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Saber Viver » Saber Viver n.48

12/2011

O baque e o reequilíbro

Ainda hoje, receber o resultado positivo para o HIV pode tirar uma pessoa de órbita. Apesar de toda a informação disponível e do tratamento que torna a aids uma doença crônica, acreditem, muita gente ainda perde o chão e, num primeiro momento, só consegue pensar em morte. A diferença é que, en quanto nas décadas de 1980 e 1990 demorávamos anos para assimilar a notícia, hoje, apesar do enorme baque, com ajuda, em poucos meses volta-se à vida normal.

Outro dia um jovem que tinha acabado de se descobrir soropositivo me procurou, desesperado. Apesar de bem informado, ele não queria se abrir com a família e chegou a tentar suicídio. Também abandonou o último ano da faculdade de Direito e largou o emprego. “Parei de ir às aulas por me sentir um zumbi à espera do fim. A sensação é de que nunca mais serei plenamente feliz. É como se a minha vida estivesse manchada para sempre”, ele relatou. Para mim, que vivo há mais de 20 anos com o vírus HIV, passar por isso em pleno século 21 parece uma enorme perda de tempo – ainda que totalmente compreensível. Em 1989, quando recebi o meu resultado, não havia remédios. Aí sim congelávamos nossas vidas. Mas com a chegada da terapia antirretroviral, em 1997, tivemos de correr atrás dos projetos não realizados. Eu, que tinha largado uma faculdade aos 20 anos, a retomei aos 34, quando percebi que não morreria tão cedo – e que não queria continuar sem uma carreira. Agora, aos 40, concluí uma pós-graduação

Foi com esses argumentos, muita conversa e exemplos de outras pessoas, que o fiz enxergar o disparate de, atualmente, associar HIV e morte. Simplesmente não podemos cruzar os braços e esperar a vida passar. Não podemos parar de fazer planos, parar de sonhar… Características tão co- muns aos seres humanos. “Você tem de se preparar para uma vida normal. Vai ter de pensar em carreira, trabalho, relacionamentos, família e tudo o mais”, eu lhe disse.

A aids se tornou realmente uma doença crônica, ainda muito séria, mas totalmente tratável. E, sim, temos que lidar com os efeitos colaterais dos remédios. Mas aqueles que, como eu, os tomam corretamente podem viver com qualidade.

Hoje o rapaz voltou a sorrir. Depois de três meses, retomou a faculdade e está fazendo terapia. “Continuo com as mesmas ambições, mas agora há outros aspectos mais importantes. Quero ficar perto da minha família, ser menos exigente com as pessoas e mais carinhoso”. Bem vindo de volta à vida, garoto!

 

Por Valéria Piassa Polizzi, autora do livro Depois daquela viagem – diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com aids. É jornalista, tem 40 anos e é soropositiva há 24.

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