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Saber Viver Profissional de Saúde » Saber Viver Profissional de Saúde n.10

09/2007

Quatro novos ARVs são apresentados na IAS

ENTREVISTA / Dra Monica Merçon

INFECTOLOGISTA DO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO CLEMENTINO FRAGA FILHO, DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO E DO PROJETO PRAÇA XI

 

 

A chegada de mais quatro novos anti-retrovirais, as discussões sobre início precoce do tratamento e os eventos metabólicos marcaram os debates da 4ª Conferência da International Aids Society (IAS) sobre Patogênese, Tratamento e Prevenção do HIV, realizada na Austrália, de 22 e 25 de julho deste ano. Entre os profissionais brasileiros presentes estava Monica Merçon, infectologista do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Projeto Praça XI. Ela nos traz, nesta entrevista, os principais destaques do evento.

SV PROF – QUAL FOI O PRINCIPAL TEMA TRATADO NESTA EDIÇÃO DA IAS?
Monica Merçon – Quando começar a terapia com anti-retrovirais (ARV). Como temos anti-retrovirais mais seguros, as pesquisas vão investigar agora qual é o impacto da terapia anti-retroviral mais precoce. Já há um consenso de começarmos o tratamento quando o CD4 estiver em torno de 350. Não esperar que ele caia tanto. E, num futuro próximo, saberemos se é mais indicado começar o tratamento com uma contagem ainda mais alta de CD4 para prevenir os eventos metabólicos e doenças crônicas não relacionadas diretamente ao HIV, como a diabete e as doenças cardiovasculares.

SV PROF – E A QUESTÃO DAS DOENÇAS METABÓLICAS?
MM – Foram apresentados mais resultados do estudo SMART que compara duas estratégias de tratamento.
A de manter a terapia com ARVs, quando os pacientes alcançassem CD4 de 350, e a de suspender a medicação. E esse estudo mostrou que o grupo que suspendia tinha não apenas mais ocorrência de doenças oportunistas, como de outras cardiovasculares. Será investigado agora se a terapia mais precoce pode evitar esses eventos metabólicos no paciente. Outros estudos já realizados indicam que o início precoce da terapia com ARV poderia evitar, ou reduzir, essas alterações metabólicas que afetam principalmente o coração.

SV PROF – MUITAS NOVIDADES EM TRATAMENTO?
MM – Estamos num momento muito interessante porque estão lançando duas novas classes de medicamentos, os inibidores de integrase e os inibidores de CCR5. E num futuro próximo, teremos mais quatro novos anti-retrovirais. O Realtegravir é uma medicação muito promissora, com poucos efeitos colaterais, bem tolerada e que deve ser liberada no ano que vem, tanto para a falha como para início de tratamento. É um inibidor de integrase, uma nova classe de medicamentos que consegue baixar de forma muito rápida a carga viral.

O Maraviroc é o primeiro inibidor de CCR5 já liberado, inicialmente para pacientes com falha de tratamento.

Trata-se de um medicamento considerado de resgate que, quando associado a outros, aumenta o CD4 e reduz a carga viral dos pacientes. No entanto, esse medicamento exige que se faça o teste de tropismo, um teste novo que verifica se o HIV daquele paciente usa a proteína CCR5 para entrar na célula. A Rilpivirina (TMC 278) é um inibidor da transcriptase reversa não análogo de nucleosídeo, testado em virgens de tratamento, sem nenhum impacto para o perfil lipídico, e com eficácia imunológica igual, quando comparado ao Efavirenz. É uma droga que se toma uma vez ao dia e que vai ser bastante utilizada no início de tratamento. O Intravirina (TMC 125) é da mesma classe, porém será indicado para resgate.
Até o momento, os resultados dos estudos com essa droga vem demonstrando que acrescenta benefícios à resposta imunológica e virológica em pacientes com múltiplas falhas, quando associado ao Darunavir.

SV PROF – É UM BOM MOMENTO ENTÃO PARA PACIENTES EM FALHA DE TRATAMENTO?
MM – Exatamente. Teremos mais três medicamentos de resgate. No momento, o único medicamento que temos para fazer o resgate é o T20, que é muito pouco tolerável. Portanto, quem está tomando Kaletra e está falhando com o arsenal terapêutico de que dispomos agora tem poucas opções para troca de tratamento, o que vai melhorar significativamente a partir da liberação desses novos medicamentos. E vale lembrar que as pessoas que nunca fizeram tratamento com os antiretrovirais ou que estejam no início da terapia também terão novas
possibilidades de tratamento sem os efeitos colaterais metabólicos em longo prazo.

SV PROF – ALGUMA NOVIDADE SOBRE PREVENÇÃO?

MM – Como não temos nenhuma vacina em vista, e como os microbicidas não se mostraram eficazes em evitar a transmissão, a medida mais eficaz apresentada foi a circuncisão, que já havia sido apresentada, em estudo piloto, na última reunião da IAS, no Rio de Janeiro. Outros estudos complementares foram feitos e comprovam a custo-efetividade da circuncisão, já que se trata de uma cirurgia.

Os resultados mostram que apenas 7% apresentaram complicações, facilmente tratáveis.

Nenhuma complicação séria foi observada. Nos países desenvolvidos, a circuncisão já é adotada como prática. Está se propondo, para África, adotá-la como medida de saúde pública de longo prazo. O Brasil fica um pouco de fora dessa discussão sobre medidas biomédicas de prevenção, porque investe mais nas campanhas de conscientização, mas acredito que isso mude com o tempo porque já há boas evidências no campo biomédico.

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