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Saber Viver » Saber Viver n.07

11/2000

ONGs

Além de prestar auxílio aos soropositivos, nestes lugares é possível encontrar pessoas que já passaram ou estão passando por problemas parecidos com os seus

Qualquer um, hoje em dia, já deve ter ouvido falar em Organização Não Governamental, as chamadas ONGs. Esses lugares, na maioria das vezes, prestam auxílio a pessoas que possuem algum problema específico. No Brasil existem várias ONGs que trabalham com soropositivos. Além de ter acesso a serviços gratuitos, através delas é possível conviver com outras pessoas soropositivas que, provavelmente, têm histórias de vida muito parecidas com as suas. Mas, infelizmente, o medo de falar sobre Aids, ou a crença de que para freqüentar uma ONG é necessário participar de passeata ou aparecer em jornais e revistas, impedem que várias pessoas procurem esses locais. As que conseguem romper essas barreiras transformam as suas vidas, passando a conviver melhor com o vírus da Aids.

O caminho para uma transformação
José Carlos Veloso (foto), 32 anos, faz parte da diretoria do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (Gapa) de São Paulo há sete anos. Apesar de estar tanto tempo à frente de uma ONG, Veloso percorreu uma longa trajetória até ingressar na instituição. “Eu me descobri soropositivo em 1990 e somente em 1992 entrei para o Gapa/SP”. Veloso faz parte de uma geração que se descobriu portadora do vírus da Aids quando ainda não havia tratamento para a epidemia. O encontro com o Gapa aconteceu quando ele precisou de um advogado para processar o local onde trabalhava. Assim que seus patrões descobriram que Veloso era soropositivo, o demitiram. Em função de vários problemas pessoais, a advogada do Gapa/SP o aconselhou a marcar uma consulta com o psicólogo da instituição. “A partir desse apoio, comecei a me aproximar. Participei do curso de voluntário. Fui me entrosando e comecei a perceber que o Gapa servia para mim como um fortificante naquele momento”. Em 1993, Veloso já fazia parte da diretoria da instituição, ajudando a definir metas de trabalho. Além disso, realizou um grande sonho em sua vida: conseguiu concluir o curso superior e hoje trabalha como assistente social. “Este crescimento eu devo muito ao Gapa. Antes eu me perguntava: para que fazer faculdade se eu vou morrer logo? Hoje, reconquistei a minha auto-estima. Qualquer um pode freqüentar uma ONG sem ser voluntário. O importante é ter a oportunidade de trocar experiências. Existem várias alternativas em São Paulo e em todo o Brasil. Nenhuma ONG tem o poder de resolver todos os nossos problemas. Mas pode significar um bom caminho para uma transformação”.

A busca pelo semelhante
Foi buscando esta transformação a que Veloso se refere que Willian Amaral (foto), 34 anos, chegou ao Grupo Pela Vidda do Rio de Janeiro. Assim como Veloso, ele percorreu um longo caminho até se integrar à instituição. Em 1989, Willian relutava muito em fazer o exame anti-HIV. Mesmo sabendo que seu companheiro estava contaminado, ele permaneceu com esta dúvida por quase três anos. Depois de confirmado o diagnóstico, em 1992, ele achava que tinha que se preparar para morrer. Os quatro anos seguintes foram marcados pela paralisia. “Eu ficava esperando alguma coisa acontecer”. Somente em 1996, Willian começou a perceber que precisava de auxílio para conviver melhor com o HIV. O primeiro passo foi assistir a um documentário chamado “Por Falar de Vida”, cuja produção é da ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar da Aids. Ele se sentiu impactado com um depoimento que, ao invés de falar de morte, associava a Aids à vida. Diante disso, ele resolveu procurar o Grupo Pela Vidda Rio. “Não foi um processo fácil. Cheguei na porta do Pela Vidda por três vezes e não tive coragem de entrar. Até que, um dia, encontrei um amigo que trabalhava na instituição. Ele me viu na porta, me pegou pelo braço e me apresentou ao grupo”. Depois de participar do primeiro Café Positivo (evento que acontece todas as segundas-feiras no Pela Vidda Rio), Willian diz que encontrou o que queria. “Fiquei tomado pela energia das pessoas. Todos falavam a mesma língua”. Ele iniciou o tratamento e passou a visitar com mais freqüência o Pela Vidda. Esteve presente no Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com Aids de 1996, evento anual promovido pelos Pela Vidda Rio e Niterói. Segundo ele, esse encontro lhe deu a oportunidade de obter mais informação sobre Aids, além de estabelecer contato com pessoas de outros estados. Hoje, Willian é secretário geral da instituição. “O Pela Vidda me mostrou que eu posso viver com Aids e não morrer com Aids”.

A procura por pessoas que estivessem passando pelos mesmos problemas fez com que a carioca Juçara Portugal Santiago (foto), 44 anos, procurasse a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com Aids, um grupo de convivência formado apenas por portadores do HIV. “Eu sempre fui muito tranqüila em relação à minha soropositividade. Sempre tive o apoio da minha família e de meus amigos. O problema é que eu me sentia isolada do mundo. Precisava encontrar pessoas que estivessem no mesmo barco que o meu”. Na primeira reunião da Rede na qual esteve presente, em 1998, encontrou 20 soropositivos. Trocando informações, conseguiu saber mais sobre Aids: efeitos colaterais e doenças oportunistas, por exemplo. Mas o principal ganho, segundo Juçara, foi descobrir o que ela poderia fazer por si e pelos outros. “Quando você tem informação sobre a epidemia, você se fortalece. Além disso, existe uma identidade muito forte entre nós, que passamos pelo mesmo problema”. Hoje, Juçara faz parte da diretoria da Rede de Pessoas Vivendo com HIV/Aids do Rio de Janeiro.

A importância de recuperar a auto-estima
A necessidade de encontrar outras pessoas que estivessem vivendo com HIV e Aids era o principal objetivo de Eduardo Luiz Barbosa (foto), 39 anos. Por isso, um mês depois de receber o exame no qual confirmava a sua soropositividade, em 1994, ele buscou auxílio em uma ONG. “A descoberta do HIV me deu um sentimento dúbio: de um lado, eu precisava fazer alguma coisa; do outro, negava tudo que se relacionasse à Aids. Por mais que você diga que é forte, ter o resultado nas mãos é assustador. O meu médico me deu 3 meses de vida”. Eduardo tomou uma providência: “Eu resolvi que precisava ver gente que tivesse o HIV mas que não tivesse parado de viver”. Visitou, então, várias ONGs de São Paulo, cidade onde mora. Quando chegou ao Grupo de Incentivo à Vida (GIV), identificou-se com o jeito das pessoas. “O GIV é um grupo de convivência no qual a ajuda mútua é o objetivo básico. Eu me identifiquei com as pessoas e com a proposta do GIV”. Em 1996, Eduardo já fazia parte da diretoria da instituição. Ele conta que recuperou a sua auto-estima em função do trabalho que desenvolve no grupo: “O GIV me deu a possibilidade de ampliar a minha visão de mundo e compartilhá-la com outras pessoas. Tive a oportunidade de trabalhar os meus medos e os meus próprios preconceitos. A convivência no GIV me ensinou que as pessoas têm que gostar de mim do jeito que eu sou”.

Aids: um assunto sobre o qual se possa falar
O psicólogo Alexandre do Valle, coordenador do Banco de Horas (uma ONG que possui um cadastro com cerca de 200 psicólogos que atendem soropositivos gratuitamente) acha fundamental que as pessoas procurem uma instituição ou um grupo de ajuda mútua. Para ele, a principal vantagem de um grupamento de pessoas com Aids é a percepção de que os problemas que envolvem a epidemia fazem parte da vida de outras pessoas também. “Existem várias maneiras de encarar a Aids. Não existe um formato, uma sentença. Se você se sente isolado, pode melhorar a sua vida tendo contato com outras pessoas, em lugares onde se possa falar das dúvidas, angústias e desafios, sem o medo da rejeição”. Para Alexandre, essa convivência pode significar uma possibilidade concreta de transformação. “Ao procurar um grupo, a pessoa passa a ter acesso a informações práticas, do cotidiano, por exemplo: onde conseguir tal medicamento, como fazer tal exame e onde resgatar a vida social. Enfim, informações que só podem ser repassadas por pessoas que estão passando pelos mesmos desafios. O diálogo é muito importante para tornar a Aids um assunto sobre o qual se possa falar, com o qual se possa lidar e, principalmente, com o qual se possa conviver”.

Procure a sua tribo

Rio de Janeiro
-Grupo Pela Vidda Rio de Janeiro – Avenida Rio Branco, 135, sala 709 – Centro – Tel.: (21) 518-3993
-Grupo Pela Vidda Niterói – Rua Francisco Domiciano, 150
Ingá – Niterói – Tel.: (21) 719-5683
-GAPA/RJ – Rua Conde de Bonfim, 377, cobertura 4 – Tijuca
Tel.: (21) 571-4141
-Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids/RJ
Rua Dr. Leal, 706, Engenho de Dentro
Tel.: (21) 597-4242 ramal 2163
-AFADA – Associação Filantrópica à Aids de Araruama
Praça São Sebastião, 296 – Centro – Tel.: (24) 665-0545
-Banco de Horas (Uma ONG que trabalha com psicólogos que atendem gratuitamente pessoas com HIV e Aids)
Tel.: (21) 274-7272

São Paulo
-Grupo Pela Vidda São Paulo – Rua General Jardim, 566
Vila Buarque – Centro – Tel.: (11) 258-7729
-Gapa/SP – Av. Pompéia, 633 – Pompéia – Tel.: (11) 3864-6010
-GIV – Grupo de Incentivo à Vida – Rua Capitão Cavalcante, 145 – Vila Madalena – Tel.: (11) 5084-0255


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