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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.12

04/2008

O médico Mauro Schechter comenta VIII Johns Hopkins e insiste na crítica a PN-DST/Aids

 

O médico infectologista Mauro Schechter é um dos organizadores da Conferência Brasil Johns Hopkins University em HIV/Aids, que acontece anualmente no Rio de Janeiro. Como pesquisador responsável pelo Projeto Praça Onze, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desde 1995 ele está envolvido em estudos que visam o desenvolvimento de novos caminhos no tratamento da aids e de outras doenças infecciosas. Schechter é professor da UFRJ e de duas universidades nos Estados Unidos: a de Johns Hopkins e a de Pittsburgh. Trabalha, ainda, como membro do Comitê Científico da International Aids Vaccine Initiative (IAVI), dos Painéis de Consenso para Terapia Anti-Retroviral do Ministério da Saúde, da Organização Mundial da Saúde e, também, da International Aids Society- USA. Na semana seguinte à oitava edição da Johns Hopkins carioca, ele abriu um espaço na agenda para receber a Saber Viver Profissional. A entrevista realizou-se no consultório do Projeto Praça Onze, no centro da cidade do Rio de Janeiro.

SV Prof: Como o sr. avalia a qualidade de discussão científica na VIII Conferência Brasil Johns Hopkins University em HIV/Aids?
Mauro Schechter: A Conferência é importante do ponto de vista da informação, mas não é um evento científico. É um evento didático, não é um congresso. Lá não se apresentam trabalhos científicos. É um excelente curso de atualização dado por professores que trabalham na universidade que tem o melhor serviço de aids dos Estados Unidos. Querer que o evento seja mais do que isso é querer que ele seja o que não se propõe a ser.

Do ponto de vista técnicocientífico, quais são os eventos sobre HIV/aids realmente importantes?
Há eventos específicos, encontros pequenos como, por exemplo, um workshop anual sobre resistência aos anti-retrovirais. Mas, entre os grandes, destaco a Retroconferência [Conference on Retrovirus and Opportunistic Infections], que acontece todo ano, por volta de fevereiro, nos Estados Unidos. E, nos anos ímpares, a conferência mundial da International Aids Society [IAS Conference on HIV Pathogenesis Treatment and Prevention]. A conferência que a IAS promove nos anos pares é importante principalmente como divulgação da causa [A XVIII International Aids Conference está marcada para agosto, na Cidade do México].

A realidade é que a maioria dos profissionais de saúde brasileiros não tem acesso imediato aos estudos apresentados nesses congressos. Ou porque não pode ir até lá, ou porque não lêinglês. Diante disso, muitos se atualizam quando os professores da Johns Hopkins vêm ao Rio de Janeiro.
Não há dúvida de que esse evento tem enorme importância como meio de atualização.

O sr. faz parte da comissão organizadora e científica da Conferência, desde a primeira. Como essa história começou?
Sou professor da Hopkins. Há 17 anos eles promovem um curso para médicos, enfermeiros e curiosos. Acontece, anualmente, por volta de maio, em Baltimore. Há dez anos, por iniciativa de colegas da Fiocruz, trouxemos esse curso para o Rio. Inicialmente, eram os mesmos professores lá e aqui, a única diferença era que, aqui, eu falava. Lá eu falei apenas algumas vezes. Através dos anos, o quadro foi mudando. Do time inicial, apenas três conferencistas vieram este ano: Joel Gallant, que também é um dos organizadores, Jean Anderson e John Bartlett. Mas eles não vêm falar das últimas novidades. Vêm dar aulas de atualização no manejo prático do HIV.

Os brasileiros pesquisam pouco?

Lamentavelmente, no Brasil, quando você vira professor universitário, o lugar é seu, trabalhe você ou não. Enquanto o professor viver, não haverá outro ocupando o lugar dele. Nos Estados Unidos, não é assim. Na Johns Hopkins, como em todas as universidades americanas, não se ganha salário. O professor ganha o direito de ser professor daquela universidade, devendo obter recursos para pagar o seu salário e o das pessoas que trabalham com ele, competindo por financiamento aprojetos de pesquisa das agências de fomento, como o NIH [National Institutes of Health]. Ele conseguirá recursos para pagar o seu salário e ser mantido na universidade, se tiver produção científica adequada. No Brasil, tanto faz se o professor publica ou não.

A falta de pesquisas sobre a epidemia brasileira é uma das críticas que o sr. fez na sua conferência. No que o maior conhecimento de dados sobre a evolução do tratamento do HIV no país ajudaria um médico na condução de um tratamento específico?
Conhecer esses dados levaria o médico a saber mais sobre Medicina. Mas o ponto da minha fala não foi o tratamento em si. A minha aula não foi voltada para a prática clínica, mas para discutir a sustentabilidade, em longo prazo, do programa brasileiro de acesso universal aos anti-retrovirais. Minha intenção é mostrar a contradição entre um programa de saúde pública e o fornecimento de um tratamento individualizado, em um contexto em que é crescente o número de pacientes em tratamento e de remédios disponíveis, em que os pacientes têm uma expectativa de vida normal, e em que comorbidades, algumas causadas pelos próprios remédios ou associadas com o envelhecimento, são comuns. Lamentavelmente, muitos confundem o fato de o Brasil ser um modelo político [quanto ao tratamento ser um direito universal] com a qualidade técnica do programa. As autoridades e todos os que se importam com HIV/AIDS precisam entender que o modelo atual não é sustentável.

Por causa dos preços dos remédios?
Não é só isso. Se o Bill Gates arrumar uma namorada brasileira e quiser dar todos os remédios de graça para o Brasil, mesmo assim o programa não se sustenta em longo prazo. Muitas coisas precisam ser mudadas, incluindo o modelo de atendimento a pacientes, que não pode ser centrado no médico nem individualizado, se o objetivo é atender grande número de pessoas.

Como fazem em outros países?
Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, um profissional, chamado de “Physician assistant”, tira a pressão do paciente, olha os exames, confere se está tudo dentro da faixa da normalidade e diz: “Doutor, está tudo nos conformes”. Se sair dos conformes, o médico interfere. Isto permite, nestes locais, que um médico atenda literalmente dezenas de pacientes em uma tarde e tenha tempo para fazer pesquisa. O atendimento médico, alopático, deveria ser simples na maioria das vezes.

Como assim?
A medicina alopática é quase que reflexologista: se o paciente está com um determinado problema, o médico realiza o procedimento indicado para o caso. O difícil não é tratar, é saber por que tratar de uma forma ou de outra.

FRASES DE MAURO SCHECHTER DURANTE SUA PALESTRA NA VIII CONFERÊNCIA BRASIL JOHNS HOPKINS UNIVERSITY EM HIV/AIDS

“Temos que avaliar se o Programa tem condições de prosseguir.”

“Devemos redefinir as estratégias da saúde pública.”

“O número de pacientes não pára de crescer”

“As complicações do tratamento não param de aumentar”

“Será que a gente precisa comprar todos os inibidores de protease, por exemplo?”

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