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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.03

12/2005

Para toda ação, espera-se uma reação

O princípio básico da lei de Newton é um ótimo exemplo para  iniciar uma reflexão sobre os efeitos adversos dos anti-retrovirais

Todos os profissionais da área da saúde sabem: em qualquer tipo de terapia, estão previstos os efeitos adversos esperados e os inesperados. Basta uma substância penetrar no organismo para gerar reações que nem sempre são as desejadas. “Isso acontece porque os medicamentos não têm inteligência própria. Ou seja, eles não agem apenas no foco principal. Assim, acabam provocando alterações no metabolismo do indivíduo”, analisa o infectologista Estevão Portela, do Projeto Praça Onze da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Quando oferecemos uma opção de tratamento ao paciente, acreditamos que o balanço entre benefícios e problemas causados pela medicação seja positivo”, diz o infectologista. Os efeitos adversos são mais um desafio que o profissional de saúde precisa enfrentar, principalmente quando tem que convencer o seu paciente de que, apesar desses transtornos, o tratamento vale a pena.

OS EFEITOS ADVERSOS E O INÍCIO DO TRATAMENTO
Os efeitos adversos assumem uma função primordial na hora da prescrição da terapia anti-retroviral. Segundo Estevão Portela, o profissional de saúde, na hora de optar por um esquema terapêutico, deve adequar as possibilidades de combinações existente à realidade do paciente, levando em consideração o impacto que os efeitos adversos podem causar na vida da pessoa. “Não podemos partir de uma idéia pré-concebida de que um esquema com menos comprimidos, mas com um efeito adverso esperado de desconcentração, será o esquema ideal para um piloto de avião ou para um motorista de caminhão. Provavelmente, não será”, reflete o infectologista. Por isso, Portela acredita que os efeitos adversos devem ser claramente apresentados ao paciente antes da prescrição de qualquer esquema terapêutico. “No início do tratamento com os antiretroviais, o ideal é escolhermos combinações terapêuticas em conjunto com paciente e acompanhá-lo no primeiro mês com freqüência, auxiliando-o nessa fase de adaptação”, sugere o infectologista.

QUANDO A OPÇÃO É A MUDANÇA DO MEDICAMENTO
Outro desafio relacionado aos efeitos adversos é a decisão pela mudança de terapia. Muitas vezes, mesmo com carga viral indetectável e CD4 restabelecido, algumas pessoas se sentem muito incomodadas com os efeitos adversos e pressionam pela troca de esquema, a ponto de porem em risco a adesão do tratamento. Para esse dilema, o infectologista Estevão Portela sugere: “Primeiro, precisamos explicar ao paciente que aquele efeito adverso pode não estar associado à medicação. Às vezes, não está. Por isso, é fundamental investigar a relação da droga com as queixas do paciente”, sugere o infectologista. Outro aspecto importante é esclarecer ao paciente que ele não estará livre dos efeitos adversos das drogas e os que surgem no início do tratamento tendem a diminuir, em média, em um mês. “Mas se for um efeito adverso absolutamente incontrolável, o profissional deve avaliar a mudança do esquema. Temos que evitar que o paciente, por conta própria, tente manejá-los, comprometendo a adesão ao tratamento”, ressalta Portela.

Segundo o infectologista, os efeitos de curto prazo, geralmente, são mais fáceis de reverter, diferentemente dos efeitos a longo prazo, como a lipodistrofia, por estarem associados a lentos processos metabólicos em nível de biologia molecular e celular. “Mas, no caso das dislipidemias, por exemplo, podemos caracterizá-las através de exames laboratoriais”, lembra o infectologista.

O MÉDICO NÃO PRECISA TRABALHAR SOZINHO
O infectologista Estevão Portela é um defensor da integração entre as diversas especialidades para o tratamento da aids. “Cada vez mais temos que pensar nos diversos aspectos da vida da pessoa. Logo, contar com profissionais de diversas áreas nos auxiliando é muito importante, seja da enfermagem, da saúde mental, da nutrição. Toda a equipe cresce com isso”, acredita Portela. Porém, o infectologista é categórico em afirmar que “o médico não pode, com isso, se esquivar de determinadas tarefas. O profissional tem que ter consciência dos diversos aspectos envolvidos na terapia e participar ativamente de todos eles, trocando informações e impressões”.

Segundo Portela, cabe também ao profissional de saúde identificar efeitos colaterais não previstos no tratamento que aparecem com o tempo. “A partir do momento em que a demanda por novas modalidades terapêuticas aumentam e estudos são liberados com tempo menor de observação, o profissional da ponta precisa ficar atento a manifestações não freqüentes que possam surgir, principalmente em populações específicas, como grávidas e coinfectados por hepatites, por exemplo. Quanto mais diversificada for a equipe, maior será a possibilidade de identificarmos problemas mais rapidamente”, explica Portela.

EFEITOS MAIS COMUNS ÀS CLASSES DE MEDICAMENTOS CONTRA A AIDS
Análogo de nucleosídeos – toxicidade mitocondrial, podendo levar a diversas manifestações diferentes, dependendo da droga, como a lipoatrofia periférica, pancreatite, neuropatia periférica, anemia, toxicidade renal.

Inibidores de protease – efeitos gastro-intestinais (devido à forma com que eles são veiculados e ao número de pílulas), como diarréia, vômito, náusea, icterícia, aumento do triglicerídeo e colesterol.

Não-análogo de Nucleosídeos – hipersensibilidade cutânea, como rash. O efavirenz tem uma particularidade que é relacionada a alterações no sistema nervoso central. A nevirapina possui um efeito hepatotóxico em gestantes soropositivas e pessoas em inicio de terapia se, nos dois casos, o CD4 for elevado.


Pesquisas tentam diminuir riscos de efeitos adversos nas novas drogas

Desde a descoberta dos inibidores de protease, em 1996, uma série de avanços relacionados à posologia, ao veículo em que diversas medicações são disponibilizadas e à diminuição dos efeitos colaterais foram descobertos para tentar tornar o tratamento contra a aids menos agressivo ao paciente. “Os estudos de avaliação de estratégias de tratamento anti-retroviral têm o objetivo de encontrar esquemas mais potentes que sejam, ao mesmo tempo, melhor tolerados e mais facilmente incorporados à rotina do paciente”, explica a chefe do Serviço de Doenças Infecciosas do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas/Fiocruz, Beatriz Grinsztejn. Segundo ela, ao longo do tempo, o desenvolvimento de novos medicamentos tem se direcionado a buscar compostos que sejam também menos tóxicos. “Esses aspectos são ainda mais relevantes para pacientes que já apresentam falha terapêutica, porque para o tratamento inicial já dispomos de esquemas com menor toxicidade e fácil administração”, acrescenta Grinsztejn.

Em todos os estudos clínicos de medicamentos, por exemplo, há uma preocupação com as dislipidemias, buscando alternativas para amenizar essas alterações. “À medida que você tem mais tempo para estudar os efeitos da medicação a longo prazo e a relação causal desses efeitos com características ou particularidades das substâncias, fica mais fácil eliminar ou abrandar os efeitos adversos, mantendo o poder terapêutico da medicação. Quanto mais se fizer isso, melhor será o efeito custo-benefício da terapia”, analisa Estevão Portela. Porém, isso não significa que o paciente está livre de novos efeitos adversos. “Significa que nós estamos trabalhando cada vez mais no sentido de depurar a substância para que ela fique focada em seu objetivo principal, com menos efeitos periféricos”, diz o infectologista.

 

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