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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.07

11/2006

Adesão ao tratamento e qualidade dos serviços

Principais resultados das pesquisas brasileiras sobre adesão ao tratamento e qualidade dos serviços*

Este artigo resume as duas pesquisas sobre a assistência em aids no Brasil que a Equipe Qualiaids conduziu em 1998/99 e 2000/02.
1- O acesso livre e universal ao tratamento é condição básica para a adesão
• As prevalências de adesão foram semelhantes às obtidas em estudos de
metodologia comparável dos EUA e da Europa central (no estudo de 2002 com critério de 100% de comprimidos tomados nos últimos 3 dias, a prevalência foi 68%)
• O acesso livre aos serviços e ao tratamento é o principal determinante destas
taxas.
• Este resultado foi muito importante como contraposição ao argumento de agências internacionais e governos de países ricos que desaconselhavam o tratamento em países pobres devido ao presumível maior risco de não-adesão.

2- A adesão é um processo: não se “é” aderente; se “está” aderente

• A adesão atual não prediz bem a adesão futura;
• O início do tratamento e as trocas de esquemas são momentos cruciais;
• Episódios de não-adesão no passado e faltas freqüentes nas consultas implicam maior chance de não-adesão.

3- Constituem grupos com maior chance de não-adesão pacientes com:
• Nível muito baixo de escolaridade e/ou renda;
• Regimes mais complexos: maior número de comprimidos e/ou medicamentos;
• Depressão;
• Uso atual e abusivo de drogas.

4- Serviços “pequenos” (<100 pacientes) mostram maior chance de não-adesão (e de má qualidade)
• Grupos acompanhados em serviços com < 100 pacientes cadastrados mostram maior chance de não-adesão;
• Estes serviços mostram maior chance de pertencer ao grupo de pior qualidade.
• Nos piores serviços, a organização do trabalho é o principal determinante da má qualidade. O gerenciamento é burocrático e a atuação dos profissionais não é supervisionada ou discutida;
• Muitos serviços realizam estratégias de adesão, tais como grupos. Não se sabe, entretanto, a efetividade ou sequer a cobertura destas estratégias. Por outro lado, muitos serviços “acompanham” a adesão apenas por perguntas genéricas (“tá tomando direitinho?”) durante o atendimento.

5- Precisamos saber mais sobre adesão e qualidade, mas o que já sabemos é suficiente para instruir ao menos duas recomendações para os níveis gerenciais do programa:
• Universalização com qualidade: Serviços com número pequeno de pacientes são aceitáveis onde não há possibilidade de acesso geográfico aos serviços maiores, de maior experiência e qualidade. Nestes casos, garantir a integração do serviço com serviços maiores e mais especializados (não apenas para referenciar pacientes, mas para auxiliar e instruir cotidianamente profissionais e gerência);
• Garantir a equidade: implementar, nos serviços, fluxogramas de atendimento que priorizem grupos sob maior risco (muito baixa escolaridade; início/troca de esquema; faltosos nas consultas; uso de drogas, depressão; regimes muito complexos).

6 – Não manteremos taxas aceitáveis de adesão sem melhoria na qualidade dos serviços
• A existência de profissionais com experiência, tempo e disponibilidade para ouvir é condição absolutamente necessária para a boa qualidade. Mas não é suficiente.
• O trabalho necessita ser gerenciado de modo a priorizar grupos mais vulneráveis e auxiliar a integração da equipe. O desempenho dos profissionais e os resultados alcançados precisam ser constantemente avaliados com base nos princípios epidemiológicos, clínicos e éticos que fundamentam a assistência aos que vivem com aids no nosso país.
No sentido de contribuir para a melhoria gerencial, convidamos os leitores a conhecer um instrumento eletrônico de auto-avaliação da qualidade dos serviços que construímos com base nas nossas pesquisas:

Questionário Qualiaids.
Acesse www.aids.gov.br/qualiaids

*AUTORES: Maria Ines Battistella Nemes, Professora do Departamento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Coordenadora da Equipe Qualiaids, e Equipe Qualiaids: Alencar, TMD, Alves MTSB, Basso CR, Caraciolo JMM, Castanheira ERL, Melchior R, Santa Helena ET.

Bibliografia:
• Nemes MIB (Org.). Avaliação da aderência ao tratamento por antiretrovirais em usuários de ambulatórios do sistema público de assistência à AIDS no Estado de São Paulo: Coordenação Nacional DST/AIDS, Ministério da Saúde, Série
Avaliação No 1, Brasília, 2000. Disponível em : www.aids.gov.br
• Nemes MIB, Carvalho HB, Souza MFMS. Antiretroviral therapy adherence in Brazil. AIDS 2004; 18 (Suppl 3): 5-20.
• Nemes MIB, Castanheira ERL, Melchior R; Basso, CR; Alves, MTSSB; Avaliação da Qualidade da Assistência no Programa de Aids: questões para a investigação em serviços de saúde no Brasil, Cadernos de Saúde Pública. 2004, Rio de Janeiro, v. 20, n. Supl. 2, p. S310-S321, 2004.
• Melchior R, Nemes MIB, Basso CR, Castanheira ERL, Alves MTSSB, Buchalla, CM, Donini AA. Avaliação da estrutura organizacional da assistência ambulatorial em HIV/AIDS no Brasil. Revista de Saúde Pública. São Paulo: v.40, n.1, p.143 – 151, 2006

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