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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.06

09/2006

Problema atinge 60% das pessoas que usam inibidores de protease

Os efeitos adversos associados ao uso prolongado dos antirretrovirais não devem servir como um desestímulo ao uso dessas drogas em pacientes soropositivos. Afinal, é inegável o ganho na qualidade de vida conquistado por essas pessoas após a descoberta dessa terapia. Entretanto, a utilização em longo prazo desses medicamentos está levando mais de 60% dos pacientes a desenvolverem alterações metabólicas, como a hiperlipidemia, hiperglicemia e obesidade central. Até mesmo pessoas infectadas pelo HIV que não estejam utilizando os antirretrovirais têm apresentado alterações no metabolismo dos lipídeos.

O clínico geral Marcos César Monassa Monteiro, consultor do Ministério da Saúde e professor da Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), afirma que já estão comprovadas as profundas alterações metabólicas em pacientes que utilizam drogas como a estavudina (inibidor da transcriptase reversa análogo de nucleosídeo) e os inibidores de protease, como, indinavir e lopinavir com ritonavir. Especialista em alterações metabólicas, Monassa explica que todos os inibidores da protease causam algum tipo de disfunção metabólica, em função da alteração no perfil lipídico do paciente soropositivo: “Entre as mudanças mais significativas, estão o aumento do colesterol LDL e dos triglicerídeos”. O clínico acrescenta que ainda não foi descoberto o mecanismo que gera a alteração metabólica com o uso dos antirretrovirais. Porém, ele afirma que esse mecanismo pode provocar uma alteração da secreção de insulina no corpo do portador do HIV. E essas alterações secundárias levam ao desenvolvimento da aterosclerose, que é a formação de placas de gordura nas artérias. Essa gordura acaba por obstruir as artérias coronarianas e leva ao aparecimento de doença cardiovascular, como enfarte do miocárdio. (Leia sobre resistência à insulina nas páginas 6, 7, 8 e 9).

FATORES DE RISCO PARA AS ALTERAÇÕES METABÓLICAS
Diversos trabalhos mostram que, se o paciente soropositivo tem fatores de risco pré-existentes, como, o tabagismo, a obesidade ou um histórico familiar de doença cardiovascular, terá – assim como pessoas que não têm o vírus – maior possibilidade de desenvolver doença cardíaca. O médico, entretanto, alerta para os cuidados especiais que se deve ter ao prescrever uma medicação para os soropositivos: “A abordagem terapêutica para o soropositivo que tem colesterol alto é diferente daquela utilizada para o que toma anti-retrovirais. Isso porque algumas drogas interferem diretamente no tratamento com os antiretrovirais”, informa.

IDADE AVANÇADA FAVORECE O APARECIMENTO DAS ALTERAÇÕES METABÓLICAS
Monassa observa que essas alterações metabólicas são mais evidentes em pacientes acima de trinta anos: “Quanto mais jovem, mais fácil suportar essas mudanças. Quanto mais velho, mais evidentes e mais rápidas serão as alterações metabólicas. O importante é que o médico tenha clareza de que, ao prescrever o tratamento com anti-retrovirais, ele oriente o seu paciente sobre a necessidade de um controle alimentar – preferindo alimentos ricos em carboidratos complexos – e físico. Ou seja, uma mudança do hábito de vida. Assim, é possível protelar a alteração metabólica por um bom tempo”, sugere Monassa.

A IMPORTÂNCIA DO EXERCÍCIO FÍSICO
Entre as conseqüências mais importantes da alteração metabólica, está a lipodistrofia, que se divide em dois grupos: a lipodistrofia (braços e pernas muito magros e aqueles sulcos no rosto do soropositivo) e a lipohipertrofia (acúmulo de gordura em áreas como costas e barriga). Monassa argumenta que, para combater ou prevenir essas alterações, o exercício físico é fundamental. “A prática física aumenta a massa muscular e disfarça o excesso ou a falta de gordura no paciente”, explica. O especialista, no entanto, ressalta que é preciso muita cautela na orientação dessa atividade física. “O ideal é trabalhar exercícios de resistência, como a musculação, principalmente no paciente com lipodistrofia. Já no paciente com hipohipertrofia, podese intensificar a resistência aeróbica, com exercícios aeróbicos”.

MUDANÇA DE HÁBITOS ALIMENTARES
Outro ponto importantíssimo abordado pelo médico é a questão da dieta. É fundamental diminuir o consumo de gordura saturada, principalmente para o soropositivo que está com o colesterol elevado. Segundo Monassa, vários estudos têm demonstrado que ocorrem deficiências nutricionais de importantes elementos no metabolismo celular de pessoas soropositivas: aminoácidos, coenzimas, ácidos graxos, nucleotídeos e nucleosídeos. “Já a perda de massa muscular pode estar associada à deficiência de carnitina e seu derivado, a acetilcarnitina”, completa.
O especialista alerta também que o uso prolongado de inibidores da protease e de alguns análogos e não-análogos de nucleosídeos pode provocar resistência à insulina, que gera alterações metabólicas como hiperglicemia, hipertrigliceridemia e hipercolesterolemia. Monassa ressalta a necessidade de avaliar caso a caso, mas sugere algumas regras simples que podem ser aplicadas aos pacientes soropositivos: “O estímulo ao consumo de fibras, que são excelentes moduladores da absorção de carboidratos e gorduras no intestino é uma delas. É importante frisar que, quando ocorre hipertrigliceridemia, a ingestão de carboidratos deve ser criteriosa. Deve-se optar por alimentos integrais ricos em carboidratos complexos (amidos). As fibras desses alimentos regulam a absorção dos açúcares e, portanto, controlam os níveis de glicemia. É fundamental abolir o uso de açúcar refinado”, recomenda.

CONSCIENTIZAR O PACIENTE
Assim como outros especialistas, Marcos César Monassa Monteiro relata que existe uma dificuldade em mostrar ao paciente que o seu tratamento não se restringe apenas ao controle da carga viral e do CD4. “No tratamento de uma pessoa soropositiva, não se pode deixar de lado questões fundamentais, como o monitoramento da pressão arterial. Alguns pacientes simplesmente esquecem de tomar o remédio contra a hipertensão, mas tomam sem problemas os anti-retrovirais. Agora, o grande desafio dos profissionais de saúde é conscientizar esses pacientes que a qualidade de vida que eles conquistaram com esses medicamentos pode ficar ameaçada se eles não cuidarem globalmente de sua saúde”, finaliza o especialista.

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