Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids

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Saber Viver Edições Especiais » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids » Saber Viver Profissional de Saúde Adolescência e Aids n.02

03/2008

Quem cuida da saúde do adolescente?

Dúvidas por todos os lados, diferentes soluções. Nos locais visitados pela Saber Viver, cada equipe de saúde responde a seu modo a pergunta acima. Em geral, os jovens que adquiriram o HIV por via vertical, atendidos desde a infância na pediatria, continuam vinculados a esse serviço. Já os adolescentes infectados por via sexual ou drogas normalmente são encaminhados para o ambulatório de adultos. A invisibilidade desse jovem dentro dos serviços de saúde chama a atenção. Não sabemos quantos são, quais as suas especificidades e necessidades, e poucos freqüentam os grupos de jovens com HIV/aids que se formam na pediatria. Essa é a regra, mas felizmente há exceções, e o esforço de alguns profissionais para mudar esse quadro.

FORTALEZA/BELO HORIZONTE
NO HOSPITAL SÃO JOSÉ E NO CTR-DIP DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, PEDIATRA CONCENTRA ATENDIMENTO DE JOVENS

Concentrar o atendimento dos adolescentes em profissionais que tenham maior afinidade com esse público é uma das estratégias encontradas pelas equipes dos Serviços de Aids Pediátrica para aprimorar sua assistência. Em Fortaleza, a pediatra do Hospital São José, Dayse Oliveira, tem absorvido pacientes de outros pediatras que não se sentem tão à vontade quanto ela no trato com o adolescente. “Eu gosto muito de lidar com eles”, diz ela, sem negar que há momentos em que não sabe como responder suas questões. “Afinal, minha formação foi voltada para o cuidado de crianças”.

Procura-se jovens com diagnóstico recente
A pediatra Flávia Faleiro, do Centro de Treinamento e Referência em
Doenças Infecto-Parasitárias (CTR-DIP) do Hospital das Clínicas, em Belo Horizonte, concentra os atendimentos dos adolescentes, sejam eles infectados pelo HIV desde o nascimento ou com diagnóstico recente. “Ficou combinado que, ao chegar ao hospital, todo jovem de até 20 anos deve ser encaminhado para mim. Mas infelizmente, isso não tem acontecido com a freqüência esperada”, constata. “O procedimento ainda está um pouco confuso, pois, para o SUS, pessoas acima de 13 anos são consideradas adultas. Então, depende de quem está na recepção. Às vezes encaminham para mim e às vezes para o ambulatório de adultos”, diz a médica.

SÃO PAULO
NO SAE CIDADE LÍDER II, JOVEM ESCOLHE PROFISSIONAL QUE VAI ATENDÊ-LO

Arecepção do adolescente que chega ao serviço, seja pela primeira vez ou para mais uma consulta, é um dos momentos chave da assistência. Segundo os profissionais do Serviço de Atendimento Especializado (SAE) Cidade Líder II, nessa hora é preciso saber acolher e aconselhar. Além disso, a equipe julga importante estimular, desde o princípio, que o jovem perceba com quais profissionais sente mais afinidade “Trabalhamos para que seja estabelecido um forte vínculo entre o jovem e o profissional”, explica a psicóloga Cristina Lara. “Isso inclui deixá-lo livre para escolher o profissional que irá atendê-lo”, comenta.

Segundo a diretora do SAE, Suiko Kosaka, essa escolha gera vantagens para o tratamento. “A confiança na relação médico-paciente é fundamental para o sucesso no tratamento” diz. “Alguns profissionais já conseguem ver o perfil do paciente e orientar para o profissional mais adequado ao caso”, completa.

RIO DE JANEIRO
JOVEM É ATENDIDO SEM DISTINÇÕES NO HOSPITAL DOS SERVIDORES DO ESTADO

Ainfectologista e pediatra Maria Letícia Cruz atende no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), indistintamente, adolescentes que vivem com HIV/aids por infecção vertical e horizontal. “Nunca vi essas duas populações como distintas”, afirma. “O perfil sócio-econômico e cultural da nossa clientela é o mesmo. São jovens oriundos de comunidades carentes, com anseios e necessidades semelhantes, e famílias, freqüentemente, desestruturadas”.

Apesar da taxa de prevalência do HIV, hoje, no Brasil, ser de 0,7%, ela aumenta muito quando se foca nas áreas empobrecidas das grandes cidades. Dentre os jovens acompanhados no HSE, muitos possuem parentes infectados pelo vírus. Casos de mãe e filho soropositivos, sem que tenha havido transmissão vertical, são comuns. “Estamos tratando de famílias vivendo com HIV/aids”, enfatiza a médica, acrescentando que, graças ao amplo acesso a anti-retrovirais, é cada vez maior o número de jovens nascidos com o vírus que convivem com seus pais.

Toda adolescência é complexa
Para Maria Letícia, o clássico perfil de jovem superprotegido pela família atribuído aos nascidos com o HIV, também não faz sentido. “Ainda que
o processo de amadurecimento possa demorar um pouco mais, aos 16 anos eles estão invariavelmente buscando sua autonomia, passando por crises e sendo, por vezes, ríspidos ou agressivos. Assim como acontece com os adolescentes de transmissão horizontal, seus cuidadores começam a se afastar, nessa fase”, diz ela. Esse aspecto da relação pais e filhos adolescentes é crucial. “Se pais ou cuidadores não forem estimulados a acompanhar de perto o tratamento, a adesão vai piorar”, ressalta a médica.

Trabalho individualizado
Mesmo apontando semelhanças entre seus pacientes, Maria Letícia reforça, contudo, que bons resultados só aparecem se cada um deles é
assistido em suas singularidades. “Nossa equipe se reúne quinzenalmente para discutir cada caso e buscar estratégias possíveis. Analisamos a estrutura familiar de cada paciente e que pessoas podemos convocar para ajudar, assim como os pontos da assistência que precisam ser fortalecidos”.

Nas reuniões, Maria Letícia comemora especialmente a preciosa colaboração do psicanalista Paulo Dickstein. “A visão que ele nos oferece mudou radicalmente a qualidade do trabalho, tanto em relação ao atendimento prestado quanto como suporte para equipe, que convive com inumeráveis frustrações”, afirma a médica, lembrando que cada jovem que abandona o tratamento ou menina que engravida mais uma vez é um baque. “Ter uma equipe integrada é muito importante nesses momentos, melhor ainda se puder contar com
um olhar de fora”, sustenta.

HOSPITAL DOS SERVIDORES DO ESTADO
1.200 pacientes com HIV/aids (aproximadamente)
60 adolescentes acompanhados no hospital, metade de transmissão horizontal
Adolescentes até 20 anos incompletos são acompanhados na pediatriaHOSPITAL DOS SERVIDORES DO ESTADO
1.200 pacientes com HIV/aids (aproximadamente)
60 adolescentes acompanhados no hospital, metade de transmissão horizontal
Adolescentes até 20 anos incompletos são acompanhados na pediatria

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