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Saber Viver » Saber Viver n.21

04/2003

Quando os remédios não funcionam

Os medicamentos contra a Aids – os anti-retrovirais – fazem parte da vida da maioria dos portadores do HIV. Algumas pessoas passam anos com a mesma medicação, enquanto outras mudam constantemente de medicamentos. Para entender por que isso acontece, a Saber Viver ouviu médicos e soropositivos.

A função dos anti-retrovirais é proteger o sistema imunológico do ataque do HIV. Eles diminuem a quantidade de vírus presente no corpo e assim propiciam o fortalecimento do organismo. No entanto, para que a terapia contra a Aids tenha sucesso, é fundamental, em primeiro lugar, que os anti-retrovirais sejam tomados de acordo com as prescrições médicas. Caso contrário, corre-se o sério risco de o HIV adquirir resistência contra os medicamentos, que passam a não fazer mais efeito contra o vírus. Segundo o infectologista Mauro Schechter, a falta da adesão necessária ao tratamento é o principal motivo para a mudança do esquema de medicamentos prescrito pelo médico. Esse é o caso de Aluísio, 34 anos, que teve muita dificuldade em se adaptar à rotina da terapia anti-retroviral. Existem ainda pessoas que, por causa de doenças pré-existentes, não conseguem absorver o medicamento de forma satisfatória, como Alexandre Meyer, (foto) 41 anos.

Ele já tentou inúmeras combinações de anti-retrovirais, sem que o tratamento contra a Aids surta o efeito desejado. “Sigo as recomendações médicas com precisão, mas meu organismo tem dificuldade em absorver os medicamentos”, conta Alexandre. “Desde a adolescência sofro com problemas intestinais. É um problema que toda a minha família tem”. Atualmente, Alexandre está tentando mais uma combinação de anti-retrovirais. Além disso, ele tem que tomar vários outros medicamentos para as doenças que já se instalaram e para evitar outras. Sua situação é delicada, pois seu CD4 está muito baixo, e a carga viral, muito alta. Contudo, Alexandre não deixa de se engajar e lutar por dias melhores para quem tem Aids. Ele trabalha na Rede Nacional de Pessoas Soropositivas do Rio de Janeiro e acha fundamental o apoio do grupo para superar os problemas que a Aids traz. “Temos que aceitar nossos limites e ser capazes de nos adaptar. Isso só se consegue com apoio da família, de amigos ou em uma Organização Não-Governamental para pessoas com HIV/Aids, onde encontramos muita gente parecida conosco, mas também muita gente diferente. O importante é aceitar o humano dentro dessa diversidade”.

Quando mudar o tratamento
“É preciso ter em vista a importância de adequar a terapia anti-retroviral à realidade das atividades da vida diária do paciente”, afirma o infectologista Marco Antônio de Ávila Vitória, assessor técnico da Coordenação Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde. “Quando a dificuldade em seguir o tratamento é grande, é preciso avaliar a possibilidade de mudança de esquema com ajustes que garantam ao paciente uma melhor adesão à terapia”, diz ele. Mauro Schechter aponta que existem muitas variáveis a serem consideradas para decidir trocar a medicação de um paciente. “O aumento da carga viral é uma delas, mas não só. O CD4 do paciente e a velocidade com que ele aumenta em resposta ao tratamento têm que ser levados em conta. É verdade que quanto mais alto o nível de CD4 maior é a proteção contra doenças, mas não dá para generalizar e dizer qual o nível de CD4 que uma pessoa deve ter para não adoecer. Isso é individual”, diz o infectologista.
Outro fator a ser considerado é o estado clínico do paciente. Ele é fundamental para que o médico possa avaliar se o tratamento está sendo bem sucedido ou quando é a hora certa de trocar os medicamentos. Por isso, as consultas médicas devem ser freqüentes. “É preciso que o médico conheça bem o histórico do paciente. Eles precisam construir uma relação de confiança”, diz Schechter. Segundo o médico, nem sempre um insucesso no tratamento significa que ele falhou e, muitas vezes, antes de trocar a medicação, pode-se insistir um pouco e monitorar com exames, pois não são muitas as combinações disponíveis para quem não é virgem de tratamento.

Exame de genotipagem
Quando surge a necessidade de mudar a terapia anti-retroviral, em alguns casos, os médicos podem contar com o auxílio do exame de genotipagem. Ele é um instrumento para auxiliar o médico na hora de decidir que mudanças poderão ser feitas, pois indica quais medicamentos não devem ser usados. “Com o repertório de drogas atualmente disponíveis, é um exame útil principalmente para obter informações sobre contra quais medicamentos as cepas de HIV presentes no sangue de determinado paciente já desenvolveram resistência”, diz o infectologista Marco Antônio Vitória. “O teste de genotipagem sempre deve ser conjugado com os dados da história clínica do paciente, principalmente quanto aos anti-retrovirais que já usou no passado. Sua utilidade na decisão terapêutica é maior naquele paciente que tem poucas falhas virológicas ao tratamento”, completa.

DEPOIMENTO

“Agora estou mais consciente “

Aluísio passou anos sem conseguir tomar seus medicamentos corretamente. Resultado: ele já passou por diversas combinações de anti-retrovirais e nunca conseguiu manter sua saúde estável. Hoje, depois de passar por algumas doenças, Aluisio está convencido da importância de seguir corretamente o tratamento anti-retroviral.

“Por várias vezes esqueci de tomar meus medicamentos, principalmente nos finais de semana. Quando saio ou vou dormir fora, é complicado ter que levá-los. As pessoas ficam sempre perguntando o porquê de tanto remédio, e é muito constrangedor. Quando estava com namorado, deixei de tomar os remédios diversas vezes porque não queria que ele soubesse que eu era soropositivo e isso atrapalhou bastante meu tratamento. Hoje estou mais consciente. Há um ano comecei uma nova combinação e estou levando o tratamento a sério. Nunca deixo de levar meus remédios para onde eu for e respeito os horários. Minha recompensa é que meu CD4 subiu, minha carga viral ficou indetectável e meus problemas de saúde acabaram. Quando conhecer alguém, vou contar sobre a minha condição de soropositivo. Se a pessoa não me aceitar, tudo bem. O que não quero é ter que ficar tomando os remédios escondido.”


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