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Saber Viver » Saber Viver n.23

08/2003

O assunto é… Namoro

Na busca pelo amor verdadeiro, pessoas soropositivas percorrem um longo caminho, vencendo medos e preconceitos

O desejo sexual e a vontade de compartilhar sua vida com uma pessoa especial não desaparecem com o fato de ser portador do HIV. A seção Namoro ou Amizade da Saber Viver está aí para provar o quanto as pessoas soropositivas estão em busca da sua felicidade no amor. Mas para muita gente não é nada fácil iniciar um relacionamento com todos os medos e preconceitos que existem em torno do tema Aids.

O primeiro passo a ser dado é superar seus próprios temores e dúvidas. Nessa hora é bom poder contar com seu médico ou outro profissional de saúde que o atenda. Segundo Débora Fontenelle, médica do Núcleo de Epidemiologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto no Rio de Janeiro, as mulheres soropositivas expressam com mais facilidade o receio de contaminar o outro. “Esta questão aparece com freqüência nos encontros mensais do grupo de mulheres HIV+ que acontecem no hospital”, diz Débora. Mas o principal problema apontado por seus pacientes, quando estão interessados em alguém, é como contar que é soropositivo. “Isso deixa em evidência o medo de ser rejeitado pelo parceiro”, diz a médica. “Para evitar esse estresse, algumas pessoas pensam ser mais fácil namorar quem também é soropositivo. Mas essas relações não dão certo necessariamente, pois um par de pessoas soroconcordantes (quando os dois são soropositivos) pode não ser concordante em outros pontos”, ressalta Débora.

Prefiro homens soropositivos
Quando Ana Lúcia, 45 anos, descobriu, em 96, que era soropositiva, não quis mais saber de namoro. “Eu tinha um paquera, mas resolvi me afastar dele quando eu soube que era soropositiva. Ele é forte, bonito e saudável e eu ficava com medo de transar com ele e a camisinha estourar. Ele me chamava para sair e eu nunca aceitava, até que um dia desistiu. Nunca mais o vi”. Ana ainda estava aprendendo a lidar com o HIV, se sentia deprimida, sem ânimo para sair e se divertir como antes. Um dia viu que isso tinha que mudar. “Resolvi começar a tocar minha vida”, diz ela. “Entrei para o grupo de convivência no hospital onde faço tratamento e lá conheci um rapaz soropositivo. Logo começamos a namorar. Fui muito feliz com ele. Nós conversávamos bastante, pois tínhamos os mesmos problemas. Infelizmente, há três anos, ele faleceu”. Hoje, Ana quer encontrar um novo amor. De suas experiências anteriores ficou uma certeza: “Prefiro namorar um homem soropositivo”, diz ela, e aponta seus motivos para isso: “Não tenho coragem de me relacionar com uma pessoa HIV negativa, mesmo usando camisinha. Tenho medo que ela estoure. Sei que numa relação com um soropositivo, se a camisinha estourar, existe o risco da recontaminação. Mas para mim seria mais fácil, me sentiria mais segura e despreocupada. Além disso, um homem soropositivo me entenderia melhor, teria mais paciência quando eu me sentir indisposta e não poderia me criticar, pois está na mesma situação que eu. Quando o namorado é soronegativo, existe ainda o risco da família do namorado interferir, me ofender, fazer a gente se separar. É uma relação muito complicada”. Bem, homens soropositivos, para conhecer a Ana, dêem uma olhadinha na seção Namoro ou Amizade no fim da revista, onde Ana deixou seu recado.

Venci meu próprio preconceito
Alice, 43 anos, ao contrário de Ana, prefere namorar homens soronegativos. “Acho que namorar soropositivo é mais complicado porque eu ia ter que cuidar de mim e dele”, diz ela. Há seis anos Alice namora Paulo, soronegativo, e estão muito felizes, planejando ter um filho. Mas nem sempre as coisas foram fáceis para Alice.”A visão que eu tenho da Aids hoje é muito diferente da que eu tinha antes”, diz ela. “Há alguns anos um rapaz queria muito me namorar. Ele era soronegativo e eu o achava tão limpo, tão legal, que ficava achando que ia sujar ele. Eu tinha nojo de mim”, confessa Alice. Mesmo sabendo que o HIV não se transmite através do beijo, só a idéia de beijá-lo já a deixava apavorada. “Depois que fizemos amor, fiquei muito mal e terminei o namoro, apesar dele ter me pedido muito para continuar”. Dois anos depois, vencido o preconceito que sentia por si mesma, Alice conheceu Paulo, e a história foi diferente. “Logo no nosso segundo encontro contei a ele que era soropositiva e que se ele não quisesse mais me namorar eu entenderia. Mas ele quis. Então pedi que, antes de começar namorar, fossemos conversar com minha médica e ele fez exame de sangue para saber se tinha o HIV”, conta Alice. “Hoje transamos normalmente usando preservativos, tanto o masculino quanto o feminino. Paulo fala que ele usaria o preservativo de qualquer maneira, sendo a mulher soropositiva ou não, porque nunca se sabe quem realmente é portador do HIV”.

Quero uma relação feliz
Já Eduardo (foto), 29 anos, não tem preferências quanto à soropositividade ou não de uma pessoa para namorar. “O que mais me importa é que seja sincera, amiga e companheira” diz ele. Desde que descobriu que era soropositivo, em 94, namorou alguns rapazes. Três deles eram sabidamente soropositivos, os outros não. “A atração que eu sinto por uma pessoa independe do fato dela ser portadora do HIV ou não”, diz Eduardo. Mas sempre que conta ao seu parceiro que é soropositivo, Eduardo sente que algo muda, principalmente na relação sexual. “Há uma mudança de atitude. A relação fica artificial e mecânica, com meu parceiro pensando sempre no que pode ou não pode fazer. Eu acabo não me sentindo à vontade. Pela minha experiência, a relação sexual flui melhor com quem é soropositivo”, diz ele. Mas isso não faz com que Eduardo limite seu campo amoroso aos que são portadores do HIV. “Minha esperança é encontrar uma pessoa com quem eu possa ter uma relação estável e feliz, não importa se soropositiva ou não”.

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