Circulador

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Circulador » Circulador n.01

11/2004

Sábado tem programa no posto

Jéssica, Vanessa, Jaqueline, Ticiane e Édio fazem parte da equipe do Adolescentro. Todos os sábados eles estão no PS Hélio Smith, na Maré.

Todos os sábados, os postos de saúde Helio Smith e Gustavo Capanema, no complexo da Maré, abrem suas portas para receber um animado grupo de adolescente, que cresce a cada semana. O responsável por essa façanha , uma parceria do Prosad (Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria Municipal de Saúde) com a Ong Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré)

O Adolescentro nasceu da necessidade de envolver jovens em um projeto de promoção de saúde e vem apostando no protagonismo juvenil para isso. A idéia de reunir profissionais de diferentes áreas e adolescentes para discutir temas e planejar ações capazes de atrair outros adolescentes para o posto de saúde tem dado certo. Aos sábados, os postos de saúde que fazem parte do projeto estão sempre repletos de meninos e meninas entre 12 e 24 anos, que nem sempre estão ali em busca de um atendimento de saúde. “Muitas vezes, o jovem vem ao posto para encontrar amigos, jogar bola ou arrumar namorada. Alguns vêm pegar camisinha ou anticoncepcional. Chegando aqui, são convidados a participar dos grupos e oficinas que são realizados aos sábados. Caso alguma questão mais importante seja identificada, os próprios jovens do projeto o encaminham para o médico, psicólogo ou assistente social do Adolescentro. Isso se dá de uma maneira muito natural, pois são todos jovens, falam a mesma língua e vivem coisas parecidas”, revela Dilma Medeiros, psicóloga e coordenadora do grupo de jovens integrantes do projeto.

De jovem para jovem
Os jovens que fazem parte do Adolescentro são essenciais para o sucesso dessa idéia. Além de recepcionarem os adolescentes que chegam aos postos aos sábados, eles trabalham como facilitadores dos grupos de discussão. Com a coordenação de um profissional da equipe, nesses encontros são debatidos temas que os jovens pouco relacionam à saúde, mas que dizem respeito a sua vida cotidiana, como namoro, sexo, sonhos, responsabilidade, violência, participação e diversão. Dessa maneira, o adolescente é conquistado por uma noção integral de saúde e cidadania. “Fazer parte de um projeto como esse contribui para que os jovens reconheçam e acreditem no seu potencial”, ressalta Dilma. “Muitos voltam a freqüentar a escola e planejam entrar para a faculdade e exercer uma profissão”.
Dentre os grupos que se reúnem no Adolescentro, o Projeto Homens Jovens e Saú-de se destaca por ser uma iniciativa inovadora. A reunião de rapazes para a discussão de temas como cuidados com a saúde, paternidade e responsabilidade tem contribuído para que eles vençam sua resistência em freqüentar o posto de saúde. Junior, 20 anos, é o facilitador do grupo de homens jovens do PS Gustavo Capanema. Ele revela que muitos deles chegam atraídos pelo futebol que é jogado no local aos sábados e aproveitam para assistir uma palestra ou participar de uma oficina e acabam interessados pelo projeto. “Muitos jovens têm problemas e não têm com quem falar. No grupo, eu proponho assuntos e questões que não são discutidas numa roda de amigos e o resultado é incrível, a gente vê na hora. Aqui você pode se abrir porque existe muito respeito”, diz Júnior.
Os jovens do projeto também realizam oficinas, principalmente sobre saúde e sexualidade, em escolas, igrejas e ruas da Maré. Suas ações contagiam outros jovens da comunidade, que os vêem como referência e os procuram para tirar dúvidas e conhecer as atividades do Adolescentro.

Tempo para formar, planejar, implementar e avaliar 
A formação da equipe do Adolescentro, que desde o início é composta por profissionais e adolescentes, envolve constantes reuniões, palestras e oficinas. A psicóloga Cynthia Ozon Boghossian, coordenadora executiva do projeto, acreditaque a oportunidade de ter jovens e adultos reunidos para planejar, discutir e avaliar as ações implementadas torna o trabalho extremamente interessante e proveitoso para todos. “Nesses encontros, o profissional tem a chance de refletir sobre seus conceitos e entender o que é e o que não é possível ser feito. O jovem, por sua vez, passa a acreditar no seu potencial e deixa de ver o profissional como um ser inatingível”, diz ela.

O trabalho multidisciplinar 
Não privilegiar sua área de atuação e ter disposição para articular com profissionais de outras especialidades são as regras básicas
do trabalho no Adolescentro. “É primordial que o psicólogo possa perceber a importância do trabalho do dentista para a auto-estima do paciente, assim como o médico deve reconhecer o valor do apoio psicológico para que o tratamento prescrito tenha sucesso”, exemplifica Cynthia.

“Grupo jovem tem em qualquer esquina, mas aqui é diferente”
Jovens da Maré dizem o que acham da experiência de integrar o projeto Adolescentro

Eu aprendo lições de vida aqui. Todos os profissionais se interessam pelo que está acontecendo com a gente”. Édio, 17 anos

“Acho importante não ficar só criticando o lugar que a gente a mora, mas tentar fazer alguma coisa para melhorar”. Junior, 20 anos

“Tudo que eu aprendo aqui, passo para os meus amigos da escola ou da comunidade, que sempre me procuram para tirar alguma dúvida sobre DSTs, gravidez e o uso da camisinha. É bom perceber que nosso trabalho não é em vão”. Vanessa, 18 anos

“Nas discussões no grupo de mulheres, aprendemos a nos expressar melhor e a ter mais confiança em nós mesmas. A experiência de uma acrescenta a da outra”. Bárbara, 18 anos

“Aqui tem coisas que não tem nos outros postos, como o Adolecine. Nós assistimos a um filme, comemos pipoca e depois debatemos o assunto tratado”. Jéssica, 16 anos

Eu aposto!
“Acredito no protagonismo juvenil. Não há ninguém melhor para orientar outro jovem do que um jovem bem orientado. Seu testemunho positivo de vida vai influenciar muito mais outros jovens do que eu, como psicóloga, seria capaz”.
Cynthia Ozon, coordenadora executiva do Adolescentro

Aqui ninguém é santo
Peça de teatro coloca a violência em questão

A peça de teatro “Aqui ninguém é santo”, com jovens do Adolescentro, foi apresentada em diversos locais dentro e fora da Maré. Realizada a partir da experiência dos próprios adolescentes, abordava temas como a violência. Daniele, uma das integrantes do elenco, se orgulha da peça ter quebrado a barreia do tráfico e ter sido apresentada em toda a Maré. “O Adolescentro mostra ao jovem que ele pode quebrar o mito de que jovem de comunidade carente não tem futuro. Nós somos a prova disso”, diz ela, que faz o pré-vestibular do Ceasm e pretende cursar enfermagem. Segundo a psicóloga Cynthia Ozon, é importante que os jovens questionem a violência para evitar sua banalização.

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