Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.01

01/2004

Os adolescentes nos serviços de saúde

Viviane Manso Castello Branco
Pediatra – Mestre em Saúde Pública Coletiva – Gerente do programa
de saúde do adolescente da Secretaria Municipal de Saúde-RJ

Eu, que era apenas uma menina de cabeça baixa, percebi que conseguia fazer tudo o que queria: consegui dar apoio às meninas grávidas, dei informações, consegui dar amor e, melhor, consegui me sentir útil. Agora, vejo a vida com outro olhar. Aprendi que devemos lutar pelos nossos objetivos” (Branco et al. 2003). O depoimento de C., jovem de 18 anos, mãe de dois filhos e promotora de saúde do Adolescentro da Maré, no Rio de Janeiro, ilustra porque diferentes trabalhos (Costa, 1999; Brasil, 1999) têm apontado o protagonismo juvenil como estratégia privilegiada para promover a saúde e o desenvolvimento do adolescente e da comunidade na qual está inserido. O envolvimento direto do adolescente no planejamento, implementação e avaliação das ações aumenta sua auto-estima, favorece sua autonomia, amplia suas oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional, melhora sua qualidade de vida e contribui para dar legitimidade e relevância ao trabalho do setor saúde junto a outros jovens.

Embora a experiência venha mostrando a relevância da atuação dos adolescentes como promotores de saúde nas unidades de saúde e na comunidade, a implantação dessa proposta não é simples. Para que os profissionais incentivem a participação do adolescente, é preciso que aceitem a sua autonomia e percebam o que é ser jovem na sociedade atual e as contribuições que os adolescentes podem dar. Exige, portanto, uma nova relação dos profissionais de saúde com eles mesmos, com os adolescentes e com os demais setores da sociedade. A avaliação do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, realizada em parceria com o NESC/UFRJ (Branco, 2002), identificou alguns dos elementos que dificultam a participação dos adolescentes nos serviços de saúde. Ao estudar os sentidos que os profissionais de saúde atribuem à saúde do adolescente, percebe-se uma ênfase muito grande na informação. Dessa forma, os profissionais valorizam o seu próprio trabalho, e a crença na sua capacidade de mudar comportamentos, deixando em segundo plano o papel da sociedade, da família e dos próprios adolescentes em promover a saúde. Além disso, ao descreverem o adolescente que sua unidade atende, destacam as carências em detrimento de suas potencialidades. Essas posturas dificultam uma relação mais horizontal com os adolescentes. Por outro lado, o mesmo estudo mostrou importantes avanços como a valorização do trabalho em equipe e a ênfase na disponibilidade do profissional, na escuta e na adequação da unidade às necessidades dos adolescentes como elementos importantes na captação, adesão e qualidade na atenção.

Para que se possa avançar na promoção da autonomia, da saúde e do bem estar dos adolescentes e ampliar suas oportunidades de participação é fundamental que os serviços de saúde:
 garantam espaços democráticos de planejamento, avaliação e troca de experiências entre os trabalhadores da unidade. Se os profissionais não opinam sobre o seu próprio trabalho, como podem abrir espaço para a participação dos adolescentes ou de qualquer outro usuário? As atividades devem favorecer uma reflexão sobre o papel dos profissionais frente ao adolescente, à família e à comunidade, de forma a promover mudanças;
 propiciem a seus trabalhadores oportunidades de reflexão e auto-conhecimento, abrindo para os profissionais de saúde novas possibilidades de transformação e crescimento pessoal em outras áreas que estão além do intelecto (Branco e Robin, 2002). É importante que eles possam repensar valores, desejos, sentimentos, surpreender-se consigo mesmos e descobrir suas próprias potencialidades, sua criatividade e capacidade de transformação. Só dessa forma poderão valorizar as potencialidades dos adolescentes e estar disponíveis para implantar as inovações propostas por eles;
 percebam que o adolescente não é “propriedade” de nenhum serviço em especial. Toda a unidade deve se responsabilizar pelos adolescentes, capacitando-se para lidar com suas especificidades individuais, culturais e sociais, mesmo que haja profissionais mais interessados e preparados para lidar com esse grupo. O intercâmbio entre os programas, os serviços e os usuários de diferentes gerações é essencial para uma abordagem mais holística. Um adolescente soropositivo, por exemplo, além de ser acompanhado pelo serviço específico, deve poder participar dos grupos de adolescentes e das demais atividades culturais, esportivas e lúdicas desenvolvidas pelos parceiros. Pouco adianta organizar um serviço de qualidade, se as diferentes portas de entrada da unidade (como o balcão, o guarda, o setor de Imunizações, o teste de gravidez, entre outros) afastam os adolescentes por desrespeitarem os princípios básicos do atendimento;
 resguardem o sigilo e a confidencialidade como elementos fundamentais para a captação e adesão dos adolescentes ao serviço;
 consigam dar visibilidade aos adolescentes que já freqüentam a unidade de saúde, como clientes ou como acompanhantes, aproveitando ao máximo todas as oportunidades para divulgar e facilitar o acesso às atividades que o serviço oferece;
 respeitem as singularidades relativas à idade, gênero, raça/etnia, condição sócio-econômica, vínculos familiares, domicílio, incapacidades, escolaridade e trabalho, entre outras;
 utilizem metodologias participativas que promovam o desenvolvimento de habilidades e favoreçam a reflexão e a troca de experiências;
 estabeleçam parcerias e projetos integrados com outros setores de forma a ampliar sua atuação junto aos adolescentes, criar retaguardas e oferecer acesso a atividades profissionalizantes, esportivas, artísticas e de convivência comunitária;
 ampliem gradativamente os espaços de participação dos adolescentes nos serviços, ouvindo e implementando suas propostas e criando parcerias com grupos organizados de jovens.

Só o esforço integrado dos diferentes atores poderá tornar os serviços de saúde mais aptos a interagir com os adolescentes, incentivando a sua participação nas atividades de aconselhamento e promoção de saúde desenvolvidas na unidade e na comunidade. Dessa maneira, estarão criando oportunidades para que outros jovens de cabeça baixa possam erguê-la e encarar a vida de forma mais construtiva e otimista.

Referências Bibliográficas:
COSTA, A.C.G. O Adolescente como Protagonista. In: SCHOR,N; MOTA, M.S.T; BRANCO, V.C (org). Cadernos de Juventude, Saúde e Desenvolvimento. Brasília: Ministério da Saúde, 1999.
BRASIL. Saúde e desenvolvimento da juventude brasileira: construindo a agenda nacional. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, 1999.
BRANCO, V.M.C., ROBIN, M. Contribuindo para o desenvolvimento pessoal do profissional de saúde. Saúde em foco. Rio de Janeiro, n.23, julho/2002.
BRANCO, V.M.C. Emoção e razão: os sentidos atribuídos por profissionais de saúde à atenção ao adolescente. Dissertação de Mestrado em Saúde Coletiva. Rio de Janeiro: Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002.
BRANCO, V.M.C; COUTINHO, M.F.G.C; MEDEIROS, d.C.; PEREIRA,A.R. Fomentando a participação dos adolescentes. Anais do VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva. ABRASCO, 2003.

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