Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.12

04/2008

Os dois lados da adesão

Todo profissional de saúde tem pacientes aderentes e não-aderentes ao tratamento. Por um lado, a adesão exemplar; por outro lado, a evidência de que não se pode ganhar sempre.

Por um lado…
“Uma paciente que descobriu ser soropositiva depois que sua filha nasceu, também com HIV. Ela namora um outro paciente meu, e sua filha já tem 13 anos. Por causa da influência dessa moça sobre o namorado e a menina, os três têm carga viral indetectável há quase oito anos, mantendo o mesmo esquema anti-retroviral.”

Por outro lado…
“Tenho um paciente que vive completamente sozinho. Não tem amigos e foi abandonado pelos familiares. Mesmo internado, recebendo as medicações na boca pela enfermagem, cospe o remédio. Não quer nem mais se alimentar. É um caso grave e já está sendo resolvido com a equipe do hospital.”
GUSTAVO MAGALHÃES, INFECTOLOGISTA

***

Por um lado…
“Em 1997, um paciente chegou ao setor de emergência do Hospital Municipal Salgado Filho com neurotoxoplasmose. Ele foi diagnosticado como portador do HIV e permaneceu numa maca, no
Pronto Socorro, por vários dias, por falta de vaga na Enfermaria. Recuperou-se, recebeu alta e está com carga viral indetectável desde então.”

Por outro lado…
“Uma paciente repetia a frase “Por que não dá certo no meu caso?” a cada vez que apresentava uma falha. Depois, descobri que nunca havia efetivamente tomado a sua medicação! Ela, simplesmente, escondia todos os frascos num armário!”
SANDRA PRÍNCIPE PASSINI, CLÍNICA GERAL.

***

Por um lado…
“Lembro de um paciente do sexo masculino, que descobriu ser portador do HIV em 1996, aos 40 anos. Era diabético e hipertenso, tinha história prévia de tuberculose e hanseníase. Acompanhei-o até 2006. Nesses dez anos, foi aderente ao tratamento do HIV e das co-morbidades. Sempre com exames de carga viral indetectáveis, chegou ao requinte de uma vez interromper a consulta, pois estava na hora de tomar os remédios. Pediu que eu aguardasse, retirou-se do consultório e foi tomá-los. Esperei-o com muito prazer! Sua qualidade de vida era excelente, e não houve nenhuma intercorrência durante o acompanhamento.”

Por outro lado…
“Lembro de uma paciente que descobriu ser soropositiva em 2001, aos 42 anos, já com imunodeficiência grave. Iniciou a terapia anti-retrovirais e recuperou sua imunidade, atingindo bons níveis de CD4, além de carga viral indetectável. Por convicções religiosas, porém, abandonou o tratamento subitamente. Veio ao consultório anunciar a sua cura. Com um argumento contrário ao tratamento tão forte e contundente, nenhuma estratégia da equipe funcionou. Ela faleceu com tuberculose miliar, dois anos após bandonar o tratamento.”
PAULO ROBERTO NASCIMENTO DOS SANTOS, INFECTOLOGISTA.

***

Por um lado…
“Uma jovem senhora, de 37 anos, já no terceiro esquema. Quase sempre havia usado de forma irregular seus esquemas. Até que, após genotipagem, veio a necessidade de ampliar sua terapêutica anti-viral e incluir uma nova classe de remédios que seria injetável. No início, achei que não aceitaria, mas me surpreendi. Após estímulo à adesão, acolhimento e esclarecimento, a paciente optou por sua vida. E com qualidade, já que não só aceitou o nova esquema como tem tido excelente adesão, não falta às consultas, não falta às reuniões do grupo do medicamento injetável e está com carga viral indetectável no último ano, pela primeira vez desde o início de seu tratamento! Estamos, eu e ela, como vencedoras.”

Por outro lado…
“Tenho exemplos como o de uma jovem de 35 anos, contaminada pelo marido. Enquanto sua contagem de CD4 não chega a 50, a carga viral dele permanece indetectável. A despeito de todos os meus esforços em fazê-la tomar corretamente os seus remédios, ela optou por preocupar-se apenas em cuidar do marido. Esqueceu-se de si mesma.”
KARLA GRIPP, INFECTOLOGISTA.

Compartilhe