Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

O outro lado da moeda

Teresinha C R Pinto
biomédica, pedagoga, presidente da APTA
e consultora da PN DST/AIDS/MEC

Penso na minha tarefa: escrever aos que, do lado de lá, nos ajudam a transformar a vida das crianças HIV+ em vidas cidadãs.
Como Profissional da Educação, chamo de lado de lá o que me é desconhecido: não vivo, portanto não conheço, o dia a dia dos atendimentos de emergência, dos choros intermitentes, da angústia de colocar uma agulha num bracinho já quase sem veia, no olhar de um adulto que espera que o seu olhar lhe dê a certeza que ninguém nesse mundo pode dar! Quando me coloco a tarefa de escrever a vocês – mulheres e homens profissionais dos nossos serviços de saúde – imagino que vocês tenham imagens e pré-conceitos criados a partir da experiência que tiveram de passar na escola: experiências prazerosas, ruins, desastrosas enfim, experiências diversas que constroem a visão de hoje do que somos nós, os educadores e educadoras e as nossas escolas.
Assim, convido vocês a fechar os olhos e imaginar as cenas que descrevo agora:

Cena 1
Atendo ao telefone. É Maria, diretora da Escola de Educação Infantil X da cidade de São Paulo. Ela me diz que a mãe de sua aluna Yara, de 5 anos, acaba de lhe contar que é soropositiva e que a menina também é. Pede ajuda para lidar com a questão porque nunca passou por essa situação e não quer que mãe e filha se sintam discriminadas.

Em uma reunião na escola, oriento, tiro dúvidas, friso a importância da confidencialidade do diagnóstico. Noto no quadro da sala uma frase de Paulo Freire dizendo que escola é lugar de gente feliz! Faço seis encontros de 8 horas com todos os educadores e educadoras da escola sobre HIV, DST e drogas. Ninguém fica sabendo que há uma aluna com HIV.

Oriento a diretora a falar com o (a) médico (a) que acompanha a criança a fim de que possam estabelecer contato e parceria.
Uma semana depois, a mesma diretora me liga estarrecida: quando telefonou para o serviço de saúde, foi atendida pela assistente do médico. Quando se identificou, ouviu de imediato: “Olha, não pega, não tem perigo não adianta querer transferir a criança, aqui a gente é muito ocupado para ficar agüentando essa falta de informação de vocês de escola…”.

Dias depois, com a minha intermediação, serviço e escola passam a se entender e a estabelecer uma admiração mútua. Yara precisou de um aparelho de oxigênio portátil para poder freqüentar a aula. A decisão de que seria melhor estar na escola que em casa veio da diretora, o aluguel do aparelho é pago pela APTA, e o transporte da garota, pela escola.

Yara está feliz. Deixa o aparelho na escola ao ir embora (tem outro em casa fornecido pelo serviço). Ao sair, beija o tubo de oxigênio e nós choramos a cada lembrança dessa cena…

Cena 2:
Paulo é uma pessoa soropositiva. Começa a namorar Ana, que não tem o vírus. A coordenadora da escola fica preocupada e liga para o serviço que atende Paulo, querendo uma orientação. Ouve que precisa avisar aos pais de Ana, pois ela é menor. Insegura, a coordenadora liga para mim. Aconselho ela a falar com Paulo. Ela faz isso e ouve dele a certeza que usará preservativo na hora do sexo.

Ela torna a me ligar e pergunta se pode confiar nele. Tenho vontade de lhe perguntar se ele pode confiar nela, mas, ao invés disso, marco um encontro onde conversamos longamente sobre o papel de cada uma de nós nesse caso. Chegamos à conclusão de que não podemos viver a vida de Ana e de Paulo por eles.

Como medir o grau de angústia e tensão que nossas profissões carregam? Durante anos, e provavelmente ainda será assim ainda por muitos mais, aprendemos a pensar em compartimentos: saúde, educação, finanças e assim por diante. De repente, chega uma enfermidade que nos mostra nossa impotência e nossa força. Ao tempo que nos exaure, nos desafia e nos estimula a fazer diferente, compartilhando e resignificando nossas profissões. Aqui e ali, experiências animadoras e apaixonantes da parceria entre serviço e escola, mas ainda é aqui e ali.

Proponho, neste breve artigo, que façamos um pacto de estabelecer de fato uma parceria que possa servir de orientação de conduta em todo o país: ao saber que uma aluna ou aluno é soropositivo, o educador deve entrar em contato com o serviço que a (o) atende para que um trabalho em conjunto se estabeleça, sem cobranças e pré-conceitos, mas cujo centro é o bem estar da criança. Só o educador que convive diariamente com essa criança ou adolescente, pode dizer ao (à) médico(a) detalhes do desenvolvimento emocional de seus alunos. Porém, somente sabendo de sua condição sorológica, o profissional de educação poderá identificar os distúrbios de aprendizagem causados pelo HIV para que o profissional de saúde intervenha a tempo.

Os estudos mostram que as crianças que estudam têm 60% menos internações que as que não estudam; isso certamente deve ter alguma importância. Isso deve servir para o início de um pacto de confiança onde os dois lados da moeda compreendam que não há moeda de um lado só.

Viva a vida, que é fruta rara!

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