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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.21

12/2010

População de rua

Invisíveis, excluídos, sem teto. Muitos são os nomes dados às pessoas que vivem em situação de rua nas grandes cidades brasileiras. O acesso aos cuidados básicos de saúde e a exclusão social estão entre as maiores dificuldades enfrentadas por essa população.

A experiência em Sâo Paulo

Ser morador de rua ou estar em situação de rua são critérios de inclusão no Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP (CRT DST/AIDSSP). Isso porque, segundo Rosa de Alencar Souza, gerente da assistência Integral à Saúde do CRT, “o fato de sermos sede da Coordenação Estadual DST/AIDS-SP nos dá mais recursos comunitários e amplia nossa rede social de apoio, ferramentas importantes no acompanhamento desta população”, explica Alencar. Outro motivo que habilita o CRT a atender esta população é a equipe multidisciplinar de que o serviço dispõe.

Lidar com esta população, muito distante do usuário ideal – que adere ao tratamento, comparece às consultas e realiza todos os exames – é um desafio para as equipes de saúde. “Muitas vezes, os sentimentos de impotência e frustração estão presentes no nosso dia-a-dia, pois nos desdobramos para conseguir uma vaga em uma casa de apoio, um encaixe com um especialista ou a realização de um exame, e a pessoa, por motivos diversos, não aceita ou não quer o que está sendo ofertado”, explica Cíntia Noncentini, assistente social do CRT DST/AIDS-SP.

Na opinião de Noncentini, o conceito de redução de danos é fundamental no atendimento às pessoas em situação de rua ou que moram na rua. “Esta população tem muita dificuldade em fazer o seguimento ambulatorial. Elas procuram o serviço em situação de urgência clínica, social ou subjetiva. Cabe ao serviço e aos profissionais de saúde acolher as demandas e fazer tudo o que for possível neste momento, pois esta é a única hora em que nós temos acesso a eles”, explica a assistente social.

Pelas ruas de BH

O Grupo Vhiver, de Belo Horizonte (MG), realiza o projeto Pelas Ruas. Com o apoio do Governo de Minas Gerais, que financia parte das ações dos multiplicadores, e da agência de comunicação Filadélfia, que ajuda na produção de material gráfico, a equipe atende a população de rua de Belo Horizonte e Região Metropolitana. Os profissionais saem às ruas e fazem abordagens em abrigos, além de oferecerem palestras de prevenção, demonstrações e distribuição de kits de higiene. O objetivo é promover a higiene pessoal e a qualidade de vida.

“Os profissionais são voluntários da casa e, antes de ir para a abordagem junto aos moradores de rua, precisam demonstrar capacidade de comunicação com o público alvo, sensibilidade e compreensão da realidade das ruas”, conta Valdecir Buzon, presidente do Grupo Vhiver.
O abandono é um dos principais desafios encarados pelas pessoas que vivem nas ruas. Para tentar amenizá-lo, a ONG faz encaminhamentos para hospitais, consultas médicas, disponibiliza local para banho e fornece alimentação diária na sede da instituição.

Protegendo Vidas
Desenvolvido pelas ONGs Se essa rua fosse minha e Excola e financiado pelo Unicef, o projeto Protegendo Vidas desenvolve um trabalho com crianças e adolescentes que vivem nas ruas do Rio de Janeiro. Eles participam de atividades como oficinas de arte, música e circo social. Além disso, assistem a filmes e participam de discussões sobre a problemática de viver nas ruas e as consequências disso. Existem, ainda, oficinas de saúde, onde são discutidos diversos temas como prevenção das DST/Aids e gravidez na adolescência.

Dentro do Protegendo Vidas, há uma ação voltada diretamente para os profissionais de saúde. Através de dinâmicas de grupo, eles podem apresentar suas dificuldades e, juntos, pensar em possíveis soluções. “A intençãoé qualificar os profissionais de saúde para que possam atender essa população de forma mais humanizada. Se o profissional começar a valorizar o atendimento, ele vai buscar meios de burlar a burocracia e prestar a assistência necessária”, conta Luciana Phebo, chefe do escritório da Unicef no Rio de Janeiro.

A ideia agora é que a iniciativa alcance âmbito internacional. “Os resultados no Rio de Janeiro foram muito positivos. Queremos que esse projeto seja referência. É preciso sistematizar toda essa experiência e levar para outros países”, diz Luciana.

Modelo PSF nas ruas do Rio
A Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil (SMSDC) está desenvolvendo um projeto com moradores de rua nos mesmos moldes do Programa ou Estratégia de Saúde da Família (PSF / ESF). Além dos profissionais de saúde que normalmente compõem as equipes, há ainda a participação de profissionais de saúde mental e dentistas. A equipe de saúde mental tem como foco o atendimento aos usuários de drogas. Os agentes comunitários de saúde funcionam também como redutores de danos, a partir de uma ação direta nas ruas. O projeto piloto é chamado de Saúde em Movimento nas Ruas.

“Os encaminhamentos para os serviços de saúde funcionam com os mesmos critérios da ESF para a população em geral. De acordo com a complexidade da situação de saúde, a pessoa é encaminhada para os serviços de atenção secundária ou terciária”, afirma Carolina Cruz, assistente social da SMSDC. “Esse projeto possibilita o reconhecimento dessa população como usuária do SUS, oferecendo o direito universal à saúde”, acrescenta. “Com esse projeto, a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil pretende conhecer melhor o processo de saúde e doença dessa população e se organizar para atender esse público extremamente vulnerável”, conclui Carolina.

Desde 2009, a SMSDC prepara os profissionais de alguns serviços de saúde para a melhoria do atendimento da população de rua através de rodas de educação permanente, onde se discute o perfil dessa população, as dificuldades de atendimento, as demandas apresentadas, a necessidade de trabalho em rede e a criação de fluxos de atendimento. A Gerência de Pneumologia Sanitária da SMSDC vem desenvolvendo ações junto aos abrigos e unidades de saúde para a construção de fluxo de atendimento e acompanhamento dos moradores de rua.

 

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