Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.21

12/2010

Os infectologistas diante da morte e do morrer de pacientes com AIDS

A história da aids no país foi construída por diversos atores sociais. E, em meio a histórias de coragem, superação e solidariedade, inevitavelmente aconteceram muitas mortes e lutos. Atualmente, cerca de 9 óbitos ocorrem todos os dias no Estado de São Paulo.

O que sentem, pensam e fazem os médicos diante da morte de seus pacientes? Para responder a estas questões realizei, a título de mestrado, o estudo “O infectologista diante da morte de pacientes por aids”. Elaborado no Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, sob orientação do psiquiatra Luiz Antônio Nogueira Martins (Unifesp) e da psicóloga Maria Cezira Fantini Nogueira Martins (Instituto de Saúde-SP), o estudo descreve e analisa as vivências de infectologistas frente à morte e ao morrer de seus pacientes ao longo da trajetória da epidemia de aids na cidade de São Paulo.

A partir da análise do material obtido nas entrevistas (20 médicos de 5 instituições), destacamos três eixos temáticos. O primeiro deles, “o contexto inicial da aids e o impacto vivido pelos infectologistas”, retrata os primeiros anos da epidemia. No início dos anos 80, os infectologistas, especialistas que não estavam habituados a lidar com morte e doença crônica, testemunhavam mortes múltiplas, ficavam divididos entre o prover cuidado e assistência e o receio de infectar-se por algo ainda desconhecido. Entre as vivências e comportamentos observados na época, destacavam-se o medo de contágio pelo contato com pacientes, distanciamento e desconforto relacionado ao estilo de vida dos mesmos, em especial homossexuais e usuários de drogas. O óbito era vivido como fracasso, gerando frustração e induzindo a estados depressivos.
A morte era encarada de forma natural até o início do século XX, quando passou a ser vista como inimiga a ser vencida. Com o desenvolvimento de novas tecnologias e medicamentos, a medicina passou a dedicar-se primordialmente à cura. A morte passou a ser sinônimo de fracasso e motivo de vergonha.

Diante do grande número de óbitos em pouco espaço de tempo e da inexistência de medicamentos específicos, os infectologistas conviviam com sentimentos de perplexidade, angústia e impotência. Nessa época, diante da velocidade dos acontecimentos, os médicos dispunham de pouco tempo para digerir o doloroso impacto das perdas e com isso, havia uma constante fragmentação no processo de elaboração do luto. Observou-se ainda que, aliado a esses fatores, uma vez que a morte é motivo de vergonha, o médico nem sempre se permitia lamentar a perda de pacientes. Em geral, ele vivenciava o que se conhece como “luto não autorizado”.

O segundo eixo temático refere-se a “modificações na vinculação com os pacientes depois da introdução da HAART”. Desde 1996, graças à introdução da HAART (sigla em inglês para Terapia Antirretroviral Altamente Potente) e ao significativo aumento na sobrevida, o vínculo entre médico e paciente tornou-se mais prolongado e profundo. Atualmente, a morte ocorre após longo período de tratamento e interação entre profissionais, pacientes e familiares, e costuma despertar sentimentos de tristeza diante do óbito, e ainda alguma frustração. O impacto da morte é particularmente acentuado diante da morte de crianças e jovens, em especial aquelas que são acompanhadas desde seu nascimento. A quebra do vínculo afetivo desenvolvido e a interrupção do ciclo natural da vida provoca profundo pesar.

Para alguns infectologistas, o impacto da morte de pacientes tornou-se mais ate-nuado, porém angustiante. Observou-se que há médicos com dificuldades para lidar com a morte, provavelmente porque esta o coloca diante da própria mortalidade. Nestes casos, a possibilidade de recorrer a equipes de cuidados paliativos nas instituições foi salientada como um recurso importante. O estudo aponta também que, para a maioria dos médicos, o processo de morreré considerado mais difícil, impactante e comovente do que a morte em si. Este período, denominado “luto antecipatório”, envolve uma gama de respostas emocionais que podem incluir adaptação a uma nova situação, ansiedade de separação, solidão existencial, tristeza, desapontamento, raiva, ressentimento, culpa, exaustão e desespero.

No terceiro eixo, “lidando com a morte e o morrer”, verificou-se que os médicos utilizam diferentes mecanismos, recursos ou estratégias de elaboração e/ou processamento das perdas. A racionalização é o mecanismo mais empregado. A compensação (por meio do consumo de bens e produtos), o aprimoramento técnico-científico, o debate com colegas e equipe, assim como o suporte psicoterápico pessoal também fazem parte dos recursos utilizados para lidar com as situações difíceis.

Este estudo aponta para a importância do reconhecimento da medicina como tarefa potencialmente estressante e da necessidade de medidas de caráter profilático e/ou de cuidado para médicos e outros profissionais de saúde. Para Luiz Antônio Nogueira Martins, o interesse e preocupação com essas questões são fundamentais para o desenvolvimento de ações de promoção de saúde, de detecção precoce de distúrbios emocionais e disfunções profissionais e de criação de programas assistenciais específicos para estudantes, residentes e médicos, a fim de possibilitar a oferta de uma assistência qualificada aos pacientes.

• Para ler o artigo na íntegra acessar
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=1516-318020100002&lng=en&nrm=iso
• Emi Shimma é jornalista e psicóloga do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP

Compartilhe