Publicações

  • Fonte normal
  • Aumentar fonte
  • Adicionar a favoritos
  • Imprimir
  • Envie para um amigo:





Solução » Solução n.24

06/2008

Parceiras por acaso

Farmacêuticas de centro de Pesquisa atuam em oito projetos

Mônica e Luana trocam idéias sobre a assistência aos cerca de 150 pacientes

Em 2005, Mônica de Souza Couto já tinha 18 anos de experiência na indústria farmacêutica quando aceitou integrar o setor de dispensação de um Centro de Pesquisa Clínica. Alguns meses depois, Luana Monteiro Spíndola Marins, que era recém-formada e fazia um trabalho temporário no hospital, ocupou um lugar a seu lado. Atualmente, as duas farmacêuticas são responsáveis por dispensar medicamentos aos cerca de 150 pacientes-voluntários que participam dos oito Protocolos de Pesquisa Clínica.

O centro é um site avançado do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec/ Fiocruz), e funciona no Hospital Geral de Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio de Janeiro. O trabalho delas é variado. Mônica e Luana atendem de recém-nascidos a idosos, de gente em falha terapêutica a quem nunca se medicou antes.

Solução – Vocês lidam com perfis variados de pacientes. Sentem essa diferença no atendimento?

Mônica – É mais difícil lidar com quem toma Maraviroc [medicamento que aguarda liberação para ser comercializado no Brasil]. São pessoas que chegam em falha terapêutica e têm nesse medicamento a última opção. É a hora de pegar pesado, de acolher e de dar bronca ao mesmo tempo. Se tomou sempre errado, agora é a hora de tomar certo.

Solução – E eles têm aderido ao tratamento?

Mônica – A gente tem trabalhado para isso.

Solução – E se o Maraviroc não fizer efeito?

Mônica – Aí a gente tem que esperar o próximo medicamento ser disponibilizado.

Solução – Vocês se envolvem afetivamente com os pacientes?

Mônica – Conhecemos todos pelo nome, desenvolvemos uma parceria com cada um. Hoje fiquei duas horas numa consulta, fazendo treinamento de injetável. Passei cuidados básicos de assepsia, como lavar as mãos e limpar as unhas com escovinha.

Luana – Sabemos que cada um tem uma vida diferente e tentamos adaptar o tratamento para que o medicamento não represente um empecilho. Explicamos o que significa carga-viral etc., tudo para que entendam o tratamento…

Mônica – Eu e Luana conversamos muito. Pensamos qual vai ser a nossa abordagem, que linguagem vamos usar com o paciente, como vamos fazer para simplificar as coisas…

Solução – Vocês contam com apoio psicológico?

Luana – Nossa equipe é multidisciplinar, quando a gente precisa, pede socorro à psicóloga.

Solução – O que mais impressiona vocês?

Mônica – Como lidam com o preconceito, para quem contam sobre o HIV. Tem o cara que parou de viver para se deteriorar e tem o cara que vai em frente apesar do vírus. E todos têm fases. Se o medicamento faz efeito, por exemplo, eles passam a desmistificar a condição de soropositivos.

Luana – Os adolescentes sofrem demais, eles dizem que são discriminados… Todo adolescente é complicado, quanto mais se é soropositivo. No caso da transmissão vertical eles costumam culpar a mãe… E quando ele esconde dos colegas mas, por algum motivo, todo mundo na escola descobre?

Mônica – E tem aqueles pacientes que não terminam um relacionamento porque têm medo de nunca mais conseguir alguém que aceite o fato de ele ter HIV.

Solução – Pelo visto, o trabalho de vocês vai bem além da dispensação.

Luana – A gente conta o medicamento que o paciente traz de volta, mas fazemos isso para entender o que se passa com quem não toma, não é para brigar!

Mônica – É um trabalho de reconhecimento das dificuldades… Não que a aids seja uma doença da miséria, mas aqui a gente vê muita miséria.

Luana – Aqui o HIV é com certeza o menor dos problemas. Eles dizem: “Não pude tomar certo porque não tinha dinheiro para comprar comida”.

Solução – Vocês duas chegaram meio por acaso e parecem completamente envolvidas com o trabalho.

Mônica – Sem dúvida. Muitas vezes saio daqui pensando se meus problemas são realmente importantes…

Luana – A gente aprende muito, cada paciente ensina uma coisa.

Compartilhe