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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.15

12/2008

Prevenção além do preservativo

Passados quase 30 anos desde o início da epidemia de HIV/aids, o número de infecções continua alto. No ano passado, foram mais de quatro milhões de pessoas infectadas pelo HIV no mundo. O que reforça a tese de que o preservativo, por si só, não está sendo capaz de conter a epidemia. “O uso do preservativo ainda é a forma mais eficaz de prevenção do HIV, mas requer uma mudança de comportamento, onde variáveis culturais, sociais e econômicas podem influenciar negativamente para a incorporação definitiva dessa prática”, explica Mônica Barbosa, psicóloga do centro de pesquisa Projeto Praça Onze da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Precisamos incluir novas formas de prevenção que, juntamente com o uso do preservativo, possam contribuir para uma melhor prevenção do HIV, uma vez que não vislumbramos nenhuma possibilidade de vacina preventiva para os próximos anos”.

Prevenção biomédica
Depois do fracasso recente dos testes de vacina e do uso de microbicidas em mulheres, os olhares dos cientistas se voltam agora para duas promissoras opções de prevenção biomédica: a circuncisão e a profilaxia préexposição (Iprex). Os estudos clínicos dessas duas intervenções estão sendo realizados em vários países do mundo, inclusive no Brasil, onde serão feitos na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e no Projeto Praça Onze/UFRJ.

“As evidências sugerem que a quimioprofilaxia pré-exposição pode contribuir na prevenção do HIV”, afirma José Henrique Pilotto, médico e pesquisador do Instituto de Pesquisa Evandro Chagas da Fiocruz, observando que esse procedimento já é utilizado com sucesso em várias doenças como malária, tuberculose e meningite. O médico lembra que a quimioprofilaxia pré-exposição já reduziu a índices baixíssimos a transmissão vertical, de mãe para filho, e que o tratamento com antiretrovirais após exposição ocupacional vem sendo amplamente utilizado há anos. “Os estudos do Iprex em animais e em mulheres africanas mostram que estamos no caminho certo”, ressaltou Pilotto, durante seminário científico organizado pela Fiocruz no Dia Mundial de Luta contra a Aids.

Resultados animadores com Iprex
Os estudos clínicos sobre a quimioprofilaxia pré-exposição (Iprex) utilizam o anti-retroviral Truvada, uma combinação de tenofovir com emitricitabina (semelhante à lamivudina), num único comprimido. O Truvada está sendo registrado no Brasil e foi escolhido por ser seguro e eficaz, causando poucos efeitos colaterais durante o tratamento, e por ter uma eficácia de 100% nos testes pré-clínicos em primatas, mesmo após exposição anal repetida. O Truvada demonstrou também ter uma longa meia vida intracelular e uma alta concentração nos tecidos genitais dos macacos.

Além disso, estudos anteriores de profilaxia pré-exposição realizados em mulheres africanas apenas com o tenofovir revelaram que não houve ocorrência de toxicidade renal. Durante a pesquisa, das soroconversões observadas, duas foram no grupo que usou o tenofovir e seis entre as mulheres que tomaram placebo.

Estudos causam polêmicas
A polêmica em torno do Iprex, no entanto, é grande. Ativistas e pesquisadores contrários à pesquisa alertam sobre os perigos do uso de medicamentos de forma indiscriminada em pacientes saudáveis. Além dos riscos de efeitos colaterais, há o medo de que a profilaxia pré-exposição possa dar a ilusão de uma proteção total ao HIV, reduzindo assim o uso de preservativo nas relações sexuais. As críticas, no entanto, são rebatidas por pesquisadores do Iprex.

“Temos hoje várias estratégias de prevenção, mas não reduzimos a epidemia. Cada cidadão tem o direito de ter acesso ao maior número possível de intervenções que funcionem. Nosso trabalho como pesquisadores é testar a eficácia, respeitando os princípios éticos”, afirma Mauro Schechter, pesquisador principal do centro de pesquisa do Projeto Praça Onze da UFRJ. “Se confirmarmos a eficácia dessa forma de prevenção, caberá então aos governos definir como utilizá-la”, conclui o pesquisador.

Na América Latina, o Iprex será testado em 6 mil homens que fazem sexo com homens, com alto risco de infecção pelo HIV. Na África, a pesquisa será feita em heterossexuais e, na Ásia, em usuários de drogas injetáveis. Se comprovada a eficácia, os voluntários receberão a quimioprofilaxia durante os 72 meses do estudo e mais 72 meses, depois que a pesquisa for finalizada.

Circuncisão masculina
Outra estratégia de prevenção, não menos polêmica, é a circuncisão, que há anos vem sendo estudada por pesquisadores em todo o mundo. A circuncisão, retirada cirúrgica do prepúcio do pênis, foi capaz de reduzir em 60% a transmissão do HIV em heterossexuais masculinos, segundo estudos realizados na África e nos Estados Unidos. Os resultados foram considerados promissores, já que os homens heterossexuais são, hoje, vetores importantes da transmissão do HIV. Reduzir a infecção nessa população terá um efeito positivo na prevenção do HIV em mulheres e crianças.
“A circuncisão reduz a transmissão sexual do HIV principalmente da mulher para o homem circuncidado. Os três estudos realizados na África apresentaram uma alta redução de infecção pelo HIV no grupo de homens circuncidados e foram, inclusive, descontinuados precocemente para oferecer a circuncisão àqueles que estavam no braço do estudo dos não circuncidados”, informa Jorge Eurico Ribeiro, pesquisador do Instituto de Pesquisa Evandro Chagas da Fiocruz, responsável pelo estudo clínico da circuncisão como estratégia de prevenção no Brasil.

Difícil implementação
Além de reduzir o risco de infecção pelo HIV, a circuncisão melhora a higiene do órgão genital masculino, reduz a infecção por outras DSTs e o risco de desenvolver câncer de pênis. No entanto, valores culturais e religiosos podem dificultar a implementação dessa estratégia de prevenção, juntamente com o alto custo do procedimento e pelo fato de se tratar de uma mutilação.“Os profissionais do sexo vêm se mostrando bastante receptivos a esta prática de prevenção. Já os homossexuais temem que a circuncisão possa afetar a ereção e trazer prejuízos estéticos ao pênis”, informa o pesquisador da Fiocruz.

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