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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.08

03/2007

O tratamento da depressão em pessoas vivendo com HIV/aids

Segundo especialistas, os transtornos depressivos são a maioria dos distúrbios psíquicos entre pessoas com HIV/aids. Embora seja difícil precisar a proporção exata, estudos indicam que a porcentagem de depressão em soropositivos pode variar de 4% a 40%.

Sintomas de depressão assim como de ansiedade podem ser reações comuns em pessoas que sofrem de alguma doença, inclusive a aids. Fatores como o sentimento de discriminação, a perda da auto-estima, a falta de apoio familiar e social, o medo da morte e mesmo os efeitos colaterais dos medicamentos podem desencadear um processo depressivo muito intenso em alguns pacientes. O diagnóstico precoce da depressão é de extrema importância para manter a adesão ao tratamento ARV e, conseqüentemente, para um prognóstico melhor da infecção pelo HIV e para a melhora da qualidade de vida do soropositivo.

“A depressão é uma manifestação psíquica que requer muita atenção do profissional porque, de alguma maneira, o sintoma depressivo vai aparecer. O que varia é o grau de intensidade, a forma e a continuidade da manifestação em cada pessoa”, diz Gisela Cardoso, psicóloga do Programa de Aids do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ), no Rio de Janeiro. Segundo ela, é necessário que os profissionais de saúde tenham mais sensibilidade para diagnosticar a depressão: “o atendimento, muitas vezes, fica focado no tratamento com os ARV. Saber se tomou o remédio, como tomou e o que sentiu é absolutamente fundamental. Entretanto, a depressão pode ser um fator que dificulta a adesão do paciente ao tratamento. Logo, ela precisa ser identificada o quanto antes”, diz a psicóloga.

Para isso, o HUCFF – que possui um Programa de Aids há 20 anos – conta com uma equipe de saúde mental integrada à rotina clínica e assistencial. Ao longo desses anos, a atuação em saúde mental foi se adaptando às diferentes fases da epidemia. “Antes do surgimento dos anti-retrovirais (ARV), não tínhamos opção de tratamento. Era muito angustiante”, conta a psicóloga. Com o descobrimento dos ARV, a aids passou a ser considerada uma doença crônica, com o aumento da sobrevida das pessoas. Porém, para se beneficiar desse tratamento, os soropositivos precisam aceitar a doença e o tratamento. “Este é o grande desafio. Muitos pacientes não conseguem aceitar que estão infectados e que precisam de tratamento porque possuem questões de ordem psicológica e social”, explica a psicóloga do HUCFF. “Não adianta você ter o melhor tratamento, o melhor serviço de saúde, assistência psicológica, se você mesmo não se vê como sujeito que quer ou que pode se beneficiar daquilo”, completa Gisela. Geralmente, segundo a psicóloga, as pessoas que têm mais dificuldade de aceitar a doença reagem ao tratamento com sentimento de tristeza, desânimo, desinteresse, culpa e desvalorização: “Uma postura negativa diante da vida pode sinalizar que este paciente precisa de um acompanhamento psicológico”.

CASOS DE DEPRESSÃO EM PESSOAS VIVENDO COM HIV/AIDS

“A descoberta do HIV implica uma reavaliação de vida. O tratamento é rigoroso. A adesão e a disciplina para tomar a medicação têm a ver com o desejo de viver”, diz a médica infectologista Gabriela Waghabi, do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids (CRT) da Secretária Estadual de Saúde de São Paulo.

A infectologista afirma que a incidência de depressão é muito grande entre os pacientes soropositivos. Durante a consulta clínica, a médica faz questão de avaliar a existência de distúrbios de humor prévios e aspectos psicossociais na história dos pacientes. A infectologista lembra ainda que, uma vez iniciado o tratamento ARV, é preciso também estar atento ao efeito de alguns medicamentos na saúde mental do paciente. O efavirenz (Stocrin), por exemplo, traz efeitos colaterais no Sistema Nervoso Central, “um gatilho que desencadeia insônia, sonolência, tontura, sonhos, pesadelos vívidos e alucinações. São reações que se assemelham aos sintomas depressivos, mas podem ser evitadas. Nestes casos, a troca de medicamento não está no Consenso do Ministério da Saúde, mas é uma questão que deve ser avaliada com bom senso”, opina a médica.

CRITÉRIO PARA A PSIQUIATRIA DO CRT

Casos de depressão no CRT são encaminhados para consulta psiquiátrica. Geralmente, são pacientes que apresentam, por pelo menos duas semanas seguidas, um quadro de transtornos mentais, como anedonia (falta de prazer), abulia (falta de vontade), angústia, tristeza, acompanhados ou não de alterações de sono e fome, podendo haver ideação de morte e tendências suicidas. A psiquiatra do Serviço Ambulatorial do CRT, Soraia Teijeiro Fraga, diz que, de um modo geral, “acredita-se haver uma predisposição genética na população em geral para transtornos depressivos. Contudo, nos pacientes soropositivos somam-se fatores psicossociais como o medo da morte, de doenças oportunistas e de efeitos colaterais das medicações, o preconceito, a rejeição e problemas relacionados à sexualidade”.

OS BENEFÍCIOS DO TRATAMENTO COM ANTIDEPRESSIVOS E A PSICOTERAPIA

Quando a psicoterapia não é suficiente para melhorar o estado depressivo, soma-se ao tratamento a farmacoterapia, com medicação psicotrópica. “Os antidepressivos agem regulando a função de neurotransmissores na fenda sináptica. Ou seja, os medicamentos atuam na regulação da função no cérebro de substâncias como a serotonina (relacionada a prazer e interesse), a noradrenalina (concentração e motivação) e a dopamina (motivação e prazer)”, explica a psiquiatra do CRT.

Também são usados por alguns terapeutas medicamentos como os estabilizadores de humor e benzodiazepínicos. Entretanto, deve-se ter muito cuidado com a prescrição desses medicamentos por causa da interação medicamentosa com os ARV. “Os benzodiazepínicos devem ser usados por um período curto, para sintomas ansiosos ou insônia, como coadjuvante do antidepressivo. Esses medicamentos, por exemplo, têm aumentada sua meia-vida no organismo quando tomados com inibidores de protease, podendo trazer sedação excessiva de pacientes. Alguns inibidores de protease podem também potencializar o efeito dos antidepressivos tricíclicos e da fluoxetina”, alerta Soraia Teijeiro Fraga.

Segundo a médica, “deve-se buscar o medicamento que atue diretamente nos sintomas do paciente, com bom efeito terapêutico e menos efeitos colaterais”.

Segundo a médica psiquiatra, iniciada a farmacoterapia, espera-se uma melhora, ora discreta, em duas ou três semanas. O acompanhamento será imprescindível para avaliar o quadro do paciente. “A própria pessoa descreve que se sente mais disposta, acorda com menos dificuldade, já tem vontade de fazer as coisas e de se alimentar melhor”, descreve a médica. Segundo ela, há casos em que a dosagem pode ser diminuída aos poucos, até a suspensão do medicamento. Porém, dependendo do histórico e da resposta do paciente, em alguns casos, os antidepressivos precisam ser tomados pelo resto da vida. A psiquiatra explica que, para evitar um risco de recaída com a retirada do medicamento, é necessário estabelecer um período de manutenção, no qual o paciente permanece com a medicação e com o apoio de uma equipe multidisciplinar por um período que pode variar dependendo do caso.

A IMPORTÂNCIA DO ATENDIMENTO MULTIDISCIPLINAR

No caso da depressão e de outras alterações de ordem psíquica em pacientes com HIV/aids, fica claro que a atuação de uma equipe multidisciplinar, formada por várias especialidades, pode beneficiar sobremaneira o tratamento. O perfil diferenciado do profissional de saúde também é um fator importante. Ter “certa sensibilidade para perceber outras questões na vida do paciente”, como definiu a psicóloga do Programa de Aids do HUCFF, Gisela Cardoso, valorizando aspectos subjetivos e sociais, pode trazer ganhos importantes para o tratamento.

“Fazer um gancho da pessoa com a vida, estimulando-a a continuar com a sua rotina e mostrando os vários caminhos que ela tem pela frente, é o grande desafio de todos os profissionais de saúde que trabalham com pessoas vivendo com HIV/aids”, conclui Gisela.

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