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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.07

11/2006

Parceiras da Vida

Grupo de mulheres se reúne no Núcleo de Epidemiologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, para se fortalecer e
colocar o HIV em seu devido lugar

O tratamento contra a aids envolve questões que ultrapassam em muito as consultas médicas. Foi essa certeza, e a percepção de que as mulheres portadoras do HIV têm demandas específicas, que fez com que as médicas Débora Fontenelle e Iná Meirelles de Souza e a psicóloga Ângela Machado criassem um grupo de apoio voltado exclusivamente para as mulheres, no Núcleo de Epidemiologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), no Rio de Janeiro. A idéia surgiu quando as profissionais perceberam que a troca de experiências entre as pacientes na sala de espera do hospital era bem mais livre e verdadeira do que durante as reuniões com o grupo de apoio formado por pessoas de ambos os sexos.

Assim se formou o grupo “Parceiras da Vida”, desenvolvido dentro do HUPE/UERJ desde junho de 2002 e voltado a dar suporte e informação às mulheres infectadas ou afetadas pelo HIV. As reuniões são mensais e, para a Débora Fontenelle, o diferencial é que os temas desenvolvidos são propostos pelas próprias pacientes. “A cada encontro elegemos um assunto que será abordado na próxima reunião. Isso aumenta ainda mais o interesse delas”, revela a médica.

ADESÃO À VIDA É O MAIS IMPORTANTE

Já passaram pelo “Parceiras da Vida” mais de sessenta mulheres, com idades que variam de 18 a 70 anos. Essa variedade etária é apontada pelas profissionais de saúde como algo muito positivo. “Geralmente são mulheres pobres, que trazem questões que muitas vezes não estão diretamente ligadas ao vírus, como, por exemplo, a violência.

A diferença de idade é interessante porque possibilita uma grande troca de experiência”, diz a médica Iná Meirelles. O resultado tem sido uma melhora significativa na adesão destas pacientes ao tratamento contra o HIV. Mas o que se percebe, ao verificar o êxito deste trabalho, é bem mais amplo, como explica Débora: “A adesão é algo maior. Engloba a conscientização sobre a importância do uso do preservativo, a ampliação da percepção da co-responsabilidade sobre o tratamento e uma melhor percepção dos direitos e deveres sociais, além do fortalecimento da relação médico-paciente”.

Bárbara Filgueiras, assistente social do Programa de Atenção Integral à Saúde do HUPE e membro da equipe do “Parceiras da Vida”, conta que quando começou a trabalhar com o grupo ficou receosa: “Fiquei impactada e ao mesmo tempo fascinada com as histórias das mulheres. São elas que nos mostram o caminho a seguir. Certa vez, trouxemos duas professoras de artesanato, porque a necessidade apresentada naquele momento era de geração de renda”.

Muitas vezes, é na entrevista com a assistente social que se define quem deve fazer parte do grupo. “As que chegam com um quadro bastante depressivo são as mais incentivadas, mas todas são elegíveis a integrar o grupo”, ressalta Bárbara.

AS MULHERES SE FORTALECEM EM GRUPO

Segundo a psicóloga Ângela Machado, boa parte do êxito do “Parceiras da Vida” deve-se à questão da identificação: “Muitas mulheres estão no grupo desde o começo e dá para notar seu fortalecimento e uma grande identificação entre elas. O reconhecimento de uma história semelhante à sua conforta”. A psicóloga destaca ainda o fato de a mulher ficar muito sozinha ao receber o diagnóstico. “O grupo quebra essa solidão e a faz perceber que ter o HIV não está relacionado ao fim”, completa.

A assistente social Bárbara Filgueiras frisa que questões como direitos trabalhistas e a lei do passe livre fazem parte da discussão, pois ajudam a garantir a assiduidade das mulheres no grupo.

Outro ponto apontado pelas profissionais como fundamental para o bom resultado deste trabalho é a participação de estudantes de medicina, psicologia, enfermagem e assistência social no “Parceiras da Vida”. Segundo Ângela, isso possibilita ao estudante ficar mais sensível ao paciente como um todo e não apenas aos aspectos clínicos. A constatação é comprovada pelo entusiasmo da residente Kevia Silva Ataíde, do 6º período de medicina: “Eu mudei o jeito de lidar com o paciente. Passei a me envolver mais, vi que tinha preconceito. Outro dia fui atender uma paciente que tinha acabado de receber o diagnóstico e me vi usando o que eu tinha aprendido. Foi gratificante”.

TRABALHO INTERDISCIPLINAR
Os bons resultados obtidos pelo grupo também devem ser atribuídos ao trabalho interdisciplinar realizado pela equipe do hospital. O paciente é abordado de forma integral, com todas as carências clínicas, psicológicas e sociais. O que traz também um gratificante aprendizado para o profissional de saúde. No caso do “Parceiras da Vida”, apenas mulheres. A única figura masculina é a do professor do Serviço de Ginecologia, José Fernando, que sensibilizou as outras especialistas pela abordagem adotada com as integrantes do grupo.

A médica Débora Fontenelle avalia que o trabalho no “Parceiras da Vida” é singular por atender não apenas as mulheres infectadas como também as afetadas pelo HIV, como irmãs, mães, filhas: “Isso ajuda a quebrar o preconceito dentro da própria família, que, esclarecida, apóia mais”. Essa rede de solidariedade favorece a adesão.

Iná Meirelles afirma ser importante ter a verdadeira dimensão do que está acontecendo. “Digo sempre a elas: o HIV é um detalhe na vida de vocês. Não deixe que ele tome conta de tudo. Juntas, vamos colocar o vírus no lugar dele. E seguir a vida”, conclui a médica.

MAIS INFORMAÇÕES
Nucleo de Epidemiologia do HUPE:
(21) 2587 6153 ou 2587 6157
Serviço Social do HUPE:
(21) 2587-6506 (Bárbara)

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