mais fácil”, conta ela. Outra atitude que só faz bem é compartilhar suas angústias com quem está passando pelas mesmas coisas que você. “Encontro consolo para as horas difíceis com as pessoas do grupo de mulheres soropositivas que freqüento. Somos como uma família”, diz Aparecida. Para Valéria, os amigos que fez no grupo de convivência para pessoas soropositivas de uma Organização Não-Governamental (ONG) carioca substituíram com vantagem os amigos que perdeu desde que soube que era soropositiva, em 1989. “A maioria dos meus amigos tem o HIV. Com eles eu me divirto e não me sinto mais diferente do resto do mundo, como me sentia antes”, diz ela.

Participar de um grupo de convivência para pessoas com HIV/Aids, sem dúvida, é um ótimo meio de superar as dificuldades do tratamento. Ao compartilhar suas experiências e romper com o isolamento que o estigma da Aids impõe, muitas pessoas estão conseguindo se inserir novamente na sociedade, prontas para escrever uma nova história de vida, talvez agora mais carregada de sentido e de auto-estima.
*Nome fictício

Onde procurar ajudaRio de Janeiro-RJ
Pela Vidda – Tel (21) 2518 3993
Grupo Gestar – Tel (21) 2526 7313
RNP+- Sala de Conversa – Tel (21) 3899 5477São Paulo-SP
GIV-Grupo de Incentivo à Vida –
Tel (11) 5084 0255 ou 5084 6397Campinas-SP
Centro Corsini-Grupo Terapêutico –
Tel (19) 3256 6344Distrito Federal
Gapa-DF – Tel (61) 328 3668 /326 7000

Salvador-BA
Gapa Bahia – Tel (71) 328 4270

Fortaleza-CE
RNP-Fortaleza – Tel (85) 283 6724

Itajaí-SC
Farol- Núcleo de Atenção as Pessoas que Vivem Com HIV – Tel (47) 349 6237

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