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Saber Viver » Saber Viver n.12

10/2001

Papo cabeça

Espinhas na cara e muitas dúvidas na cabeça. Na primeira matéria da Saber Viver sobre adolescentes, três jovens contam suas histórias, falando de namoro, família, discriminação e vontade de viver. Com a palavra, os adolescentes.

 “A Aids me tornou mais responsável”

Tiago tem 18 anos e nasceu com vírus HIV. A mãe faleceu em 1989 e o pai se recusa a realizar o tratamento: “Eu falo o tempo todo que ele tem de se tratar, mas ele não quer. É chato porque agora ele está ficando doente”, diz Tiago com os olhos revoltados frente à atitude do pai.

Tiago é um jovem que sabe o que quer. Depois que seu pai parou de levá-lo ao Hospital Gaffrée Guinle (RJ), onde realiza o tratamento até hoje, ele, com 14 anos, resolveu: “Fui sozinho para o hospital me tratar. A Aids me tornou mais responsável. Antes de saber que eu era soropositivo, só queria saber de pichar muro e viver pelas ruas. Hoje eu sou mais responsável”, diz o adolescente que saiu da casa do pai e foi morar com a tia e a avó: “Meu pai fazia muita besteira”. A determinação de Tiago para lutar pela vida comoveu as mães do Hospital Gaffrée Guinle. Quando ele tinha 16 anos, internou-se sozinho para um procedimento cirúrgico. As mães de outras crianças o “adotaram” naquele período, fazendo companhia e comprando o que o menino necessitava.

Fico com umas meninas quando eu saio
Quando se fala em namoro sério, Tiago foge do assunto: “Eu fico com umas meninas quando eu saio. Se rolar alguma coisa além, eu penso logo na camisinha. Agora, namoro tem que ser uma coisa séria. Eu tenho medo de falar que tenho HIV, por isso eu fico sozinho. Sei lá, acho que eu ainda não encontrei uma menina legal”. Reconstruir uma família faz parte de seus planos para o futuro: “Penso em casar e se ainda não for descoberta a cura da Aids, vou adotar uma criança”. Além disso, Tiago quer entrar para uma faculdade. Hoje ele está cursando o primeiro ano técnico em eletrônica. “Penso em montar uma loja e ser meu patrão”, diz o rapaz que, além de ser muito prático, programa o seu futuro demonstrando que tem muito amor pela vida. “Muitos adolescentes com os quais eu converso dizem que têm medo de morrer. Quando eu digo ‘cara, eu nasci com o vírus e tenho 18 anos’, todos ficam admirados. Nós temos que perseguir o nosso sonho, acreditando que um dia teremos a cura da Aids”.

“Fizeram um abaixo-assinado para eu sair da escola” 

Leandro tem 17 anos e, infelizmente, carrega muita culpa de ser contaminado pelo HIV: “Eu não queria ser um estorvo na vida da minha mãe”. Leandro sabe que é soropositivo desde 1992. Sofreu muito com a discriminação. Ainda hoje, quando relata a sua história, dificilmente ele fica com a cabeça erguida. Depois que alguns familiares espalharam pelo bairro que Leandro era soropositivo, pais e professores da escola na qual ele estudava fizeram uma manifestação, com abaixo-assinado, reivindicando a expulsão do menino do colégio. Depois de uma briga na justiça, Leandro conseguiu recuperar o direito de voltar a estudar naquela escola. “Eu ganhei a ação na Justiça mas não adiantou nada. Fui para a escola mas as mães proibiam os filhos de brincarem comigo”. Diante de tanta pressão, a mãe de Leandro resolveu tirá-lo do colégio. Com isso, Leandro ficou 4 anos sem estudar. “Às vezes eu fico desaminado porque sou bem mais velho que o resto da turma. Hoje estudo numa escola onde algumas pessoas sabem, mas outras, não. O importante é que ninguém me incomoda”, conta Leandro.

Eu me acho diferente dos outros adolescentes

“Gosto de jogar futebol e ir ao baile. Só quando eu tenho camisinha transo com as meninas. Eu não quero prejudicar ninguém”. Leandro acha que é diferente dos outros jovens. “Além de eu ter de levar muitos remédios para a escola, não posso realizar o meu sonho que é servir ao exército. Por isso, me sinto diferente das outras pessoas. Os meus maiores sonhos hoje são consertar a casa da minha família e comprar uma fazenda onde eu possa viver bem longe das pessoas que me prejudicaram”, encerra Leandro.

“Descobri que sou soropositiva vendo TV”

Josy tem 19 anos e descobriu, vendo televisão aos 14 anos, que algumas pessoas que tinham Aids tomavam o mesmo remédio que ela. “Eu sou muito curiosa, fui direto perguntar para minha mãe se eu tinha HIV”. Josy se infectou através de transfusão de sangue. Sua mãe descobriu a infecção quando a menina tinha 11 anos. “Eu moro com minha mãe, meu pai e meus irmãos. Minha mãe tem o maior cuidado comigo. Ela me deixa ir ao baile e namorar, mas não me deixa ficar muito tempo na rua. Acabei de ter uma pneumonia”.

Tenho vontade de ter um filho 
“Quando eu penso em ‘ficar’ com algum garoto, fico esperando que ele venha falar comigo. Se ele demora muito, eu tomo a iniciativa”, conta Josy que diz não ter tido relação sexual com nenhum menino até hoje por causa do HIV. “Eu penso logo se a camisinha furar. Eu posso contaminar outra pessoa. Eu não penso em mim, penso mais no outro”. Josy namora um rapaz, mas para ela esse relacionamento “tá muito sem graça”. “Agora eu penso em estudar e fazer o vestibular. Quero ser professora. No futuro, eu tenho vontade de ter um filho. Quem sabe? Mas hoje, sabendo que sou soropositiva, não tenho coragem de colocar outra pessoa no mundo para correr o risco de nascer infectado”.
Josy acha que a única coisa que a torna diferente de outras meninas é ter que tomar os remédios todos os dias. “A pior hora é essa. Tem remédio que é muito ruim. Eles transformam o corpo da gente”. Mas, por outro lado, ela reconhece a importância dos medicamentos: “Tomando os remédios poderemos ficar vivos até quando Deus quiser. A gente tem que lutar pela nossa vida. O que importa é isso”.

Locais maneiros:

Rio de Janeiro:
• Projeto ConvHIVendo – Presta atendimento psicológico para adolescentes. Informações com as coordenadoras Maria Helena: (21) 9986 6174 ou Juliana Mattos – (21) 9645 2704
• Pela Vidda Rio – Grupo de Adolescentes às quintas-feiras, 18h. Informações (21) 2518 3993.
• Abia – Oficina de teatro sobre Sexualidade e Aids para homens Jovens que fazem sexo com outros homens. Informações com Vagner de Almeida: (21) 2223 1040.

São Paulo:
• Projeto Viver Criança e Adolescente do Grupo de Incentivo à Vida (GIV) – O projeto promove encontros entre crianças e adolescentes que convivem com HIV. Informações com Abel Godim: (11) 5084 0255.

Belo Horizonte: 
• Adolescente Positivo… E Daí?! – Um projeto da ONG VHIVER que promove reuniões com adolescentes. Informações com Valéria Corrêa ou Patrícia Braga. (31) 3271 8310 ou (31) 3221 9656.

Bahia:
• Gapa/Ba – Projeto de teatro voltado aos adolescentes. Informações: (71) 328 4270.
Sites legais: www.adolesite.aids.gov.br
www.mundoadolescente.com.br


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