Circulador

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Circulador » Circulador n.04

12/2009

O ciclo da participação comunitária

Profissionais apostam na coletividade para melhoria da qualidade de vida

No PSF Jardim Cinco Marias, a parceria entre serviço de saúde e comunidade significa sustentabilidade e geração de renda. A agente comunitária de saúde Débora Vieira exibe os sabões produzidos a partir da reciclagem de óleo vegetal.

Enxergar oportunidades em locais não óbvios e apostar em ideias de pessoas comuns. Estas são as principais características da estratégia defendida por muitos governos para enfrentar situações desafiantes: a participação comunitária. No Rio, o envolvimento de moradores em ações que visam ao melhoramento de comunidades tem sido possível por meio da formação de redes que buscam qualidade de vida, cidadania, consciência política e compartilhamento de responsabilidades. “A ‘consciência coletiva’ prevalece quando existe espaço democrático para que todos opinem e atuem para decidir os destinos da comunidade”, afirma Oscarino Barreto Jr, médico da família e da comunidade da unidade de saúde de Nova Brasília, vinculada à Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro (SMSDC-RJ).

Comitê Gestor de Nova Brasília

Em Nova Brasília, no Complexo do Alemão, o esforço coletivo da comunidade transformou o lixão que cobria todo o muro em campo de futebol

A comunidade de Nova Brasília, no Complexo do Alemão, onde Oscarino atua desde junho de 2005, é um grande exemplo de parceria entre população e profissionais da saúde. Lá, um Comitê Gestor formado por representantes da comunidade, da associação de moradores e por profissionais atuantes na Estratégia Saúde da Família assessora e acompanha as ações de saúde locais, atuando diretamente na melhoria da qualidade de vida da população.

Uma das prioridades eleitas pelos moradores, discutida no Comitê, era solucionar o acúmulo de lixo nas ruas da comunidade – desastroso para o meio ambiente e para a saúde pública. “A Comlurb não consegue recolher o lixo de algumas áreas por conta de dificuldades de acesso. Depois de alguns problemas, como o alagamento de várias casas devido à enchente de janeiro de 2006, provocada pela obstrução das galerias de drenagem de água e esgoto pelo lixo, os moradores reconheceram a importância de encaminhar seus resíduos para reciclagem”, aponta Oscarino.

Oscarino Barreto Jr., médico da família e comunidade.

O Saúde na Escola também investe em participação Garantir a participação ativa da comunidade na área da saúde, educação e assistência social também é objetivo do Programa Saúde na Escola, da SMSDC-RJ. Em parceria com a Estratégia Saúde da Família, o Programa desenhou a formação de dez núcleos regionais intersetorias de referência do Programa Saúde na Escola e na Creche, divididos de acordo com as áreas programáticas do Rio de Janeiro.
Além de representantes das secretarias e de gestores, os núcleos são formados por profissionais da escola e creche e dos serviços de saúde. Juntos, eles promovem em suas comunidades ações relacionadas à temática de saúde e educação.
“Nós queríamos uma articulação central, regional e local, para assim fortalecer o programa e estabelecer o envolvimento de todas as pessoas relacionadas a ele. Nossa proposta não é fazer um programa para a escola e para a creche, mas com a escola e com a creche”, sustenta Carlos Silva, coordenador do Programa Saúde da Escola da SMSDC-RJ.

A noção de territorialidade
Para chegar a este nível de articulação, o Programa Saúde na Escola apostou forte na noção de territorialidade – base da participação comunitária e da promoção da saúde. “É preciso entender que o território tem uma dinâmica própria”, afirma Carlos. “Com as visitas aos núcleos, percebemos que cada área tem o seu tempo, cada espaço tem a sua necessidade. Os processos são diferentes”, completa.
O coordenador da Estratégia Saúde da Família no município do Rio de Janeiro, Gert Wimmer, também aposta na territorialidade: “Trata-se de ressignificar o espaço do território favelado enquanto espaço de produção de cultura, de subjetividade, de relações legítimas, intensas e diferenciadas”. Ele explica que a gestão está reforçando a atuação dos agentes comunitários de saúde como articuladores do território. “Acreditamos no agente comunitário como alguém apto à construção de projetos, como um canal de permeabilidade de todas as políticas públicas de uma prefeitura para o território”, aponta Wimmer.

Óleo em sabão
Um dos produtos mais comuns na cozinha, o óleo vegetal é matéria prima para a consciência ambiental no PSF Jardim Cinco Marias, em Pedra de Guaratiba. Quando lançado diretamente no ralo, na pia ou no lixo, o ingrediente danifica o encanamento e polui córregos, rios e o solo. Acumulado nestas superfícies, o óleo impede a passagem de oxigênio e luz e impossibilita a existência de vida. Na unidade de saúde, o destino do produto é outro: transformar-se em sabão.
Além de colaborar para a saúde do meio ambiente, a iniciativa estabelece parceria – a primeira vista nada convencional – entre comunidade e serviço de saúde. No espaço do PSF são realizadas oficinas para a fabricação de sabão a partir da reciclagem de óleo de cozinha. A ideia partiu da agente comunitária de saúde Débora Vieira, que relembra uma das atribuições de sua profissão: “Promover educação em saúde e mobilização comunitária, visando a uma melhor qualidade de vida mediante ações de saneamento e melhorias do meio ambiente”. Para Débora, “a partir dessa atribuição, a reciclagem de óleo vegetal tem um propósito tríplice: gerar renda, preservar o ambiente e melhorar a qualidade de vida”. Depois de dois anos, a iniciativa tornou-se autossustentável. “Muitas pessoas que já participaram das oficinas não têm mais tempo para continuar a atividade e compram o sabão produzido. Certa vez, nosso produto foi a única opção para uma família com escabiose, doença parasitária popularmente conhecida como sarna: não provocou alergia em ninguém e ajudou a resolver o problema”, orgulha-se Débora.

Trabalho coletivo no PSF Jardim Cinco Marias, em Pedra de Guaratiba.

Compartilhe