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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.17

10/2009

Novas tecnologias de prevenção e o SUS

Maria Clara Giana * e Artur O. Kalichman**

Tecnologia é uma palavra de origemgrega e significa juntar a arte, a técnica ou ofício ao conhecimento para satisfazer as nossas necessidades. As necessidades são naturais, mas também construídas dentro de nossa cultura e da sociedade, emudama cada momento histórico. O mesmo se aplica às tecnologias. Que novas tecnologias são necessárias para aprimorarmos a prevenção das DST/Aids dentro do SUS?

As tecnologias podem ser caracterizadas como leves (processos) ou como duras (produtos). Ambas são necessárias nas práticas de saúde e quanto mais bemarticuladas,melhor seu impacto e eficiência. São exemplos de tecnologias leves ou de processo:
• Aquelas ligadas às atividades de Gestão e Gerência: definição e implementação de atividades programáticas, organização de serviços de saúde, mecanismos de descentralização, controle e participação social, articulação de ações intersetoriais;
• As relacionadas à organização dos processos de trabalho emsaúde, contratação e desenvolvimento de Recursos Humanos;
• Criação de estratégias educativas e de comunicação incorporando as artes, educação popular e estratégias de promoção de saúde, autocuidado e cidadania;
• Criação de protocolos de diagnóstico, acolhimento, aconselhamento e assistência integral, a partir dos conhecimentos técnicosmais atualizados e dosprincípios da humanização do cuidado no SUS.
São nos protocolos de cuidado que se organizamas formas pelas quais as tecnologias duras serão ofertadas à população que procura os serviços de saúde. São exemplos de tecnologias duras ou de produtos para prevenção das DST/Aids:
• Camisinha masculina e feminina;
• Profilaxia Pós-Exposição (uso dos ARV até 72 horas após a exposição aoHIV em pessoas soronegativas para tentar impedir a infecção). Esta tecnologia está disponível no SUS nos casos de violência sexual e acidentes de trabalho em profissionais de saúde. Sua indicação pode ser avaliada em outras situações caso a caso;
• Circuncisão. Esta tecnologia existe, mas está indicada apenas para países comepidemias generalizadas e somente para homens com prática exclusivamente heterossexual. No caso brasileiro não está indicada como política pública ampla, podendo ser avaliada em casos individuais;
• Vacina para o HIV. Esta tecnologia ainda está emfase de pesquisa e não está disponível;
• Profilaxia Pré-Exposição (Uso contínuo dos ARV para prevenir a infecção pelo HIV em pessoas que se expõem ao risco da infecção emrelações sexuais ou uso de drogas injetáveis). Esta tecnologia ainda está em fase de pesquisa e não está disponível;
•Microbicidas (substâncias que impediriam a infecção pelo HIV e outros germes emrelações sexuais). Esta tecnologia ainda está em fase de pesquisa e não está disponível.

Fica claro que precisamos das duas formas de tecnologia para aprimorar a prevenção às DST/Aids dentro do SUS. Quantomelhor for a nossa capacidade de lidar com os aspectos relacionados aos processos (as tecnologias leves), melhor poderemos utilizar os produtos de prevenção (tecnologias duras).

Em geral, tendemos a superestimar as novas tecnologias duras (o carromais moderno, o remédio mais novo, etc…), sendo que nemsempre elas trazemvantagens reais em relação às já existentes. Damesma forma, podemos darmenos importância às tecnologias leves (gestão e organização dos programas e serviços, atividades educativas efetivas, acolhimento e aconselhamento bem feitos etc…), mas é fundamental lembrar que as tecnologias duras precisam, emuito, das leves para chegar à população de forma adequada.

É um dever o SUS garantir o acesso de toda população às tecnologias de prevenção que tenham evidência de eficácia comprovada e sejam apropriadas à realidade da epidemia. As novas tecnologias de prevenção ainda em fase de estudos devem ser cuidadosamente avaliadas para que, a partir dos critérios citados, possamos definir seu lugar dentro das estratégias utilizadas no país para a prevenção das DST/Aids

*Coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo; **Coordenador-adjunto do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo
Texto elaborado a partir de apresentação no Seminário promovido pela ABIA “Respostas Frente a Aids no Brasil – Aprimorando o Debate II
– Prevenção das DST/AIDS: Novos Desafios”, realizado no Rio de Janeiro em Agosto de 2009.

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