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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.03

12/2005

Profissionais de saúde: estressados por natureza?

Várias são as questões potencialmente estressantes que fazem parte do cotidiano dos profissionais de saúde, exigindo deles um esforço adaptativo constante físico e emocional

O trabalho na área da saúde faz com que o profissional lide com situações muitas vezes temidas pelo ser humano: doença, sofrimento, desamparo e morte. “Esses fatores estressantes inerentes ao trabalho médico permeiam a formação médica e o exercício profissional”, comenta Luiz Antonio Nogueira Martins, do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo. “A medicina proporciona inúmeras gratificações psicológicas, como a possibilidade de aliviar a dor e o sofrimento, curar, prevenir, diagnosticar doenças e salvar vidas. Por outro lado, pode ser altamente estressante entrar em contato íntimo e freqüente com a dor e o sofrimento, lidar com pacientes terminais não aderentes ao tratamento, reivindicadores e autodestrutivos”, observa o psiquiatra.

ESTIMULAR A ADESÃO DO PACIENTE 
A médica infectologista, Joselita Maria Magalhães Caraciolo, diretora do ambulatório do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids-SP (CRT), concorda com Nogueira Martins: “Acompanhar o processo de morte é estressante. Não conseguir revertê-lo causa angústia e gera uma sensação de impotência terrível”, declara. Para ela, o aspecto psicossocial do paciente também pode ser considerado outra fonte de ansiedade médica. “Ter uma agenda cheia de doentes graves, que sofrem inúmeros preconceitos e vivem em situação de extrema pobreza, com carências e necessidades que estão acima de nossa governabilidade, é difícil”, comenta a médica.

Há ainda outras fontes estressoras no campo da medicina, entre elas a grande quantidade de pacientes para atender, os dilemas éticos (decisão sobre a continuidade ou interrupção do tratamento em casos graves, por exemplo), o receio de manusear fluídos (sangue e secreções) – especialmente em casos de doenças contagiosas, como aids e hepatites – além da dificuldade de comunicação com pacientes socialmente menos favorecidos. “Precisar manter a calma e estimular o paciente a continuar o tratamento quando o esquema terapêutico dele já está falido é estressante demais”, observa Gabriela Waghabi, infectologista do CRT DST/Aids-SP.

PRECARIEDADE DE CONDIÇÕES DE TRABALHO
As incertezas e limitações do conhecimento médico e a freqüente precariedade das condições de trabalho no sistema assistencial da rede pública, com raras exceções, também pesam sobre os ombros dos médicos. “Muitas vezes, eles são responsabilizados pela falta de medicamentos e equipamentos. Essa questão acaba repercutindo na relação médico-paciente e resulta em uma situação insatisfatória para ambos”, Todos esses fatores, associados à exposição a radiações e gases anestésicos, ao desconforto ergonômico (térmico e acústico), à necessidade de atualização constante, aliados a novas leis que respaldam a sociedade civil na denúncia de situações éticoprofissionais duvidosas e à crescente onda de violência que muitas vezes chegam aos hospitais, fazem com que os médicos vivam em constante situação de estresse. “Quem trabalha em hospitais de periferia corre riscos diariamente, tanto dentro como fora da instituição”, observa Rosana Del Bianco, diretora da internação do CRT DST/Aids-SP.

É importante ressaltar ainda que a hegemonia do discurso médico com relação aos demais profissionais de saúde muitas vezes dificulta o relacionamento com as equipes interdisciplinares, gerando ainda mais estresse. “As médicas muitas vezes sofrem um estresse a mais. O fato de serem mulheres as torna alvo de preconceito e descrédito”, aponta o psiquiatra Nogueira Martins.

FORMAS DE LIDAR COM O PROBLEMA 
“A avaliação de uma situação como mais ou menos estressante varia de acordo com a personalidade do indivíduo, magnitude, intensidade, freqüência, duração e previsibilidade da situação estressante e experiência anterior do profissional”, explica Nogueira Martins. Segundo ele, a capacidade de adaptação a situações estressantes inerentes à prática médica vai depender do indivíduo e dos mecanismos e recursos defensivos utilizados por ele, conscientes e/ou inconscientes. “Os médicos emocionalmente desajustados podem desenvolver a síndrome de Burnout ou síndrome do estresse profissional, caracterizada por sintomas somáticos (exaustão, fadiga, cefaléias, distúrbios gastrintestinais, insônia e dispnéia), psicológicos (humor depressivo, irritabilidade, ansiedade, rigidez, negativismo, ceticismo e desinteresse geral) e comportamentais (consultas rápidas)”, explica o psiquiatra da USP. “Um profissional que está Burningout tende a criticar tudo e todos que o cercam e desenvolve frieza e indiferença para com as necessidades e o sofrimento dos outros”, descreve Nogueira Martins. “Nesses casos, é fundamental que o médico procure ajuda de outro profissional”, recomenda o psiquiatra. “É essencial também que os profissionais da área da saúde tenham um espaço para compartilhar experiências, frustrações e angústias”, completa Stella Maris Bueno, infectologista, diretora da Gerência de Assistência Integrada à Saúde do CRT DST/Aids-SP.

O CRT DST/Aids-SP está construindo a Política Nacional de Humanização, que prevê o fortalecimento do trabalho em equipe, a transversalidade e a grupalidade. “Espera-se que esta ação reduza o nível de estresse entre médicos, enfermeiros e profissionais da área da saúde em geral e promova melhor qualidade de trabalho e de vida”, conclui João Bosco de Souza, gerente de RH da instituição.

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