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Saber Viver » Saber Viver n.03

03/2000

O que vai acontecer?

Mauro Schechter (foto), um dos maiores pesquisadores em Aids do mundo, responde às perguntas dos leitores

Até pouco tempo atrás, descobrir-se portador do vírus da Aids era como receber uma sentença de morte. A única pergunta que se podia fazer era: ‘quanto tempo de vida eu tenho?’. A resposta dos médicos era mais perturbadora ainda: ‘não sei’. Hoje, quase 20 anos depois de serem diagnosticados os primeiros casos de Aids no mundo, está tudo bem diferente. Apesar de não sabermos quanto tempo de vida temos, o que aliás ninguém sabe, já podemos pensar em futuro. Os novos medicamentos, no mercado desde 1996, deram uma outra expectativa de vida às pessoas infectadas pelo HIV. Agora quem tem o vírus não quer só viver mais, quer também viver melhor. Novas questões surgiram e com certeza outras surgirão. Escolhemos algumas perguntas de nossos leitores para que Dr. Mauro Schechter, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, respondesse. Tivemos o cuidado de selecionar questões que afligem a maioria das pessoas que nos escreveram. Caso haja alguma outra questão que você queira saber, escreva para a Saber Viver.

A cura da Aids está próxima? Li que o vírus HIV se esconde no sistema linfático. Existe alguma maneira de eliminá-lo totalmente?
Até recentemente não existia nenhuma base teórica, fora especulações, para alcançar-se a cura da Aids. No momento já existe uma base teórica para isto. Várias pesquisas estão sendo desenvolvidas neste sentido. Um trabalho da Universidade Johns Hopkins, liderado por Roberto Siliciano, mostrou que o principal reservatório, a longo prazo, do HIV são células de vida muita longa, chamadas CD4 de memória. Ou seja, nestas células o vírus HIV se esconde, evitando sua total eliminação do organismo da pessoa infectada. As células CD4 de memória demoram décadas até se extinguirem. Elas são células não ativas, que não produzem vírus e por isto não temos como atacá-las. Atualmente existem alguns estudos em andamento, cujo o principal deles é o coordenado pelo Dr. Antony Faucci, tentando ativar estas células para que elas produzam vírus e então seja possível atacá-las com as drogas anti-Aids. Hoje, portanto, ao menos teoricamente, já se pode pensar em cura da Aids.

Gostaria de saber se existe a possibilidade de, nos próximos anos, os efeitos colaterais dos remédios anti-Aids acabarem. Sofro muito com a diarréia provocada pelo Viracept.
A maior preocupação dos laboratórios é fazer medicamentos mais fáceis de serem tomados, diminuindo o número de tomadas diárias e tornando-os mais toleráveis, ou seja com menos efeitos colaterais. Esta é a tendência dos anti-retrovirais mais recentes.

Eu queria muito ter um filho. Será que as mulheres soropositivas nunca vão poder engravidar sem culpa e sem medo?
Esta é a área, em termos práticos, em que mais se avançou nos últimos anos. Em primeiro lugar, deve-se optar por uma inseminação artificial, porque ninguém pode garantir que numa relação sexual não vai haver transmissão do HIV. Quanto às chances de contaminação de mãe para filho, o que se sabe hoje é que esta probabilidade, numa situação ideal, é muito baixa, de 1% ou até menos. Situação ideal significa carga viral baixa, CD4 alto, bom estado clínico, uso da medicação, tratamento e acompanhamento médicos adequados. Enfim, a mulher deve se cercar de todos os cuidados possíveis. Mas ninguém pode dizer que é 100% seguro. É uma decisão de foro íntimo. A amamentação, de qualquer forma, não é recomendada.

No caso do homem soropositivo que quer ter filhos, existe na Itália um grupo que colhe o esperma para “limpá-lo” do vírus e fazer inseminação artificial. A última notícia que eu tive deste grupo foi que tinham sido feitas mais de 200 inseminações bem sucedidas e nenhuma mulher havia se contaminado.

Já criei resistência a vários medicamentos. Tenho medo de ficar sem alternativa de tratamento contra a Aids. Qual a perspectiva para mim e para outras pessoas que vivem esta situação, nos próximos anos?
Essa é outra área de pesquisa intensa: conseguir encontrar medicamentos que funcionem contra vírus resistentes aos medicamentos atuais. Existem perspectivas, por exemplo, entre os inibidores da protease. Um remédio que sairá em 2000, cuja sigla é ABT378, atua, em princípio, contra os vírus resistentes aos inibidores da protease já existentes. Um outro medicamento vai entrar este ano em última fase de pesquisa. Ele funciona, ao menos aparentemente, contra os vírus resistentes aos remédios da classe dele (Efavirenz, Viramune e Delavirdina). As perspectivas portanto são boas e novas alternativas de tratamento devem surgir ao longo dos próximos anos.

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